top of page

TIFF 51 | Bucking Fastard, de Werner Herzog (Idem, 2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
há 23 horas
6 min de leitura

Em um exercício de estranhamento e atuação dirigido por Herzog e encabeçado pelas irmãs Mara, Bucking Fastard é até divertido pelo conceito, mas perde a oportunidade de ir além ao tornar-se redundante na insistência das mesmas ideias.



Ao meu primeiro contato com o título Bucking Fastard, perguntei-me o que poderia significar. Talvez palavras em inglês incrivelmente específicas, que fugiam ao meu vocabulário - afinal, não é minha língua materna, e eventualmente situações como tal acontecem? Ou quem sabe um nome, uma expressão idiomática muito específica? Nada me parecia certo, e só me dei conta de que era uma piada após assistir ao longa. No fundo, faz bastante sentido um título estranho, construído como um jogo de palavras, para um filme igualmente estranho.


Werner Herzog, exímio cineasta e documentarista lendário, sempre gostou, no decorrer de sua filmografia, de brincar com a linguagem de seus filmes. Seja pela grandiosidade, como em Fitzcarraldo, pelo humor duvidoso de Bad Lieutenant: Port of Call - New Orleans ou pela sensibilidade na reconstrução do último ano da vida de um homem, como Grizzly Man, agora em Bucking Fastard o exercício da vez conversa diretamente com a atuação: protagonizado pelas irmãs Kate e Rooney Mara, ambas vivem em tela também uma dupla de irmãs, quase idênticas, embora não gêmeas, que compartilham entre si dos mesmos pensamentos, filosofias e desejos. Não à toa, falam como se fossem uma, ao mesmo tempo ou completando suas frases; vestem-se igual; sonham com as mesmas imagens e se apaixonam pelo mesmo homem.


A princípio, o senso de estranhamento e experimentação proposta por Herzog permite que as irmãs, atrizes talentosas, explorem a fraternidade por meio dessas personagens, dentro de uma relação mantida por ambas com o mesmo homem, simultaneamente - até na cama e em outros momentos mais íntimos. O desenrolar desse relacionamento, contado através de um julgamento no tribunal, caminha do primeiro contato até os problemas que tiveram com o namorado, vivido por Orlando Bloom. Chega a ser cômico, sob um aspecto de seriedade, a forma como essa conexão das protagonistas não é questionada nem mesmo diante dos procedimentos legais, enquanto se sentam em frente ao juiz e testemunham sua versão dos fatos em conjunto e sintonia, algo apontado pelo próprio filme como uma exceção às normas procedimentais do ordenamento jurídico local.


Compreendido o conceito fraternal, quando nos acostumamos com tal excentricidade do universo narrativo, Herzog parece já não saber exatamente como continuar a trabalhar com essas ideias. Na prática, Bucking Fastard assume uma característica episódica, enquanto posiciona as irmãs em diferentes cenários, e investiga com olhar atento suas reações ao mundo que as circunda.


Ao longo de quatro momentos, porém, o filme começa a perder seu principal objeto: o estranhamento. Talvez porque passamos tempo demais, além do necessário, com essas duas personagens, ao ponto do exercício de fala conjunta, repetição e sintonia tornar-se demasiadamente comum, dadas as proporções. Não apenas isso, ao estarem esses episódios temporalmente espaçados em uma linha do tempo, a própria narrativa nunca consegue, de fato, chegar a uma ideia sobre quem são aquelas protagonistas ou mesmo das pessoas ao entorno, de onde tiram recursos para viver, e o que realmente desejam.


É inegável que o filme consegue chegar a momentos bem divertidos, como o próprio julgamento na primeira parte - justamente de onde sai a piada do título, um dos momentos mais marcantes -; o aprendizado ao uso de tecnologia e bilhetes de transporte público, pelo personagem de Domhnall Gleeson, perdido no meio desse universo; e a armadilha ao predador sexual. Em outras oportunidades, porém, como um filme marcado por momentos específicos, torna-se também cansativo pelas passagens menos inspiradas, quando visitam uma parente no interior, por exemplo.


Na reta final, Herzog então decide usar de Bucking Fastard como um meio para dialogar com a própria filmografia, sob um aspecto filosófico no interior de uma caverna, novamente retomando um pouco do senso de estranhamento dos instantes iniciais. Como resultado, no entanto, resolve transformar todo o conceito de maneira repentina, e propor um verdadeiro conflito nos últimos minutos, após mais de uma hora insistindo nos mesmos formalismos e redundâncias, apenas alterando os espaços e personagens no entorno das irmãs. Até gosto dessa reflexão que o cineasta faz pelo “retorno à caverna dos sonhos esquecidos”, mas tarde demais para construir algo mais profundo, que não até autoindulgente. No fim, resta um bom exercício de atuação formalista por parte das irmãs Mara, e até um bom conceito esquisito que, no fim, acaba não exatamente tão bem aproveitado.

