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TIFF 51 | Fjord, de Cristian Mungiu (Idem, 2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
há 2 horas
8 min de leitura

Cristian Mungiu tensiona direitos fundamentais em Fjord, e oferece ao espectador elementos para discutir qual deve prevalecer, a partir da observação e de vastos argumentos para ambos os lados.



Não raramente em conversas decepcionadas com os rumos e a situação atual do país em que vivemos ouvimos alguém dizer “nessas horas eu queria morar na Europa”. Do nosso ponto de vista, é comum que se enxergue o velho continente como uma terra de segurança nas ruas, serviços públicos eficientes, menos desigualdade social e até quem sabe mais oportunidades. O olhar de quem profere tais palavras é sempre direcionado a ausência dos escândalos de corrupção, e uma sensação de maior civilidade por parte da própria população. 


Por outro lado, sempre que ouço tal afirmação, costumo dizer: “você foi pra Europa, e a partir de hoje vai morar na Romênia”. O país, que no século XX se viu devastado pelo fascismo e, posteriormente, pelo socialismo soviético construiu um cinema, após a redemocratização, ao final dos anos oitenta e início dos anos noventa, voltado à crítica de sua própria realidade, cujo estilo perdura até o presente. Curiosamente, longas como Child’s Pose, de Calin Peter Netzer; Collectiv, documentário de Alexander Nanau; o cinema de Radu Jude quase em sua totalidade; e o próprio conjunto da obra de Cristian Mungiu nos fazem enxergar uma aproximação entre o país com nosso Brasil: embora histórico e socialmente distintos, compartilham de muitos problemas comuns. Costumo brincar que vejo no cinema romeno um retrato do “Brasil europeu”, sempre banhado a um sarcasmo muito característico.


Conhecido por seus planos longos, pacientes, e um interesse muito meticuloso na observação, Mungiu caminha em direção ao limite social em Fjord, ao colocar todo o debate sobre essa suposta perfeição da vida europeia na berlinda. Tudo começa com a chegada de uma família da Romênia para morar em uma pequena cidade no interior da Noruega, terra natal da mãe. O clima frio, típico do inverno rigoroso local, em meio às nevascas habituais e as montanhas de neve para todos os lados já estabelecem, cuidadosamente, toda a atmosfera com a qual será conduzida a narrativa pelo diretor.


Em meio aos naturais desafios de se adaptar a uma realidade tão distinta - desde à língua falada às próprias condições geográficas e climáticas do território, em uma pequena comunidade localizada no extremo do país -, algo maior e mais complicado se posiciona como um empecilho a essa união familiar: a barreira cultural. 


Com cinco filhos - dois mais velhos, dois no meio e um bebê -, a oitiva de um deles em ambiente escolar, confirmando ter sido supostamente estapeado pelos pais transforma-se em um grande processo apuratório de violência familiar e abusos, afastando os infantes do lar, separando-os e os enviando a instituições de acolhimento na região, enquanto aguardam o julgamento dos genitores.


Em processos judiciais, a verdade real é um cenário inatingível. O que se pode buscar através dos autos é a verdade processual, que emerge do procedimento e pode se aproximar ou não do que de fato aconteceu a partir dos elementos e provas colhidas. Enquanto caminha pela residência da família protagonista, antes do afastamento dos filhos, Mungiu não leva o olhar do espectador a nenhum aspecto específico de convivência. Na prática, o que se visualiza é uma família “tradicional”, conservadora e cristã, cujos pais, religiosos devotos, impõem aos filhos deveres relacionados à fé, e os educam como pessoas tementes a D’us. Em meio ao aspecto rígido desse controle parental, e da liberdade religiosa que exercem no interior de casa, mantém, por outro lado, relações afetivas reais com os filhos, como uma família unida e amorosa, apesar de tudo.


O contraponto surge pela figura do Estado Norueguês. Ao avaliar a fundo a convivência familiar, e as acusações colocadas sobre a mesa, uma suspeita de abusos é levantada, o que justificaria o afastamento dos infantes. O cineasta novamente nos oferece elementos que corroboram com a versão apresentada pelos representantes dos organismos legais do país, sem necessariamente tomar partido à versão por eles sustentada.


A batalha judicial travada entre a família imigrante, conservadora e cristã, e o Estado movido pelas políticas públicas progressistas se estende, então, para fora dos espaços designados. O caso torna-se midiático, pressões para os dois lados se formam, e as narrativas apresentadas por ambas as partes começam a ruir. O diretor mira, então, nos filhos, e sobretudo nos adolescentes, forçadamente obrigados a abandonar as próprias vidas, relações e contatos, como uma possível saída ao espectador para tirar suas conclusões.


