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TIFF 51 | COMPILADO #01 - “The World Before”, “Stuffed”, “Onwards and Sideways”, “Vintage Violence”, “Atonement” e “Back in Black”

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
6 de out.
10 min de leitura

Nesta publicação, o objetivo é trazer críticas em formato reduzido sobre alguns longas que assisti durante minha cobertura do 51th Toronto International Film Festival (TIFF).


Cena de Back in Black.


The World Before (첫세계, 2026)

Direção: Yoon Dan-bi

Origem: Coréia do Sul

Duração: 115 minutos

Avaliação: ★★


De certa maneira, gosto da maneira como The World Before explora essa paixão adolescente de verão permeada pela tristeza e assuntos inacabados em suas vidas pessoais através do silêncio, com olhares platônicos, pequenos gestos e tentativas da protagonista em forçar lentamente a entrada na vida de seu amigo, e interesse romântico, como alguém em quem ele pode confiar, como um ombro sobre o qual pode chorar. 


Entretanto, o aspecto frio dessa relação, que se estende por toda a narrativa, dilata a duração do longa para muito além do necessário, em quase duas horas preenchidas por uma contemplação que pouco tem a acrescentar. Quando a proposta começa a se esgotar, e a diretora Yoon Dan-bi passa a ficar sem ideias de como trabalhar, ou quem sabe finalizar a narrativa, opta por criar subtramas e acredita aprofundar seus personagens quando, na verdade, apenas cansa o espectador estendendo o longa. 


O que inicialmente era doce se torna maçante, e ao testar a paciência do público diante de sucessivos banhos de água fria nesse clima de incertezas e de aproximações falhas, perde o impacto emocional com base no esgotamento da narrativa, e da boa vontade do espectador.


English version


In a way, I like how The World Before explores this adolescent summer romance, permeated by sadness and unresolved matters in the characters' personal lives, through silence, with platonic glances, small gestures, and the protagonist's attempts to slowly force her way into the life of her friend, and romantic interest, as someone he can trust, a shoulder to cry on.


However, the coldness of this relationship, which extends throughout the narrative, stretches the feature's runtime far beyond what is necessary, filling nearly two hours with contemplation that has little to add. When the premise begins to run out of steam, and director Yoon Dan-bi starts running out of ideas for how to develop or perhaps conclude the narrative, she chooses to create subplots and believes she is deepening her characters when, in fact, she is merely tiring the viewer by extending the film.


What initially felt sweet becomes tedious, and by testing the audience's patience with successive disappointments amid this atmosphere of uncertainty and failed attempts at intimacy, the film loses its emotional impact as the narrative, and the viewer's goodwill, become exhausted.



Stuffed (Idem, 2026)

Direção: Theo Rhys

Origem: Reino Unido, EUA

Duração: 117 minutos

Avaliação: ★★


Eu nunca escondi por aqui minha paixão por musicais. E também amo propostas estranhas, especialmente quando se imergem nas profundezas do cinema de gênero para provocar o espectador a partir do inesperado. Neste ano, um bom exemplo que conseguiu se aventurar nesta fórmula foi o divertidíssimo Peeping Todd, que assisti no Fantaspoa, um musical sobre stalking, com um interessante debate sobre misoginia.


Nesse sentido, Stuffed tinha tudo pra ser um excelente exemplar de exercício com cinema de gênero, enquanto une o estilo gótico a pessoas excêntricas, lidando com dilemas morais perversos. No entanto, pelas mãos de Theo Rhys, a narrativa demora a sair do lugar, e depois de quase uma hora à deriva, quando finalmente encontra um caminho, decide trilhar pela obviedade. 


Parece que o cineasta nunca sabe exatamente o que fazer com a história que busca contar, estabelecendo por tempo demais seus personagens como solitários em crise de identidade, e buscando por um legado para a posteridade - como o sentido para suas próprias vidas. 


Eles cantam três, quatro vezes sobre os mesmos sentimentos, como se não houvessemos compreendido na primeira vez. Vai cansando enquanto se arrasta na mesmice, em um visual que perde a graça no meio de suas coreografias minimalistas - algo meio tímido como Coringa: Delírio a Dois -, e letras sem graça. O instrumental inspirado, que acompanha o gótico, é desperdiçado com a repetição e a falta de algo mais intenso. É uma pena que Henry Melling e Jodie Comer estejam bem, mas presos a um filme sem graça, que de ousado mesmo tem apenas a premissa.


English review


I've never hidden my passion for musicals here. I also love strange concepts, especially when they delve into the depths of genre cinema to provoke the viewer through the unexpected. This year, a great example that managed to venture into this territory was the thoroughly entertaining Peeping Todd, which I watched at Fantaspoa, a musical about stalking that raises an interesting discussion about misogyny.


