CRÍTICA | Star Wars: O Mandaloriano e Grogu, de Jon Favreau (Star Wars: The Mandalorian and Grogu, 2026)
- Henrique Debski

- há 10 minutos
- 7 min de leitura
Star Wars mostra que ainda tem fôlego longe dos Jedi, em aventura protocolar e episódica, porém divertida, que aprofunda a relação paternalista entre o Mandaloriano de Pedro Pascal e seu aprendiz Baby Yoda.

Desde a aquisição da Lucas Film pela Disney, há mais de uma década, por uma vultuosa soma em dinheiro, sempre ficara claro que o estúdio faria o possível para a franquia Star Wars render o máximo de frutos possíveis. Desde então, foi lançada uma nova trilogia, duas prequelas (Rogue One e Solo), e mais uma dezena de séries para o streaming – por vezes, até três em um mesmo ano. Fato é que com o tempo, o que oferecia certo sentimento de nostalgia, porquanto retornávamos àquele mundo apenas de década em década, foi-se perdendo na medida em que as visitas passaram a ser constantes. O excesso de conteúdo, em formato seriado, tirou parte do ineditismo da franquia, a qual, aos poucos, se aproximou do desgastado universo de heróis da Marvel, em estilo e tramas paralelas acontecendo simultaneamente, em um grande mundo compartilhado repleto de plasticidades gráficas cada vez menos coloridas.
Ao longo desses anos, cheguei apenas a assistir a primeira temporada de The Mandalorian (até comecei a segunda, mas nunca passei dos primeiros episódios), e The Acolyte, por acreditar que poderia haver alguma ousadia no desenvolvimento de uma história que se passa antes de tudo – o que até havia, a princípio, ainda mais com Kogonada na condução de alguns episódios, mas se perdeu na estrutura padrão de séries da Disney, na base da mesma fórmula de sempre.
Quando entrei, então, para O Mandaloriano e Grogu, fui sem esperar muito mais do que poderia encontrar na série protagonizada por Pedro Pascal. E de fato, não vai além da continuidade a um conteúdo já estabelecido, sem uma grande narrativa que justifique precisamente o uso de uma sala de cinema – nada que a série, produzida com boa qualidade, já não havia feito antes, e poderia continuar. Tanto é uma história secundária contada aqui (o equivalente a uma ‘side quest’ em um videogame de mundo aberto, diga-se de passagem) que o filme em momento algum torna-se proibitivo ao espectador, sem depender dos acontecimentos das outras produções, senão talvez por uma mínima noção de quem são os dois personagens protagonistas – o que o próprio filme também explica, rapidamente.
E depois de três temporadas, e tempo suficiente para se familiarizar ao universo, tanto a equipe quanto o elenco fazem deste projeto, quase irrelevante, uma divertida surpresa aos descrentes de que Star Wars ainda poderia render algumas surpresas agradáveis. Na mescla entre estilos cinematográficos, gêneros e movimentos norte-americanos, Jon Favreau caminha por um mundo que abraça desde elementos épicos-históricos ao faroeste e o cyberpunk, tudo de uma única vez, sob um aspecto de épico impresso pela trilha musical de Ludwig Göransson, um dos melhores pontos do filme.
Ao colocar o Mandaloriano e Grogu em mais uma aventura servindo à República, na caça aos antigos aliados do Império, a trama de cooperação entre a dupla, já confortável e trabalhando em conjunto há tempo suficiente, é explorada com muita naturalidade dentro de uma relação paternalista de proteção e auxílio mútuo. Não se trata apenas de um homem adulto protegendo seu “filho”, mas do inverso também ocorrendo porquanto resolvem em conjunto os mistérios e desafios que os cercam no cumprimento da missão designada. Mais do que isso, a partir dessa ideia o longa se mostra capaz de evitar um ‘deus ex-machina’ na transição do segundo para o terceiro ato, em uma passagem que soa exaustiva, é verdade, mas firma de vez esse tratamento cooperativo que, no fim, se torna a alma do projeto.
Não obstante, ainda que não exista um risco verdadeiro aos personagens, na medida em que o longa se constitui apenas um “caso da semana”, do qual não consegue se esquivar do estilo episódico do seriado, o texto de Jon Favreau, Dave Filoni e Noah Kloor ao menos se esforça para construir algo mais complexo, oferecendo reviravoltas no cumprimento da missão a partir de novos personagens, ao mesmo tempo que explora também uma espécie interessante do universo da franquia, pouco aproveitada em outras produções: os Hutt.
Claramente, essas escolhas de expansão do universo não são em vão. Existe também o interesse em vender, no futuro, novos derivados criados a partir desses personagens, seja dos Hutt, ou mesmo da comandante da República vivida por Sigourney Weaver (que não deixou a impressão de estar muito confortável no personagem, porém).
Seja como for, O Mandaloriano e Grogu conseguiu um feito improvável e surpreendente comigo, ao mostrar que ainda existe espaço e possibilidade para o universo de Star Wars se expandir, mesmo que em uma aventura protocolar como esta. Ao menos, como bem reforçou Matheus Mans em reportagem ao jornal Estadão, é um filme que toma riscos ao voltar-se a um público familiar e despretensioso, como algo divertido, mas ao mesmo tempo praticamente irrelevante ao cânone geral. Mais ainda, é talvez o primeiro filme da franquia nos cinemas onde os Jedi não aparecem e nem interferem na narrativa, bem provando que é possível explorar aquela realidade sem recorrer à “Força” como chamariz.
Avaliação: 3.5/5
Star Wars: O Mandaloriano e Grogu (Star Wars: The Mandalorian and Grogu, 2026)
Direção: Jon Favreau
Roteiro: Jon Favreau, Dave Filoni e Noah Kloor
Gênero: Ação, Aventura
Origem: EUA
