TIFF 51 | Cavalo Selvagem Nove, de Martin McDonagh (Wild Horse Nine, 2026)

Em Cavalo Selvagem Nove, Martin McDonagh satiriza o imperialismo norte-americano na Guerra Fria, enquanto dialoga com a própria filmografia, em clima de conspiração e existencialismo.

Com poucos filmes no currículo, e um grande hiato entre o lançamento de cada um deles, o cinema de Martin McDonagh, com raras exceções, sempre voltou seus olhares a um aspecto satírico para as relações de amizade masculinas. Por duas oportunidades, por exemplo, o diretor contracenou Colin Farrell com Brendan Gleeson, em cenários absolutamente distintos, como dois amigos de longa data e um impasse entre eles (Na Mira do Chefe, 2008; e Os Banshees de Inisherin, 2022).
Nesse contexto, chego a me impressionar pela maneira como o diretor, mesmo em seu dia menos inspirado, foi capaz de escrever um roteiro não apenas coeso, como incrivelmente engraçado, apenas adaptando elementos de sua própria filmografia. Pois Cavalo Selvagem Nove, na prática, apenas redimensiona e estabelece uma estrutura narrativa muito similar a de Na Mira do Chefe, tanto entre os personagens como nos conflitos que os cercam, até mesmo no desenrolar da trama. A diferença está na maneira como aborda essas ideias, invertendo as perspectivas e os objetivos de cada um.
Se anteriormente os protagonistas, assassinos de aluguel a serviço de um mafioso, seguiam para Bruxelas, e um detinha a missão, dada pelo chefe, de matar o outro depois de um fiasco, agora o que acontece é o contrário. No Chile da década de 1970, alguns meses antes do golpe militar, os personagens, agentes da CIA em solo latino-americano, responsáveis por articular a derrubada do governo local, viajam para a Ilha de Páscoa, com objetivos pessoais ocultos, e conhecidos entre si.
Todos os momentos que antecedem a chegada ao destino final servem como um grande estabelecimento de quem são, e o que fazem esses dois homens, de idades e gerações diferentes, mas parceiros e amigos de corporação. Mesmo se situando na década de setenta, é divertido o paralelo que se traça com discursos presentes, e talvez imutáveis, como quando um desses personagens, já idoso, ótimo na pele de John Malkovich, fala sobre os “velhos tempos”, e atitudes absurdas que no passado lhe eram corriqueiras, e se tornaram inaceitáveis com o tempo. Revela-se uma caricatura de um clássico agente da CIA, responsável por levar “democracia” ao mundo quando, na prática, apenas gerou caos e discórdia nos locais em que passou.
Esse sentimento vem mesclado, no entanto, a certo arrependimento pelo que fizera no decorrer desses anos, em uma atmosfera existencialista diante do próprio cenário pessoal. Como um sujeito antiquado, sua antítese é construída na figura do parceiro vivido, também de maneira excelente, por Sam Rockwell, mais jovem, consciente de seu mundo presente, e um contraponto, que serve como limite às vontades de outros tempos.
A construção dessa relação se faz com um trabalho muito voltado à humanidade desses dois personagens, que contrapõe a todo tempo valores diversos, ao passo que buscam cumprir à risca seus objetivos como agentes de inteligência norte-americanos, ao passo que questionam, eventualmente, a legalidade e os efeitos das próprias atitudes, ainda que delas não se desviem.
Esse conflito moral é, em parte, o cerne de Cavalo Selvagem Nove, na medida em que os personagens adentram à crises identitárias ao mesmo tempo que se atém à missão que têm a cumprir. Mas o diretor não nos entrega todas as peças de uma única vez. Existe um enorme cuidado em criar um mistério no entorno dos objetivos desses homens na remota Ilha de Páscoa, que aos poucos se desvendam com certo ar de manipulação do espectador, enquanto acompanhamos a relação dos protagonistas em conjunto, mas também as desconfianças que eventualmente nutrem quando separados.
Assim, o filme se torna imprevisível, especialmente quando fenômenos estranhos passam a cercar o ambiente. A dúvida sobre uma possível conspiração no entorno dos protagonistas, através dos quais enxergamos aquele mundo, impulsiona o suspense sobre o que está realmente acontecendo. No decorrer da jornada, então, McDonagh satiriza a clássica noção de “supremacia norte-americana” enquanto reconhece, também, o envolvimento do país na derrubada de governos e ascensão de ditaduras na América do Sul a partir desses dois personagens com olhares distintos acerca da vida, e da História de seu próprio país.
O humor ácido típico do cineasta se mantém,na mesma medida que piadas internas, já parte integrante de seu cinema e realizadas em outros filmes, se fazem aqui novamente presentes, exploradas de outras maneiras. É através delas também que constrói pontes e relações com teorias conspiratórias envolvendo o governo norte-americano, o assassinato de um presidente, e a presença da CIA nas entrelinhas de cada evento. Uma mala, tratada pelo filme como espécie de “Mac Guffin”, é justamente o elo cômico entre todas essas relações.
Da mesma maneira, a Ilha de Páscoa se faz, também, uma personagem a essa história de intrigas e manipulações, que corre em meio a surpresas, que, mesmo se situando em solo chileno, transforma o país em uma grande vítima dos Estados Unidos e do contexto de Guerra Fria na década de 1970. É bastante perspicaz enquanto aproveita desse subtexto político para, ao mesmo tempo que os personagens acreditam manipular a realidade ao entorno, serem também vítimas de manipulação, em uma exercício cíclico que abarca, igualmente, o espectador. E mesmo um filme parecido com aquilo que outrora McDonagh já fizera, encontrou um jeito de fazer de Cavalo Selvagem Nove também um filme bastante original, em diálogos críticos aos Estados Unidos, à década de 1970 - a fotografia colorida e razão de aspecto colaboram não apenas para esse ambiente, como também para sufocar o personagens em meio às conspirações -, e repleto de paralelos com a própria filmografia e o mundo presente, em clima tão cômico quanto existencialista.
Avaliação: ★★★★
Cavalo Selvagem Nove (Wild Horse Nine, 2026)
Direção: Martin McDonagh
Roteiro: Martin McDonagh
Gênero: Comédia, Thriller
Origem: Estados Unidos, Chile
Duração: 118 minutos (1h58)
51th Toronto International Film Festival (TIFF)
Sinopse: Pouco antes do golpe de Estado chileno de 1973, os agentes da CIA Chris e Lee são enviados de Santiago para a Ilha de Páscoa por seu chefe, MJ. Enquanto lidam com seus passados e com conspirações no presente, o vínculo de Chris com duas estudantes rebeldes ameaça transformar a missão dos parceiros em um caos.
English review
In Wild Horse Nine, Martin McDonagh satirizes American imperialism during the Cold War, while engaging with his own filmography, in an atmosphere of conspiracy and existentialism.