In this sense, Stuffed had everything it needed to be an excellent exercise in genre cinema, combining a gothic style with eccentric people grappling with perverse moral dilemmas. However, in Theo Rhys's hands, the narrative takes too long to get going, and after nearly an hour adrift, when it finally finds a direction, it decides to follow the obvious path.


It seems the filmmaker never quite knows what to do with the story he wants to tell, spending far too much time establishing his characters as lonely people experiencing identity crises and searching for a legacy to leave behind - as though looking for meaning in their own lives.


They sing three or four times about the same feelings, as if we hadn't understood them the first time around. It becomes tiring as the film drags on in its sameness, with visuals that lose their appeal amid minimalist choreography - something rather timid, like Joker: Folie à Deux - and uninspired lyrics. The inspired instrumental score, which complements the gothic atmosphere, is wasted through repetition and the lack of anything more intense. It's a shame that Henry Melling and Jodie Comer deliver good performances but are trapped in a dull film whose only truly bold element is its premise.



Onwards and Sideways (Idem, 2026)

Direção: John Madden

Origem: Reino Unido

Duração: 110 minutos

Avaliação: ★★


Ainda que Rhys Ifans e Laura Linney estejam bem na interpretação de um casal que se conhece por acaso após ambos serem diagnosticados com Parkinson no mesmo dia, John Madden extrai muito pouco de Onwards and Sideways. 


A direção não busca inspiração para ir além dos desafios ocasionados pela doença, e desenvolve esse casal sob uma decupagem distante, com a câmera sempre longe dos personagens, cujas vidas retratadas giram apenas no entorno da doença, sem nada mais que os mova para além da nova realidade que precisam enfrentar. 


Por vezes, faz humor e propõe situações com escopo de serem engraçadas quando na verdade soam trágicas para o espectador, e usa seus saltos temporais apenas para progredir a doença, acelerando a narrativa sem necessariamente construir o ambiente para fazer com que na passagem do tempo haja sentido dentro da história sendo contada. 


Até pode ser engraçado em algumas oportunidades, mas nunca consegue ir além do óbvio dentro de sua proposta, especialmente quando condiciona a vida de seus protagonistas à doença, como se esta formasse a identidade do casal, e não apenas aquilo que os uniu.


English review


Although Rhys Ifans and Laura Linney deliver good performances as a couple who meet by chance after both are diagnosed with Parkinson's disease on the same day, John Madden gets very little out of Onwards and Sideways.


The direction makes no attempt to find inspiration to go beyond the challenges brought about by the disease, developing the couple through a detached visual approach, with the camera always kept at a distance from the characters, whose lives revolve entirely around the illness, with nothing else driving them beyond the new reality they must face.


At times, the film uses humor and proposes situations intended to be funny when, in fact, they come across as tragic to the viewer. It also uses its time jumps merely to advance the progression of the disease, accelerating the narrative without necessarily establishing an environment in which the passage of time makes sense within the story being told.


It can be funny on occasion, but it never manages to go beyond the obvious within its premise, especially when it defines the lives of its protagonists through the disease, as though it shaped the couple's identity rather than simply being what brought them together.



Vintage Violence (Idem, 2026)

Direção: Eugene Kotlyarenko

Origem: Coréia do Sul

Duração: 115 minutos

Avaliação: ★★★½


A partir de hoje, quando pensar em "filme surtado" farei questão de me lembrar de Vintage Violence. 


Eugene Kotlyarenko experimenta com diferentes linguagens ao mesclar, através da montagem rápida e alucinada, um "filme de tela" com decupagens tradicionais, em uma comédia de erros que, ao estabelecer uma ponte entre a cultura japonesa e norte-americana, acaba por satirizar um excesso de tradições do país asiático, ao passo que reforça a inexistência das mesmas no país americano. 


Nessa tensão de culturas completamente opostas, o cineasta encontra espaço para se divertir com personagens excêntricos, enquanto um influencer norte-americano viaja ao Japão para vender calças jeans “vintage”, e se envolve no fogo cruzado da Yakuza. Aos poucos se torna uma comédia maluca com ação e regada à violência desenfreada, que brinca cinematograficamente com a montagem e sobrepõe histórias em uma grande teia de caos. É um filme bem divertido, que justifica muito bem o próprio título.


English review


From today on, whenever I think of a “wild and crazy film,” I will make a point of remembering Vintage Violence.


Eugene Kotlyarenko experiments with different languages by blending, through fast-paced and frenzied editing, a “screenlife film” with traditional shot compositions, in a comedy of errors that, by establishing a bridge between Japanese and American culture, ends up satirizing an excess of traditions in the Asian country while reinforcing their nonexistence in the American one.


Within this tension between completely opposite cultures, the filmmaker finds room to have fun with eccentric characters, as an American influencer travels to Japan to sell “vintage” jeans and gets caught in the crossfire of the Yakuza. It gradually becomes a crazy comedy filled with action and unrestrained violence, playing with editing in cinematic terms and overlapping stories in a vast web of chaos. It is a very entertaining film that more than lives up to its title.



