CRÍTICA | Na Zona Cinzenta, de Guy Ritchie (In the Grey, 2026)
- Henrique Debski

- 21 de mai.
- 4 min de leitura
Entre planos mirabolantes e protagonistas anti-heróis, Guy Ritchie brinca com a moralidade de seus personagens em thriller de ação dinâmico que imerge o espectador ao mapear ações e possibilidades.

O cinema de Guy Ritchie nasceu no coração do Reino Unido, em obras que brincavam com o mundo do crime britânico a partir de um estilo único, de humor irreverente e sátiras ácidas por meio de divertidas comédias de erros, narradores e protagonistas pouco confiáveis, e um desordenamento temporal como parte da linguagem dos longas – e talvez até sua marca registrada.
Fato é que, nos últimos anos, o cineasta deixou-se levar por longas de orçamento mais robusto, grandes elencos, e congelou parte desse seu estilo, com roteiros que, ainda mantendo algum aspecto de manipulação para guardar mistérios e reviravoltas, e elementos próprios de sua filmografia passada, trilhavam caminhos mais óbvios, como Operation Fortune e Guerra Sem Regras; ao passo que, em outras oportunidades, melhor aproveitadas, experimentou com outros projetos, como o excelente thriller de guerra O Pacto.
Em um retorno tímido às origens, num meio-termo entre esse momento passado e presente, Na Zona Cinzenta reúne como protagonistas o trio com quem Ritchie mais trabalhou nos últimos anos – Henry Cavill, Jake Gyllenhaal e Eiza González – para um thriller de ação em ritmo acelerado.
Em um primeiro momento, é inegavelmente incômoda a constante necessidade de uma narração para explorar todo o contexto sobre o qual se molda a narrativa. Trata-se de uma longa introdução, sobre quem são os protagonistas, seus trabalhos, a missão que têm pela frente, entre questões legais, o estabelecimento do antagonista, o caso em questão, e como todas as peças se conectam. São facilmente cerca de trinta minutos em que há premente relevância em construir todo um tabuleiro político, para colocar os protagonistas na caça pelo dinheiro de um bilionário, líder de um império criminoso, de quem precisam retomar a soma de um bilhão de dólares contraídos em empréstimos nunca devolvidos, sob o pretexto de investimentos, utilizados para fraudar os credores em um grande esquema de lavagem de capitais, que mantém a operação em constante funcionamento.
O que nas mãos de um diretor sem inspiração poderia se tornar maçante, Guy Ritchie torna dinâmico a partir de uma preocupação em ilustrar todo o passo a passo do plano de seus personagens, para que consigam chegar ao ponto de interesse da missão – qual seja, encontrar-se pessoalmente com o mafioso para recuperar o dinheiro em nome do cliente. Para isso, a narrativa move-se constantemente por duas ou três frentes, em diferentes cidades e países, reforçando uma faceta do mundo presente, hiper conectado através das redes e da internet, onde uma batalha jurídica burocrática, envolvendo bens ao redor do mundo, em clima de urgência, pode ser solucionada com imensa facilidade e rapidez (com uma ajuda simpática do texto, claro, para simplificar o processo), contrapondo a reação de sucesso dos protagonistas à raiva e desespero do vilão no decorrer do tempo.
Em seguida, quando finalmente conseguem chegar à proposta de se encontrarem pessoalmente com o mafioso – vivido por Carlos Bardem – em sua ilha particular, a preocupação que antecede o fatídico dia se dá com a preparação de rotas de fuga e planos com possibilidades distintas, para o caso de necessitarem de uma retirada rápida. Ritchie prepara tanto seus personagens quanto o espectador para caminhos delineados, e mapeia suas estratégias de maneira a tornar o ensaio de uma jogada também uma experiência imersiva. Existe cuidado em explorar cada uma das rotas, seus desafios, pontos fortes e fracos em um formato que lembra uma estrutura de videogame (algo ao estilo GTA V, na preparação dos golpes).
Quando se acredita conseguir prever o próximo passo, e a maneira como a narrativa seguirá a partir da preparação, Na Zona Cinzenta surpreende ao desviar do óbvio com um contratempo, ainda que, em seguida, abrace o esperado, apenas empurrando o clímax adiante, para reforçar a complexidade de seu desafio final. É onde reside a cerne da ação, que se torna, por um lado, previsível ao conhecermos a preparação, mas ao mesmo tempo gratificante em como nos imerge àquela realidade, na qual conhecemos as trilhas, rotas de fuga e planos para escapar da ilha. Tudo isso em uma decupagem que valoriza as coreografias e o espaço em que situa seus combates, sejam corpo a corpo ou através de armas de fogo.
No final, ainda que permeado por algumas previsibilidades, Na Zona Cinzenta transforma o burocrático em dinamismo a partir da montagem, assinada pela dupla Martin Walsh e Jim Weedon, que nunca desacelera o ritmo e faz questão de trabalhar com a imagem, ilustrando o máximo que consegue de tudo o que é falado. Em apenas noventa minutos, somos bombardeados com informações e uma grande teia de relações rumo a desconstrução de um grande esquema criminoso, de maneira didática o suficiente para embarcarmos, acompanhando três protagonistas carismáticos, confortáveis entre si, ao ponto de facilmente venderem uma aliança de muitos anos e vivências em conjunto. No mais, o longa prova também conhecer muito dessas personagens, enquanto autoconscientes de seus trabalhos, não exatamente como heróis (mas anti-heróis), no combate a uma figura criminosa através de meios jurídicos e usando das mesmas armas e métodos escusos, sem preocupações em sujar as mãos. É o melhor de Guy Ritchie em alguns anos, e um projeto que reflete parte de seu estilo característico, aliado a uma narrativa mais tradicional hollywoodiana, repleto de exageros e uma certa megalomania – um conjunto que, desta vez, funcionou muito bem.
Avaliação: 4/5
Na Zona Cinzenta (In the Grey, 2026)
Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Guy Ritchie
Gênero: Thriller, Ação
Origem: EUA, Reino Unido
Duração: 98 minutos (1h38)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Uma negociadora contrata dois especialistas em resgates para recuperar uma fortuna bilionária. Para isso, eles precisam traçar uma rota de fuga segura, mas o plano rapidamente se transforma em uma guerra de estratégia, traições e sobrevivência.



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