TIFF 51 | A Good Little Soldier, de Stéphane Brizé (Un Bon Petit Soldat, 2026)

Muito alinhado ao seu tradicional cinema anticapitalista, em A Good Little Soldier Stéphane Brizé provoca o espectador desde os instantes iniciais, em uma incursão insalubre rumo às profundezas do trabalho em escritórios.

Com os créditos surgindo em tela ao som de uma versão em ritmo de rock da clássica e esperançosa canção What a Wonderful World, originalmente gravada por Louis Armstrong, Stéphane Brizé explora com sarcasmo as imagens que projeta por detrás dos nomes do elenco e da equipe do filme. Em uma referência a Charles Chaplin, cenas aceleradas de pessoas, trabalhadoras, andando e saindo do metrô constituem com freneticidade uma faceta do mundo contemporâneo, onde simplesmente parar de produzir não é uma opção.
É justamente nesse espaço do transporte público que vemos Carla, uma executiva de meia-idade e mãe de uma criança, pela primeira vez, chegando em seu novo emprego, no qual irá liderar o departamento de recursos humanos de uma grande empresa seguradora. A primeira reunião com as cabeças das demais equipes, junto ao presidente da companhia, encontra-se permeada por um clima de desconforto, com a exibição de um vídeo institucional, pronto para ser veiculado nas redes sociais, chamando pessoas jovens para ingressarem na empresa, como um espaço de grandes oportunidades para suas carreiras. O silêncio diante das perguntas do CEO, e a dúvida sobre o que responder revela certo ar tóxico, e desespera a novata, que não sabe o que falar e tampouco ler nas entrelinhas de uma sala repleta de pessoas que mal conhece.
O medo predomina sua mente - qualquer passo em falso é risco certo de demissão, e a perda de uma possível grande carreira pela frente. Não acompanhamos, nesse sentido, o dia a dia exato de Carla na empresa, mas o decorrer de algumas semanas e quem sabe meses trabalhando no local. Em salas acinzentadas, filmadas sob um tom azulado e impessoal pela fotografia de Antoine Héberlé, a protagonista parece aprisionada à sua mesa. Alba Rohrwacher, a alma do filme, em uma dos melhores trabalhos de sua carreira, compõe inicialmente sua personagem como uma mulher pró-ativa, cheia de energia, e desde já animada para dar o seu melhor à companhia que a admitiu e nela confiou para chefiar seu enorme quadro de funcionários.
No decorrer desse tempo, entretanto, sua fisionomia se altera drasticamente. Quase nunca a encontramos do lado de fora do prédio - Carla está sempre trabalhando, mesmo depois que quase todos vão embora. Encontra-se com suas amizades apenas através de videochamadas, e nunca vemos seu filho fora da tela do computador.
Aos poucos, esse excesso de trabalho começa a demonstrar seus efeitos, e das piores maneiras possíveis. Não apenas o cansaço físico e mental desgasta a personagem, nas olheiras e em certa desaceleração, parte da sutil atuação de Rohrwacher, como a demonstração de “fraquezas” passa a ser uma preocupação ainda maior de algo a ser evitado.
Em suas funções como líder de recursos humanos, questões morais precisam ser enfrentadas a todo tempo, e o poder de decisão, e da solução de conflitos, não necessariamente cabe à ela, mas sim a imaginar o que aqueles acima diriam para ser feito, porém sem a possibilidade de consultá-los diretamente. Um verdadeiro campo minado se estabelece em cena, ao passo que o poder da caneta pesa em sua mão, entre o olhar piedoso, como uma pessoa que, de certa forma, compreende o que os outros passam, por estar no mesmo lugar, e o receio de, ao agir de maneira justa, tornar-se justamente a pessoa a sua frente, chorando após anos de serviço ao ter a chance de ser demitida por não atingir acima da própria meta de produtividade.
