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CRÍTICA | Gonzaguinha: Da Maior Liberdade, de Susanna Lira (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 11 minutos
  • 7 min de leitura

Através da montagem dinâmica apenas com textos e imagens de arquivo, Susanna Lira homenageia Gonzaguinha em Da Maior Liberdade, enquanto explora o ressoar de sua voz no presente.


 

É a segunda vez que, assistindo a um filme de Susanna Lira, tenho a oportunidade de conhecer um personagem brasileiro do qual apenas “sabia de nome”. A primeira vez aconteceu há dois anos, durante o 29º É tudo Verdade, quando me sentei para assistir a Fernanda Young: Foge-me ao Controle. Sabia, eventualmente, da relevância de Young como grande roteirista, e uma pessoa descontraída, espontânea, cuja montagem do documentário, construída como uma viagem em sua mente, a partir de imagens de arquivo, falas e entrevistas, a investigava sob uma face muito pessoal, potencializando a linguagem cinematográfica do documentário para muito além do tradicional formato de entrevistas com terceiros, resgatando memória.

 

Agora em Gonzaguinha: Da Maior Liberdade, Susanna não apenas repete o feito de um documentário estiloso e autoral como também assume mais dois desafios. O primeiro, como integralizar a música e o repertório do biografado à proposta de explorar quem de fato fora, nessa mescla com seus pensamentos também narrados pelas entrevistas ao longo da vida; e o segundo, creio que ainda maior, residente na complexidade de reunir o arquivo de Gonzaguinha – afinal, falecera ainda jovem, aos quarenta e cinco anos, no início da década de 1990, logo pouco desse acervo estaria disponível com facilidade na internet.

 

O trabalho de pesquisa realizado por Rodrigo Alzuguir, Ítalo Rocha e Clara Eyer, entre texto e imagens, consegue reunir uma quantidade impressionante de materiais nos quais o artista reflete sobre a própria vida (nascimento e criação no Rio de Janeiro), o Brasil da ditadura militar, sua personalidade – nos campos pessoal e profissional –, e especialmente a relação com o pai, Luiz Gonzaga, de quem demorara a se aproximar, e de quem também buscou se distanciar artisticamente, ainda que carregasse parte da inspiração e talento deste.

 

A direção segue a mesma proposta do longa de Fernanda Young ao evitar a voz de terceiros sobre a pessoa biografada (a única exceção são específicas imagens de arquivo), concentrando-se em um mosaico que nos permite conhecer Gonzaguinha por suas próprias palavras. A montagem assinada por Ítalo Rocha permite essa ligação com o cantor que não apenas ultrapassa a tela, como também o aspecto do espaço-tempo, partindo para além do século XX. Ao iniciar-se com a canção Artistas da Vida, filmagens do centro do Rio de Janeiro atual mostra como a música do artista não se encontra distante da realidade presente. Pelo contrário, o longa busca justamente por essa aproximação como forma de ressaltar a relevância do legado de Gonzaguinha, antes mesmo de deixá-lo proferir suas primeiras palavras no filme dedicado a manutenção de sua memória, voltando a essa abordagem já pela reta final, quando compara suas manifestações pelos desaparecidos da Guerrilha do Araguaia com as vítimas de violência policial.

 

Quando encontra dificuldades pela falta de imagens e registros originais de Gonzaguinha, com criatividade Susanna Lira opta pela encenação. O texto, no entanto, segue original do artista. Utilizado como base da narrativa, e o conector das diversas frentes exploradas dessa figura central, como a ponte assumida pela montagem para transitar entre as temáticas, duas entrevistas escritas para o jornal O Pasquim, nos anos de 1981 e 1990, são reproduzidas em excertos nos quais André Dale interpreta o próprio Gonzaguinha, cuja câmera busca observá-lo com certa naturalidade, de forma a integrar e dialogar com as imagens de arquivo.

 

E nesse formato dinâmico com o qual Susanna Lira trabalha seus filmes, Fernanda Young e Gonzaguinha cruzam seus caminhos cinematográficos a partir da espontaneidade que exalavam, cada qual a sua forma, enquanto pessoas, e cuja qual a diretora muito bem aproveita em dois longas documentais que buscam ao máximo compreender a mente, a arte, e consequentemente o legado desses indivíduos. Torna-se um cinema de humanidade, pouco preocupado necessariamente em contar histórias que podem ser facilmente encontradas em uma página da internet, mas sim descobrir quem foram esses protagonistas a partir de suas próprias palavras, e eternizar suas memórias em obras que, no fundo, surgem como homenagens.

 

Em um exercício de experimentar com a linguagem do documentário e vasculhar por imagens de arquivo em fontes diversas, Da Maior Liberdade é um título que se casa muito bem ao filme dedicado a Gonzaguinha. Não apenas pela referência direta ao álbum do artista, são palavras que também definem o espírito do próprio filme: livre para explorar esse personagem através de sua voz, até mesmo quando recorre a um ator para encenar passagens de entrevistas não filmadas. Para além da homenagem e dos paralelos passado-presente, que ressoam a voz do cantor, ainda tive a oportunidade, em razão do filme, de conhecer mais de Gonzaguinha e de sua obra, que agora desejo me aprofundar.

