CRÍTICA | O Último Episódio, de Maurílio Martins (Idem, 2025)
- Henrique Debski

- 9 de out. de 2025
- 4 min de leitura
O Último Episódio abraça a nostalgia dos anos 1990 para trabalhar uma geração que cresceu em uma realidade analógica, com a importância das presenças físicas e do uso da criatividade nas próprias vidas.

Uma das melhores experiências, quando se fala em cinema, é sair de um filme com uma boa sensação, e um sentimento de que a obra funcionou para você. Ao longo da projeção de O Último Episódio, e especialmente após seu término, senti-me tomado por uma espécie de doçura, uma emoção repentina, que me levou de volta ao meu “eu” com dez anos de idade.
Foram lembranças e sentimentos simples, como de voltar para casa da escola, em uma sexta-feira a noite como todas as outras, ligar para meu amigo João, no prédio, e combinar de irmos um na casa do outro para jogar videogame, ou descer no térreo do condomínio para atiçar a imaginação com alguma brincadeira. Eram tempos de uma vida mais simples, sem preocupações e nem muitas responsabilidades – épocas essas que, infelizmente, não mais voltarão.
Quando li a sinopse de O Último Episódio, em um primeiro momento confesso que precisei reler. Não parecia verdade. Mas sendo, um sentimento nostálgico já veio à mente – esse que apenas se fortaleceu durante e após o filme.
É nítido, já os créditos iniciais, que já referenciam os anos 1990, década na qual o longa se passa, que havia algo muito pessoal no projeto de Maurílio Martins. Os instantes seguintes, de apresentação do protagonista, dos seus amigos, e especialmente, do bairro Jardim Laguna, na periferia de Contagem/MG, imprimem na ternura de como são filmados um sentimento de saudades e de boas memórias. É a partir de filmagens antigas, de época, que a direção desenvolve o tempo em que se passa, sua região, seus costumes e o estilo de vida daquele período – das festas de aniversário em casa, das reuniões em bares no final de semana, do futebol das crianças no meio da rua e da própria imagem granulada, deteriorada com o inevitável passar do tempo.
E a série animada Caverna do Dragão era uma das grandes sensações do período entre as crianças (e até adolescentes), que narrava as aventuras de jovens presos em um mundo de fantasias, guiados pelo Mestre dos Magos, e lutando contra as forças do temido Vingador. Era impossível não se identificar, de alguma maneira, com os personagens da série, assim como para todos os lados corria o boato, verdadeiro, de que nunca houve um final oficial (não até alguns pouquíssimos anos, aliás, quando finalmente foi produzido).
Em meio a esse contexto, a ideia do protagonista, Erik, de produzir uma versão desse “último episódio” como forma de chamar a atenção, e encantar, seu interesse romântico da escola, é algo que facilmente conseguimos enxergar na proposta das clássicas comédias “coming of age” norte-americanas dos anos 80, especialmente aquelas assinadas por John Hughes e outros cineastas que surfavam na onda de sua popularidade. E é clara uma certa inspiração de Maurílio nesse período do cinema norte-americano, porém com um delicado toque de inocência, e sobretudo, uma identidade puramente brasileira, que extrapola os limites de suas memórias pessoais para atingir, na verdade, uma nostalgia geral.
A exploração de uma realidade sem internet, completamente analógica, força os personagens a tornarem-se ainda mais criativos para a concretização do projeto que idealizam. Trata-se de usar uma antiga filmadora para produzir um desfecho para a série de maneira completamente artesanal, criativa, inspirada em lendas e teorias que se espalhavam pelo boca-a-boca no entorno da série, e se utilizando, também, de uma boa dose de inventividade própria para tirá-la do papel.
Ao mesmo tempo que a direção de Maurílio Martins filma aqueles personagens com carinho, sobre a inocência do início da adolescência e com uma ingenuidade jovial típica daquele tempo, há, por detrás do protagonista, um grande vazio familiar – sobretudo paterno – que se desenrola através de um encontro com o passado, em uma relação que se firma com as dificuldades do presente e a incerteza do futuro, diante da situação financeira de sua casa.
Apesar do curto intervalo de tempo da narrativa – em torno de seis meses, creio – há verdadeiramente um aspecto de amadurecimento em Erik, o qual o excelente trabalho de Matheus Sampaio transparece muito bem, na mescla dessa transição retratada.
Ainda que eventualmente o filme se preencha com algumas situações desnecessárias, que trabalham um clima de aventura que não condiz exatamente com o seu estilo mais pé no chão (como a situação do assalto e o escambo na comunidade), e algumas soluções de última hora pouco críveis (vide o “deus ex machina” da apresentação na escola), há todo um cuidado da produção em reproduzir os anos noventa de corpo e alma, sobretudo com a detalhada direção de arte, de modo a construir para uns um sentimento de nostalgia, e para outros talvez um retrato de como foram aqueles tempos – e de seus desafios, como a inflação e o menos acesso a informação como um todo (afinal, não existia internet).
Fato é que, mesmo eu tendo nascido literalmente uma década depois de quando se passa o filme, O Último Episódio conseguiu me fazer sentir a nostalgia. Por um lado, há um grande interesse, e fascínio, de minha parte pelo século XX, e por outro uma saudade da infância, e talvez pelo fato de lembrar-me de uma época ainda quase inteiramente analógica, cuja internet e a tal globalização atual só começou, de fato para mim, durante a adolescência. Acaba, ao mesmo tempo que apela às lembranças dos mais velhos, e uma demonstração do passado aos mais novos, servindo também como uma forma de trabalhar a importância da desconexão (com o mundo virtual) e a distância de telas durante as primeiras fases da vida, abraçando a criatividade acima de tudo, para leva-la adiante consigo durante a fase adulta.
Avaliação: 4/5
O Último Episódio (Idem, 2025)
Direção: Maurílio Martins
Roteiro: Maurilio Martins e Thiago Macêdo Correia
Gênero: Comédia, Drama
Origem: Brasil
Duração: 113 minutos (1h53)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Erik, um garoto de 13 anos, tem uma paixão platônica por Sheila e, para se aproximar dela, diz ter em casa uma fita com o lendário “último episódio” do desenho Caverna do Dragão. Com a ajuda de seus amigos, busca uma saída para a enrascada em que se meteu, vivendo uma intensa história de amadurecimento.



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