With few films to his name, and long gaps between the release of each one, Martin McDonagh's cinema, with rare exceptions, has always turned its gaze toward a satirical take on male friendships. On two occasions, for example, the director paired Colin Farrell with Brendan Gleeson, in absolutely distinct settings, as two longtime friends facing an impasse between them (In Bruges, 2008; and The Banshees of Inisherin, 2022).
In this context, I am genuinely impressed by the way the director, even on his least inspired day, was able to write a screenplay that is not only cohesive, but incredibly funny, simply by adapting elements from his own filmography. Because Wild Horse Nine, in practice, merely reshapes and establishes a narrative structure very similar to that of In Bruges, both in terms of the characters and the conflicts surrounding them, even in the way the plot unfolds. The difference lies in how it approaches these ideas, reversing the perspectives and objectives of each one.
Whereas previously the protagonists, hitmen working for a mobster, traveled to Brussels, with one of them having been ordered by the boss to kill the other after a fiasco, now the opposite happens. In 1970s Chile, a few months before the military coup, the characters, CIA agents on Latin American soil, responsible for orchestrating the overthrow of the local government, travel to Easter Island with personal objectives concealed from one another, despite knowing each other.
All the moments preceding their arrival at the final destination serve as a broad introduction to who these two men are and what they do, two men from different ages and generations, but partners and friends within the organization. Even though it is set in the 1970s, the parallel it draws with present-day, and perhaps immutable, discourses is amusing, such as when one of these characters, now elderly, excellently played by John Malkovich, talks about the “old days” and the absurd actions that were once commonplace to him, but became unacceptable over time. He is revealed as a caricature of a classic CIA agent, responsible for bringing “democracy” to the world when, in practice, he only generated chaos and discord wherever he went.
This feeling is nevertheless mixed with a certain regret for what he did throughout those years, in an existentialist atmosphere in the face of his own personal circumstances. As an old-fashioned man, his antithesis is constructed through his partner, also excellently played by Sam Rockwell, younger, conscious of his present world, and a counterpoint who serves as a limit to the desires of another time.
The construction of this relationship is carried out through work that is deeply focused on the humanity of these two characters, constantly contrasting different values, as they seek to strictly fulfill their objectives as American intelligence agents, while occasionally questioning the legality and effects of their own actions, even if they do not deviate from them.
This moral conflict is, in part, at the heart of Wild Horse Nine, as the characters enter identity crises while remaining committed to the mission they have to accomplish. But the director does not give us all the pieces at once. There is enormous care in creating a mystery surrounding these men's objectives on the remote Easter Island, which are gradually revealed with a certain air of manipulating the viewer, as we follow the protagonists' relationship together, but also the suspicions they eventually develop when separated.
Thus, the film becomes unpredictable, especially when strange phenomena begin to surround the environment. The doubt surrounding a possible conspiracy involving the protagonists, through whom we see that world, drives the suspense over what is really happening. Throughout the journey, then, McDonagh satirizes the classic notion of “American supremacy” while also acknowledging the country's involvement in the overthrow of governments and the rise of dictatorships in South America through these two characters, who have distinct views on life and the history of their own country.
The filmmaker's characteristic acidic humor remains, while inside jokes, already an integral part of his cinema and previously used in other films, are once again present here, explored in different ways. It is also through them that he builds bridges and connections with conspiracy theories involving the American government, the assassination of a president, and the presence of the CIA beneath the surface of each event. A suitcase, treated by the film as a kind of “MacGuffin,” is precisely the comic link between all these relationships.
In the same way, Easter Island also becomes a character in this story of intrigue and manipulation, which unfolds amid surprises and, despite being set on Chilean soil, turns the country into a great victim of the United States and the Cold War context of the 1970s. It is quite perceptive in how it takes advantage of this political subtext so that, while the characters believe they are manipulating the reality around them, they are also victims of manipulation, in a cyclical exercise that likewise encompasses the viewer. And even a film similar to what McDonagh had done before finds a way to make Wild Horse Nine a rather original film as well, through dialogues critical of the United States, the 1970s - the colorful cinematography and aspect ratio contribute not only to this atmosphere, but also to suffocating the characters amid the conspiracies -, and filled with parallels with his own filmography and the present world, in an atmosphere that is as comic as it is existentialist.
★★★★



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