A desilusão é o maior sentimento que se explora em tela. Com sua câmera na mão, que se movimenta livremente pelo ambiente dos escritórios, em aproximações repentinas e planos acelerados, a freneticidade da rotina de trabalho quase ininterrupta, levadas à imagem por Brizé, nunca deixa espaço à protagonista questionar a realidade em que vive, ao passo que desespera o espectador a partir dessa toxicidade.
Nas transições de um dia para outro, com até certos saltos temporais em algumas oportunidades, o diretor filma grandes prédios de escritórios com janelas espelhadas, típicos das grandes metrópoles atuais, como gigantes colossos, em uma terra dominada por eles. É justamente quando materializa o vilão de sua obra - não pessoas físicas, mas as grandes corporações compostas e lideradas em conjunto por indivíduos que posicionam o lucro e a produtividade acima de tudo, tal como justamente a empresa em que Carla trabalha, uma dentre tantas iguais que se encontram neste grupo, como a demonstração material de uma das piores facetas do capitalismo.
Não apenas dessa forma, o cineasta deixa claro também que essas corporações não possuem ideologia. Apenas surfam naquilo que encontra-se atual, infiltrando-se na sociedade ao buscar pelo diálogo da maneira mais ampla com seus públicos-alvos, sem internamente refletir aqueles valores que propaga para fora das paredes de seus escritórios.
Como a ideia que trabalha no decorrer de toda a narrativa, ao longo de cem minutos, Brizé nunca se incomoda em reciclar a metáfora visual de Chaplin na sequência inicial para além da mera referência com as pessoas caminhando pelas estações de metrô, quando toda a realidade abordada pelo longa, sob um viés incrivelmente realista, como o retrato de uma sociedade adoecida por uma noção de produtividade não apenas cruel, como insustentável à própria espécie humana, se faz mais do que suficiente para, com originalidade, construir a mesma ideia de que não somos nada além de “gados” aguardando pelo abate no mundo empresarial. Além de projetar ao espectador uma constante verdadeira, fruto de uma observação atenta e preocupada com o mundo, também mostra como Carla, no final das contas, é tão somente uma boa soldada desse universo corporativo e capitalista, tal como o CEO da empresa em que trabalha (no máximo um sargento do time), ou qualquer de seus colegas, quando a verdadeira liderança é exercida pelo dinheiro e por elementos e ideias que se estendem para muito além de meros indivíduos, e também perduram para além de nossa existência individual neste plano. É um registro cruel, porém verdadeiro, de um mundo doloroso.
Avaliação: ★★★★★
A Good Little Soldier (Un Bon Petit Soldat, 2026)
Direção: Stéphane Brizé
Roteiro: Stéphane Brizé, Coralie Amedeo e Olivier Gorce
Gênero: Drama
Origem: França
Duração: 102 minutos (1h42)
51th Toronto International Film Festival (TIFF)
Sinopse: Aos 43 anos, Carla é uma executiva dedicada e de alto desempenho que construiu uma carreira de sucesso, frequentemente em detrimento da vida familiar. Recém-contratada como diretora de recursos humanos de uma grande seguradora, ela recebe a missão de promover o bem-estar dos funcionários sem comprometer as metas de produtividade impostas pela empresa. Ao descobrir práticas de gestão tóxicas, Carla precisa enfrentar os limites de sua lealdade profissional e os compromissos que ameaçam sua própria humanidade.
English review
Very much in line with his traditionally anti-capitalist cinema, Stéphane Brizé provokes the viewer from the opening moments of A Good Little Soldier, in an unhealthy plunge into the depths of office work.

As the credits appear on screen to the sound of a rock version of the classic, hopeful song What a Wonderful World, originally recorded by Louis Armstrong, Stéphane Brizé sarcastically explores the images projected behind the names of the film's cast and crew. In a reference to Charles Chaplin, accelerated scenes of working people walking and leaving the subway stations frenetically portray one facet of the contemporary world, where simply stopping production is not an option.