Duração: 132 minutos (2h12)
Disponível: Cinemas
Sinopse: O maligno Império caiu, mas senhores da guerra imperiais permanecem espalhados pela galáxia. Enquanto a recém-formada Nova República trabalha para proteger tudo aquilo pelo que a Rebelião lutou, ela conta com a ajuda do lendário caçador de recompensas mandaloriano Din Djarin e de seu jovem aprendiz, Grogu.
English review
Star Wars proves it still has life beyond the Jedi in a formulaic and episodic, yet entertaining adventure that further deepens the paternal relationship between Pedro Pascal’s Mandalorian and his apprentice, Baby Yoda.
Since Lucasfilm was acquired by Disney more than a decade ago for a massive sum of money, it was always clear that the studio would do everything possible to make the Star Wars franchise yield as many fruits as it could. Since then, a new trilogy, two spin-off prequels (Rogue One and Solo: A Star Wars Story), and over a dozen streaming series have been released - sometimes as many as three in the same year. The truth is that, over time, what once carried a sense of nostalgia, as we returned to that universe only once every decade or so, gradually faded as those visits became constant. The overload of serialized content stripped part of the franchise’s uniqueness away, slowly bringing it closer to the worn-out Marvel-style superhero universe, with its interconnected narratives happening simultaneously in a massive shared world filled with increasingly bland digital aesthetics.
Over the years, I only ended up watching the first season of The Mandalorian (I even started the second, but never made it past the early episodes), as well as The Acolyte, because I believed there could be some boldness in developing a story set before everything else - and at first, there was, especially with Kogonada directing some episodes - but it eventually got lost within the standard Disney series structure, built around the same formula as always.
So when I went into The Mandalorian & Grogu, I expected little more than what I might already find in the series starring Pedro Pascal. And indeed, the film never goes beyond continuing already established material, without presenting a grand narrative that truly justifies the use of a movie theater screen - nothing the well-produced series itself had not already done before, and could continue doing. In fact, the story told here feels so secondary (essentially the equivalent of a “side quest” in an open-world video game) that the film never becomes inaccessible to viewers unfamiliar with the other productions, aside perhaps from needing a minimal understanding of who the two protagonists are - something the movie itself quickly explains anyway.
After three seasons and enough time for both the cast and crew to become familiar with the universe, however, they manage to turn this almost irrelevant project into a pleasant surprise for those who doubted Star Wars could still produce something genuinely enjoyable. Blending cinematic styles, genres, and American filmmaking traditions, Jon Favreau crafts a world that embraces epic historical elements, westerns, and cyberpunk all at once, wrapped in a sense of grandeur reinforced by Ludwig Göransson’s score, one of the film’s strongest qualities.
By placing the Mandalorian and Grogu in yet another mission serving the Republic, hunting down former Imperial allies, the cooperative dynamic between the pair - already comfortable with one another and working together for long enough - is explored naturally within a paternal relationship built on mutual protection and assistance. It is not simply about an adult man protecting his “child,” but also the reverse occurring as they solve mysteries and face challenges together while carrying out their assigned mission. More than that, this idea allows the film to avoid a deus ex machina during the transition from the second to the third act in a sequence that admittedly feels exhausting, but ultimately solidifies the cooperative dynamic that becomes the soul of the entire project.
Even so, despite the fact that there is never any real danger for the characters, as the film essentially functions as a “case of the week” and cannot fully escape the episodic structure of the television series, the screenplay by Jon Favreau, Dave Filoni, and Noah Kloor at least strives to build something more layered, offering twists within the mission through new characters while also exploring one of the franchise’s more interesting and underused species: the Hutts.
Clearly, these choices to expand the universe are not accidental. There is also an obvious interest in selling future spin-offs built around these characters, whether centered on the Hutts or even the Republic commander played by Sigourney Weaver - although she does not seem entirely comfortable in the role.
Be that as it may, The Mandalorian & Grogu achieved something genuinely surprising for me by proving there is still room and possibility for the Star Wars universe to expand, even through a conventional adventure like this one. At the very least, as Matheus Mans aptly pointed out in a report for Estadão, it is a film willing to take risks by embracing a more family-friendly and unpretentious tone - something fun, yet practically irrelevant to the broader canon. More importantly, it may well be the first Star Wars theatrical film in which the Jedi neither appear nor interfere in the narrative, proving that it is entirely possible to explore that universe without relying on “the Force” as its main attraction.



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