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TIFF 51 | Arrested Memory, de SABU (Idem, 2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
há 50 minutos
7 min de leitura

Em Arrested Memory, SABU brinca com a memória fragmentada de um capitão de polícia através do humor, projetando na tela seus esquecimentos e confusões enquanto investiga um caso, luta contra o crime organizado e ajuda pessoas pelo caminho.



A memória é tema recorrente desde os primórdios do cinema, e manifesta-se enquanto proposta narrativa de maneiras diversas. Por vezes, trata sobre a lembrança, o resgate histórico de determinada cultura, povo ou língua, como forma de preservação; em outras oportunidades, é levada à literalidade, como parte da própria condição humana, em um viés biológico. É exatamente a abordagem explorada por SABU em Arrested Memory, que se junta a outros thrillers policiais protagonizados por personagens cuja memória falha se torna parte do conflito central.


Com todo o elegante formalismo que perpassa sua filmografia, SABU aproveita da oportunidade para retomar elementos do cinema cômico de Taiwan a partir de uma narrativa que, inicialmente, se leva a sério. Encabeçada por Lee, um capitão de polícia que sofre com amnésia após uma operação malsucedida, ótimo na pele de Ethan Juan, ao personagem surge um novo caso a ser resolvido: o sequestro do filho de um grande magnata japonês, que reside no país. Tão logo chegamos a casa da vítima, torna-se notável o aceno ao clássico de Akira Kurosawa Céu e Inferno: para além do mistério, a sala da casa repleta de janelas, uma família desesperada, e um resgate que leva o protagonista a embarcar em um trem, com uma mala de dinheiro a ser jogada pela janela como resgate. 


No entanto, os problemas de memória do personagem levam essa jornada para outra direção. Com criatividade, buscando aproximar o espectador dos fatos narrados em tela, o cineasta articula a condição da amnésia a partir da própria imagem, em um primeiro momento como um leve zumbido, para depois avançar à uma espécie de ondas se formando sobre a tela, na forma de grandes vibrações, que materializam essa confusão mental que acometem o personagem.


Em razão disso, Arrested Memory faz com que o protagonista divague constantemente em sua missão. O que na mão de um cineasta pouco habilidoso poderia se tornar uma grande barriga narrativa, desviando o foco e preenchendo a duração, para SABU é uma forma de construir um verdadeiro estudo de personagem, recorrendo ao absurdo de situações cômicas para reforçar a característica heróica inerente a esse policial. A dúvida que nos é plantada, entretanto, é até que ponto Lee realmente ajuda pessoas, salvando-as de situações de perigo que podem estar presentes apenas e tão somente em sua mente.


O filme se diverte com essa dúvida, e alimenta o mistério repassando cenários distintos, entre ilusão e realidade, através das cores e iluminações diferentes elaboradas pela fotografia de Jai Ip, acompanhada de atuações caricatas para cada situação, propositalmente exageradas, como uma mente em crise. Ao mesmo tempo, a irreverência com a qual o diretor trabalha o mundo real reforça a dúvida sobre o que de fato acontece perante os olhos do espectador, ao passo que desconstrói noções de hierarquia dentro da força policial, e do patriarcado quando direciona o olhar aos pais da criança raptada.


Ainda que Lee se depare com diversas outras situações nessa aventura permeada pelo absurdo, SABU nunca o tira completamente da trilha de seu objetivo principal. Nenhum elemento posicionado no decorrer da narrativa é completamente em vão, revelando sentido enquanto caminha para o desfecho, como uma verdadeira bola de neve que não deixa de aumentar a cada instante. 


Nas sequências de luta e ação, é muito interessante pensar em como reforçam características do protagonista a partir da não-letalidade, especialmente na sequência final. A prevalência de golpes típicos do judô em detrimento de outras artes marciais, tema de debate em conversa com o diretor após a sessão, revela uma ideia de defesa pessoal e supressão de violência por parte de Lee, mesmo quando a força letal de armas de fogo é usada contra ele. 


E entre a dúvida quanto a identidade por parte do policial, o trauma, um objetivo central constantemente (e pelo filme, propositalmente) esquecido, SABU experimenta visualmente com a excentricidade visual dos efeitos de memória dispostos sobre a tela, e a montagem de Matthieu Laclau se esforça para tornar Arrested Memory um filme dinâmico, engraçado, e ao mesmo tempo tenso na medida certa. O sucesso restou demonstrado quando essa mente comprometida se tornou o epicentro de um longa não apenas muito divertido, como também surpreendente, enquanto nunca conseguimos antecipar os próximos passos.