 

Avaliação: ★★★

 

Bucking Fastard (Idem, 2026)

Direção: Werner Herzog

Roteiro: Werner Herzog

Gênero: Drama, Comédia

Origem: Irlanda, Estados Unidos

Duração: 109 minutos (1h49)

51th Toronto International Film Festival (TIFF)  


Sinopse: Jean e Joan Holbrooke são irmãs inseparáveis que falam em uníssono, amam o mesmo homem e compartilham os mesmos sonhos. Em busca de uma terra imaginária onde o amor verdadeiro seja possível, as duas decidem escavar um túnel através de uma cadeia de montanhas. Livremente inspirado na história real das gêmeas britânicas Freda e Greta Chaplin, o filme acompanha a relação singular das irmãs e a maneira como a sociedade reage ao seu comportamento incomum.

  

English review


In an exercise in estrangement and acting directed by Herzog and led by the Mara sisters, Bucking Fastard is entertaining enough in its concept, but misses the opportunity to go further by becoming redundant in its insistence on the same ideas.



When I first came across the title Bucking Fastard, I wondered what it could mean. Perhaps incredibly specific English words that were beyond my vocabulary - after all, it is not my native language, and situations like this do happen from time to time? Or perhaps a name, a very specific idiomatic expression? Nothing seemed right to me, and I only realized it was a joke after watching the feature. Ultimately, a strange title, constructed as a play on words, makes quite a lot of sense for an equally strange film.


Werner Herzog, an outstanding filmmaker and legendary documentarian, has always enjoyed playing with the language of his films throughout his filmography. Whether through grandeur, as in Fitzcarraldo, the questionable humor of Bad Lieutenant: Port of Call - New Orleans, or the sensitivity with which he reconstructs the final year of a man's life, as in Grizzly Man, now, in Bucking Fastard, the exercise at hand directly engages with acting: starring sisters Kate and Rooney Mara, both also portray a pair of sisters on screen, nearly identical but not twins, who share the same thoughts, philosophies, and desires. It is no coincidence that they speak as though they were one person, talking simultaneously or completing each other's sentences; they dress alike; dream of the same images; and fall in love with the same man.


At first, Herzog's proposed sense of estrangement and experimentation allows the talented actresses to explore sisterhood through these characters, within a relationship they both maintain simultaneously with the same man - even in bed and during other more intimate moments. The development of this relationship, told through a courtroom trial, moves from their first encounter to the problems they had with their boyfriend, played by Orlando Bloom. There is something comical, beneath an appearance of seriousness, about the way the protagonists' connection is never questioned, not even during legal proceedings, as they sit before the judge and testify to their version of events together and in perfect unison, something the film itself identifies as an exception to the procedural rules of the local legal system.


Once the sisterly concept is understood and we grow accustomed to this eccentricity of the narrative universe, Herzog seems no longer to know exactly how to continue working with these ideas. In practice, Bucking Fastard takes on an episodic quality, placing the sisters in different settings and closely examining their reactions to the world around them.


Over the course of four episodes, however, the film begins to lose sight of its main object: estrangement. Perhaps because we spend too much time with these two characters, beyond what is necessary, to the point that their exercise in speaking together, repetition, and synchronicity becomes far too commonplace, given the circumstances. Not only that, but because these episodes are spread out across the timeline, the narrative itself never truly manages to establish who these protagonists are, or even who the people around them are, where they get the resources to live, and what they really want.


It is undeniable that the film delivers some very entertaining moments, such as the trial in the first part - precisely where the title's joke comes from, making it one of the most memorable moments -; Domhnall Gleeson's character learning to use technology and public transportation tickets, lost amid this universe; and the trap set for a sexual predator. On other occasions, however, as a film marked by specific moments, it also becomes tiresome during its less inspired passages, such as when the sisters visit a relative in the countryside.


In the final stretch, Herzog decides to use Bucking Fastard as a means of engaging with his own filmography, introducing a philosophical dimension inside a cave and once again recovering some of the sense of estrangement from the opening moments. As a result, however, he abruptly transforms the entire concept and introduces a genuine conflict in the final minutes, after spending more than an hour insisting on the same formal devices and redundancies, merely changing the settings and the characters surrounding the sisters. I do appreciate the reflection the filmmaker offers through the idea of a "return to the cave of forgotten dreams," but it comes too late to build something deeper, something that does not even feel self-indulgent. In the end, what remains is a good exercise in formalist acting on the part of the Mara sisters, and a rather peculiar concept that ultimately is not quite as well utilized as it could have been.


★★★


Comentários


© 2024 por Henrique Debski/Cineolhar - Criado com Wix.com

bottom of page