It is precisely in this public transportation setting that we first see Carla, a middle-aged executive and mother of a child, arriving at her new job, where she will lead the human resources department of a major insurance company. The first meeting with the heads of the other teams, alongside the company's president, is permeated by an atmosphere of discomfort, as they watch a corporate video intended for social media, inviting young people to join the company as a place offering great career opportunities. The silence in response to the CEO's questions, and the uncertainty about how to answer, reveal a certain toxic atmosphere and leave the newcomer desperate, unsure of what to say or how to read between the lines in a room full of people she barely knows.
Fear dominates her mind - any misstep carries the risk of dismissal and the loss of what could be a great career ahead of her. In this sense, we do not follow Carla's precise day-to-day routine at the company, but rather the passage of several weeks, and perhaps months, working there. In grayish rooms, filmed in bluish, impersonal tones by Antoine Héberlé's cinematography, the protagonist seems imprisoned at her desk. Alba Rohrwacher, the soul of the film, delivers one of the finest performances of her career, initially shaping her character as a proactive, energetic woman, already eager to give her best to the company that hired her and trusted her to lead its enormous workforce.
As time goes by, however, her appearance changes drastically. We almost never see her outside the building - Carla is always working, even after nearly everyone else has left. She meets her friends only through video calls, and we never see her son beyond the computer screen.
Gradually, this excessive workload begins to reveal its effects, and in the worst ways possible. Not only does physical and mental exhaustion wear the character down, visible in her dark circles and a certain slowing of her movements, as part of Rohrwacher's subtle performance, but the display of "weaknesses" also becomes an even greater concern, something to be avoided at all costs.
In her role as head of human resources, moral questions must be confronted at every turn, and the power to make decisions and resolve conflicts does not necessarily rest with her. Instead, she must imagine what those above her would tell her to do, without the possibility of consulting them directly. A true minefield unfolds on screen as the weight of the pen bears down on her hand, caught between a compassionate gaze, as someone who understands to some extent what others are going through because she occupies the same position, and the fear that, by acting fairly, she might become precisely the person sitting before her, crying after years of service upon learning that she may be dismissed for failing to exceed her own productivity target.
Disillusionment is the dominant feeling explored on screen. With his handheld camera moving freely through the office environment, using sudden close-ups and accelerated shots, Brizé conveys the frenetic pace of an almost uninterrupted work routine that never leaves the protagonist room to question the reality in which she lives, while filling the viewer with a sense of despair through its toxicity.
In the transitions from one day to the next, occasionally incorporating temporal leaps, the director films large office buildings with mirrored windows, typical of today's major metropolises, like gigantic colossi in a land dominated by them. This is precisely how he materializes the villain of his work - not individual people, but the major corporations collectively composed and led by individuals who place profit and productivity above everything else, just like the company where Carla works, one among countless others of the same kind, embodying one of capitalism's worst facets.
The filmmaker also makes it clear that these corporations have no ideology. They simply ride whatever happens to be current, infiltrating society by seeking to communicate as broadly as possible with their target audiences, without internally reflecting the values they promote beyond the walls of their offices.
As with the idea he develops throughout the entire narrative, over the course of one hundred minutes, Brizé never feels the need to recycle Chaplin's visual metaphor from the opening sequence beyond the mere reference to people walking through subway stations. The reality addressed by the feature, through an incredibly realistic lens, as a portrait of a society made sick by a notion of productivity that is not only cruel but unsustainable for the human species itself, is more than enough to convey, with originality, the same idea that we are nothing more than "cattle" waiting to be slaughtered in the corporate world. Beyond presenting the viewer with a constant truth born of attentive concern for the world, the film also shows how Carla, in the end, is merely a good soldier in this corporate and capitalist universe, just like the CEO of the company she works for (at most, a sergeant on the team), or any of her colleagues. True leadership belongs to money and to forces and ideas that extend far beyond mere individuals and endure beyond our individual existence in this world. It is a cruel yet truthful record of a painful world.
★★★★★



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