 

Avaliação: ★★★★½

 

Gonzaguinha: Da Maior Liberdade (Idem, 2026)

Direção: Susanna Lira

Roteiro: Rodrigo Alzuguir

Gênero: Documentário

Origem: Brasil

Duração: 78 minutos (1h18)

Nos cinemas a partir de 03/09.

 

Sinopse: Um mergulho pelo universo particular do cantor Gonzaguinha a partir de suas próprias palavras, revelando o homem sensível por trás da obra ardente.

 

English review

 

Through dynamic editing using only text and archival images, Susanna Lira pays tribute to Gonzaguinha in Da Maior Liberdade, while exploring the resonance of his voice in the present.

 

This is the second time that, while watching a film by Susanna Lira, I have had the opportunity to get to know a Brazilian figure whom I only “knew by name”. The first time happened two years ago, during the 29th É Tudo Verdade, when I sat down to watch Fernanda Young: Foge-me ao Controle. I was vaguely aware of Young's relevance as a great screenwriter, and as a relaxed, spontaneous person, whose documentary, constructed as a journey through her mind from archival images, statements and interviews, investigated her from a deeply personal perspective, taking the cinematic language of the documentary far beyond the traditional format of interviews with third parties, recovering memory.

 

Now, in Gonzaguinha: Da Maior Liberdade, Susanna not only repeats the achievement of a stylish and authorial documentary, but also takes on two more challenges. The first is how to integrate the music and repertoire of the subject into the proposal of exploring who he really was, in this mixture with his thoughts, also conveyed through interviews conducted throughout his life; and the second, I believe even greater, lies in the complexity of gathering Gonzaguinha's archive - after all, he died young, at the age of forty-five, in the early 1990s, meaning that little of this material would have been readily available on the internet.

 

The research work carried out by Rodrigo Alzuguir, Ítalo Rocha and Clara Eyer, between text and images, manages to bring together an impressive amount of material in which the artist reflects on his own life (his birth and upbringing in Rio de Janeiro), Brazil under the military dictatorship, his personality - both personally and professionally - and especially his relationship with his father, Luiz Gonzaga, whom he took a long time to grow close to, and from whom he also sought to distance himself artistically, even though he carried part of his inspiration and talent.

 

The direction follows the same approach as the feature about Fernanda Young by avoiding third parties' voices about the person being portrayed (the only exception being specific archival images), focusing instead on a mosaic that allows us to get to know Gonzaguinha through his own words. The editing, signed by Ítalo Rocha, allows this connection with the singer to not only transcend the screen, but also the dimension of space and time, moving beyond the twentieth century. Beginning with the song Artistas da Vida, footage of present-day downtown Rio de Janeiro shows how the artist's music is not distant from today's reality. On the contrary, the feature seeks precisely this connection as a way of emphasizing the relevance of Gonzaguinha's legacy, even before allowing him to speak his first words in the film dedicated to preserving his memory, returning to this approach toward the final stretch, when it compares his statements about those who disappeared during the Araguaia Guerrilla with victims of police violence.

 

When faced with difficulties caused by the lack of original images and recordings of Gonzaguinha, Susanna Lira creatively opts for reenactment. The text, however, remains the artist's original words. Used as the foundation of the narrative, and as the connector between the various fronts explored in relation to this central figure, like the bridge established by the editing to move between the different themes, two interviews written for the newspaper O Pasquim, in 1981 and 1990, are reproduced in excerpts in which André Dale portrays Gonzaguinha himself, with the camera seeking to observe him with a certain naturalness, integrating and engaging in dialogue with the archival images.

 

And in this dynamic format through which Susanna Lira approaches her films, Fernanda Young and Gonzaguinha cross paths cinematographically through the spontaneity they both exuded, each in their own way, as people, which the director makes very good use of in two documentary features that seek, as much as possible, to understand the minds, art, and consequently the legacies of these individuals. It becomes a cinema of humanity, little concerned with necessarily telling stories that can easily be found on an internet page, but rather with discovering who these protagonists were through their own words, and immortalizing their memories in works that, at their core, emerge as tributes.

 

In an exercise in experimenting with the language of documentary and scouring various sources for archival images, Da Maior Liberdade is a title that fits the film dedicated to Gonzaguinha very well. Not only because of the direct reference to the artist's album, but also because these words define the spirit of the film itself: free to explore this character through his voice, even when it turns to an actor to reenact passages from interviews that were not filmed. Beyond the tribute and the past-present parallels that echo the singer's voice, I also had the opportunity, because of the film, to learn more about Gonzaguinha and his work, which I now want to explore further.


★★★★½


Gonzaguinha: Da Maior Liberdade opens at Brazilian theaters at September 3.

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