Além do mais, diria que foi uma das experiências mais divertidas do TIFF, e mais especiais que tive em uma sala de cinema. Não apenas pela empolgação de um público engajado, mas também pela atmosfera de uma sessão à meia-noite em ponto, repleta de risadas, torcidas e aplausos. 

 

Avaliação: ★★★★

 

Arrested Memory (Idem, 2026)

Direção: SABU

Roteiro: SABU

Gênero: Ação, policial, comédia

Origem: Taiwan, Japão

Duração: 87 minutos (1h27)

51th Toronto International Film Festival (TIFF)  


Sinopse: Lee, um renomado detetive de Taipei, perde sua equipe durante uma operação policial malsucedida e, atormentado pela culpa, é transferido para uma delegacia no interior. Após desenvolver amnésia, ele tenta esconder sua condição, mas acaba encarregado de investigar o sequestro do filho de um influente empresário japonês. Com a memória cada vez mais comprometida, Lee precisa confiar nos próprios instintos para desvendar o caso.


English review


In Arrested Memory, SABU plays with the fragmented memory of a police captain through humor, projecting his forgetfulness and confusion onto the screen as he investigates a case, fights organized crime, and helps people along the way.



Memory has been a recurring theme since the early days of cinema, manifesting itself as a narrative proposition in different ways. At times, it deals with remembrance and the historical recovery of a particular culture, people, or language as a form of preservation; on other occasions, it is taken literally, as part of the human condition itself, from a biological perspective. This is precisely the approach explored by SABU in Arrested Memory, which joins other police thrillers starring characters whose failing memory becomes part of the central conflict.


With all the elegant formalism that runs through his filmography, SABU seizes the opportunity to revisit elements of Taiwanese comedy cinema through a narrative that initially takes itself seriously. Led by Lee, a police captain who suffers from amnesia after a failed operation, played brilliantly by Ethan Juan, the character is presented with a new case to solve: the kidnapping of the son of a major Japanese tycoon who resides in the country. As soon as we arrive at the victim's house, the nod to Akira Kurosawa's classic High and Low becomes apparent: beyond the mystery, there is the living room filled with windows, a desperate family, and a ransom that leads the protagonist to board a train, with a suitcase full of money to be thrown out the window as payment.


However, the character's memory problems take this journey in another direction. Creatively seeking to bring the viewer closer to the events unfolding on screen, the filmmaker articulates the condition of amnesia through the image itself, initially as a faint buzzing sound, before progressing to a kind of wave forming across the screen, in the shape of intense vibrations that materialize the mental confusion afflicting the character.


As a result, Arrested Memory makes the protagonist constantly wander off course during his mission. In the hands of a less skillful filmmaker, this could become a major narrative drag, diverting attention and padding out the runtime. For SABU, however, it is a way of constructing a genuine character study, drawing on the absurdity of comedic situations to reinforce the heroic qualities inherent in this police officer. The doubt planted in our minds, however, is to what extent Lee actually helps people, saving them from dangerous situations that may exist only and exclusively in his mind.


The film has fun with this uncertainty and sustains the mystery by moving between different scenarios, somewhere between illusion and reality, through the distinct colors and lighting devised by cinematographer Jai Ip, accompanied by caricatured performances in each situation, deliberately exaggerated like a mind in crisis. At the same time, the irreverence with which the director approaches the real world reinforces the uncertainty surrounding what actually happens before the viewer's eyes, while deconstructing notions of hierarchy within the police force and of patriarchy when directing his gaze toward the parents of the kidnapped child.


Although Lee encounters several other situations throughout this adventure permeated by absurdity, SABU never completely takes him off the path toward his main objective. No element introduced throughout the narrative is entirely in vain, revealing its purpose as the story moves toward its conclusion, like a true snowball that keeps growing with every passing moment.


In the fight and action sequences, it is very interesting to consider how they reinforce the protagonist's characteristics through his non-lethality, especially in the final sequence. The prevalence of judo techniques over those of other martial arts, a topic discussed in a conversation with the director after the screening, reveals Lee's approach to self-defense and the suppression of violence, even when the lethal force of firearms is used against him.


And amid the police officer's uncertainty about his own identity, the trauma, and a central objective that is constantly (and, throughout the film, deliberately) forgotten, SABU experiments visually with the eccentricity of the memory effects displayed on screen, while Matthieu Laclau's editing strives to make Arrested Memory a dynamic, funny film that is tense in just the right measure. Its success became evident when this compromised mind turned into the epicenter of a feature that is not only great fun but also surprising, as we are never able to anticipate what will happen next.


Moreover, I would say it was one of the most entertaining experiences at TIFF, and one of the most special experiences I have had in a movie theater. Not only because of the excitement of an engaged audience, but also because of the atmosphere of a midnight screening, filled with laughter, cheers, and applause.


★★★★


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