Atonement (Idem, 2026)

Direção: Reed Van Dyk

Origem: EUA

Duração: 118 minutos

Avaliação: ★★★½


Enquanto o cinema norte-americano direciona muito de seu olhar aos campos de batalha, os momentos posteriores à guerra normalmente são ignorados ou esquecidos, entre as dores de suas vítimas e o efeito da morte na vida dos soldados, que na maior parte do tempo estão apenas cumprindo ordens. 


Reed van Dyk vai ao Iraque em Atonement, no ano de 2003, para explorar a dolorosa conexão estabelecida entre um desses soldados que cumpria ordens, na paranóia e tensão do campo de batalha, e uma família de civis, vítima eterna desse conflito e dos atos por ele praticados, com a intermediação de um jornalista, durante anos acompanhando ambos os lados dessa relação. 


Dyk é criativo nesse retrato da dor sem apelar para passagens excessivamente dramáticas, ou uma violência espetacularizada que ultrapassa o limite do razoável. Não existem heróis e vilões representados pela figura desses personagens, mas pessoas cujas vidas se cruzaram em contextos que estão muito além de seus controles e compreensões, como frutos de um meio injusto, ao qual não tiveram escolha em ser parte. A representação do trauma do medo a cada batida em porta, mesmo nos EUA e dez anos depois da guerra, é capaz de assustar até o espectador mais insensível, e as lágrimas derramadas nos minutos finais, repletos de silêncios, são de cortar o coração. É um filme que sabe aproveitar do som e da imagem para levar a nós o sentimento dessas pessoas marcadas pela guerra. 


English review


While American cinema directs much of its gaze toward battlefields, the moments that follow war are usually ignored or forgotten, caught between the pain of its victims and the effect of death on the lives of soldiers, who most of the time are simply following orders.


Reed van Dyk goes to Iraq in Atonement, set in 2003, to explore the painful connection established between one of these soldiers following orders, amid the paranoia and tension of the battlefield, and a civilian family, an eternal victim of this conflict and the acts committed by him, with a journalist serving as an intermediary, having spent years following both sides of this relationship.


Dyk is creative in this portrayal of pain without resorting to excessively dramatic passages or spectacularized violence that goes beyond what is reasonable. There are no heroes or villains embodied by these characters, but people whose lives crossed paths in circumstances far beyond their control and understanding, as products of an unjust environment in which they had no choice but to take part. The depiction of the trauma of fear at every knock on the door, even in the US and ten years after the war, is enough to frighten even the most insensitive viewer, and the tears shed in the final minutes, filled with silences, are heartbreaking. It is a film that knows how to make use of sound and image to convey to us the feelings of these people marked by war.



Back in Black (Idem, 2026)

Direção: Ron Murphy

Origem: Reino Unido, Canadá

Duração: 92 minutos

Avaliação: ★★★★


Ron Murphy realmente me surpreendeu com a sagacidade de seu humor mórbido em Back in Black. 


Como um filme voltado a uma família em dificuldades financeiras que gerencia uma funerária em crise numa pequena cidade do interior dos Estados Unidos, fala sobre a morte em um aspecto duplo a partir da protagonista, considerando que, ao mesmo tempo que o seu ganha pão, demonstra grandes dificuldades em enfrentar um luto relativamente recente. 


Uma assassina em série munida com uma chave de fenda, como forma de escapar à crise financeira, é uma ideia absurda, mas que encontra certa verossimilhança dentro de um universo que opera de forma surpreendentemente orgânica, entre romances e investigações. 


Ao mesmo tempo, também discute com criatividade a indústria da morte como um todo, de cuidados com o falecido, caixões, serviços funerários e até a maneira como alimentam a economia de toda uma comunidade. Além de tudo, ainda é um filme muito elegante pela decupagem do diretor, desde os planos, escolhas de trilha musical e figurinos que usam o preto com ar cômico, e também pela maneira como não precisa se utilizar de violência gráfica para ser engraçado, uma aposta inesperada para o que propõe.


English review


Ron Murphy truly surprised me with the sharpness of his morbid humor in Back in Black.


As a film about a financially struggling family that runs a funeral home in crisis in a small town in the American countryside, it addresses death in a dual aspect through its protagonist, considering that, while it is her livelihood, she also demonstrates great difficulty in dealing with a relatively recent bereavement.


A serial killer armed with a screwdriver as a way to escape financial crisis is an absurd idea, but one that finds a certain degree of plausibility within a universe that operates in a surprisingly organic way, between romances and investigations.


At the same time, it also creatively discusses the death industry as a whole, from care for the deceased to coffins, funeral services, and even the way they sustain the economy of an entire community. On top of everything else, it is also a very elegant film in terms of the director's shot composition, from the framing and musical choices to the costumes that use black in a comedic way, as well as in the way it does not need to resort to graphic violence to be funny, an unexpected choice for what it sets out to do.



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