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CRÍTICA | A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai (Idem, 2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
28 de jul.
4 min de leitura

Na forma de uma grande brincadeira, Eliza Capai capta visões muito singulares de crianças sobre o mundo ao seu redor, entre a delicadeza em tratar do universo adulto e a doçura da infância.


 

A infância é um momento de ouro na vida do ser humano. Como o primeiro estágio após o nascimento, é quando se tem o primeiro contato com a realidade ao redor. Para todos, deveria ser o tempo de brincar, explorar, se divertir e, sobretudo, aprender. Ainda que sintamos, enquanto crianças, estarmos distantes do mundo dos adultos, proporcionalmente é um de nossos momentos de vida mais curtos.

 

O cinema sempre se mostrou muito interessado por esse momento da vida. Seja em histórias sobre o passado e a nostalgia da infância, como o recente brasileiro O Último Episódio, de Maurílio Martins; para viver o mundo dos adultos através da fantasia, como a comédia de máfia setentista dirigida por Alan Parker Bugsy Malone, com apenas crianças e adolescentes à frente das câmeras; ou para enfrentar a dura realidade do amadurecimento precoce em condições de vulnerabilidade, como no drama Cafarnaum, de Nadine Labaki, poucas foram as vezes que as crianças assumiram o protagonismo da maneira como Eliza Capai propôs no documentário A Fabulosa Máquina do Tempo, que estreou mundialmente no Festival de Berlim.

 

Colocando meninas, na faixa de 8 a 12 anos, residentes da cidade de Guaíbas/PI, no sertão nordestino, de frente para a câmera, Capai conduz o diálogo como iguais, e capta das jovens visões de mundo muito singulares. A partir da ideia de uma máquina do tempo, trabalha com as relações entre passado, presente e futuro a partir da escuta das diferentes gerações de uma cidade em constante evolução e modernização, oferecendo a possibilidade de encenarem, como uma grande brincadeira, parte dessas histórias a fim de conhecerem melhor a própria região em que vivem.

 

Então, logo em seus primeiros minutos, as meninas conversam com uma mulher já idosa. Moradora de Guaíbas desde o nascimento, conta que o acesso a água encanada apenas se deu no início da década de 2000, e que, antes desse tempo, buscava água diretamente do rio, carregando em baldes na cabeça até sua casa. A experiência seguinte são as crianças conhecendo a sensação de viver nesse recorte temporal, e seguir para casa carregando baldes com água sobre suas cabeças, interpretando a vida desta senhora no passado.

 

Ao dialogar, em seguida, com as mães de algumas dessas garotas, é possível notar um fenômeno de amadurecimento precoce em suas respectivas gerações, porquanto engravidaram ainda muito jovens, adolescentes, anos antes da efetiva chegada da fase adulta, levando-as a necessidade de assunção dos desafios da maternidade. É algo que parece um tanto diferente às crianças de hoje, seguindo para a adolescência, que conhecemos no decorrer do filme. Com mais acesso à educação, inclusive muito incentivada pelas famílias, apresentam uma rede de apoio muito mais ampla para si – do conhecimento do próprio corpo (como a primeira menstruação, em determinada passagem) a forma como educação sexual deixa de ser um tabu, a certa maneira.

 

Em outras oportunidades, Capai questiona às crianças acerca do sentimento em serem mulheres no mundo contemporâneo. Com posicionamentos maduros para a idade referentes à liberdade, misoginia e preconceito de gênero, encenam passagens que refletem seus desejos para quando crescerem, e reconhecem a necessidade de perseguir seus próprios sonhos, e afastarem-se de homens que as busquem limitar. Inclusive, brincam com essas encenações de maneira bem-humorada, com uma boa dose de humor sarcástico, em uma cena que reflete as consequências, aos homens, de comportamentos machistas.

 

A religião, de forte presença na sociedade brasileira, também é abordada no olhar das mães e das filhas. De antiga maioria católica, as Igrejas evangélicas aos poucos tomaram um espaço que antes pertencia tão somente ao Papa. Com certa vastidão de opções, refletem nos benefícios de congregar em seus respectivos espaços, e nos sentimentos em agarrar-se à fé como forma de buscar por esperança no mundo e na vida futura. É o ponto em que se sustenta a maior discordância entre a diretora e as crianças, na crença sobre o pecado e uma entidade onipresente.

 

Ao longo de todo o debate que propõe, Capai é muito respeitosa no registro da realidade que a circunda. A cultura musical também é explorada em determinado segmento, na contraposição entre a música cristã e o funk, cujas crianças cantam e dançam com ambas, ainda que reconheçam não compreender o sentido figurado do que é dito na segunda.

 

Quando então decide trabalhar sobre o futuro, incentiva a imaginação das crianças pedindo que contem sobre seus sonhos, e posteriormente os encenem diante da câmera – de advogada criminalista, policial, médica à atriz, as meninas brincam de sonhar, na mesma medida em que se enxergam exercendo aquilo pelo qual pretendem estudar para se tornar. Ao mesmo tempo, entram e brincam com uma máquina do tempo imaginária, perpassam entre os tempos, exploram a metalinguagem, ao brincar de fazer um filme, e sobretudo, conhecem mais sobre si, o mundo ao redor, as próprias famílias e a cidade em que residem. Ao final da experiência, saem dando ainda mais valor às vidas que levam junto de famílias amorosas, enquanto nós, espectadores, cremos com esperança nas próximas gerações. 

 

Avaliação: ★★★★½

 

A Fabulosa Máquina do Tempo (Idem, 2026)

Direção: Eliza Capai

Gênero: Documentário

Origem: Brasil

Duração: 72 minutos (1h12)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: No sertão do Piauí, meninas navegam entre cultos evangélicos, redes sociais e sonhos de futuro. Ao inventarem uma máquina do tempo, revisitam as histórias duras de suas mães e avós, marcadas pela pobreza e desigualdade, e viajam para um futuro onde se enxergam livres e realizadas. Entre brincadeiras e fabulação, elas questionam o que significa se tornar mulher. Um filme sobre o delicado limiar entre infância e adolescência, narrado por quem ainda vive essa travessia.

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