A tensão estabelecida em tela revela a angústia de uma família separada pela força do poder público, mas vai além: Mungiu tensiona e leva ao limite um conflito entre direitos fundamentais, em uma situação que de tão complexa talvez não exista uma solução passíveis de “meio-termo”, sem que uma das partes precise ceder, ao menos em parte, em relação aos seus interesses.


As composições de Renate Reinsve e especialmente de Sebastian Stan, na pele de um romeno, fortalecem essa imagem familiar rompida, e o desespero para solucionar um problema em meio a burocracia estatal. O isolamento, juntamente à atmosfera fria da cidade, levam o espectador a se compadecer com eles, ao mesmo tempo que resta a dúvida sobre a possibilidade de ocorrência dos abusos como algo comum àquele núcleo familiar. 


Então, Fjord coloca o espectador entre a cruz e a espada, quase de maneira literal. Enquanto observa aquele lar, sem atenção especial a qualquer detalhe, até de maneira antropológica, Cristian Mungiu nos prepara para uma batalha de ordem moral e jurídica que resulta em um impasse quase impossível, na base de um conflito entre direitos fundamentais. Cada pessoa que sai do filme, a depender de suas filosofias pessoais e convicções políticas, pode chegar a uma conclusão diferente, onde não necessariamente existe uma resposta concreta de “certo ou errado”, com argumentos igualmente válidos para ambos os lados, apresentados pelo próprio filme apenas através da observação, com seus longos planos contemplativos. No fim, nem sempre se mudar para um país supostamente tido como “perfeito”, como a Noruega, é a solução ideal para todos os problemas, justamente a partir da ideia de que a perfeição não existe, e que, se determinados pontos não são um problema, outros, não previstos, podem acabar assim se tornando a depender de seus valores culturais e estilo de vida. 


Avaliação: ★★★★½

 

Fjord (Idem, 2026)

Direção: Cristian Mungiu

Roteiro: Cristian Mungiu

Gênero: Drama

Origem: Romênia, França, Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia

Duração: 146 minutos (2h26)

51th Toronto International Film Festival (TIFF)  


Sinopse: Mihai e Lisbet Gheorghiu são um casal romeno-norueguês profundamente religioso que se muda com os cinco filhos para uma pequena vila costeira na Noruega, onde se aproximam dos vizinhos, a família Halberg. A convivência entre as crianças é interrompida quando a escola descobre hematomas no corpo de Elia, a filha mais velha dos Gheorghiu, levantando suspeitas sobre os métodos tradicionais de educação dos pais. Diante da intervenção das autoridades, as duas famílias se veem envolvidas em um conflito que coloca em questão os limites da liberdade religiosa, da proteção infantil e da tolerância.

 

English review


Cristian Mungiu puts fundamental rights under strain in Fjord, offering the viewer elements to discuss which should prevail through careful observation and extensive arguments for both sides.



In conversations expressing disappointment with the direction and current state of the country we live in, we not infrequently hear someone say, "At times like these, I wish I lived in Europe." From our perspective, it is common to see the Old Continent as a place of safer streets, efficient public services, less social inequality, and perhaps even greater opportunities. The gaze of those who utter these words is always directed toward the absence of corruption scandals and a sense of greater civility among the population itself.


On the other hand, whenever I hear such a statement, I usually say, "You went to Europe, and from today onward, you're going to live in Romania." The country, devastated in the twentieth century by fascism and later by Soviet socialism, developed a cinema after its transition to democracy in the late 1980s and early 1990s that focused on criticizing its own reality, a style that has endured to this day. Curiously, features such as Calin Peter Netzer's Child's Pose, Alexander Nanau's documentary Collectiv, nearly the entirety of Radu Jude's cinema, and Cristian Mungiu's body of work as a whole allow us to recognize similarities between the country and our own Brazil: although historically and socially distinct, they share many common problems. I often joke that I see Romanian cinema as a portrait of "European Brazil," always steeped in a very distinctive kind of sarcasm.


Known for his long, patient shots and meticulous interest in observation, Mungiu moves toward the limits of social conflict in Fjord, putting the entire debate surrounding the supposed perfection of European life under scrutiny. It all begins with a family arriving from Romania to live in a small town in rural Norway, the mother's homeland. The cold weather, typical of the region's harsh winter, amid the usual snowstorms and snow-covered mountains in every direction, carefully establishes the atmosphere that will guide the narrative.


Amid the natural challenges of adapting to such a different reality - from the language spoken to the very geographical and climatic conditions of the territory, in a small community located at the country's far end - something greater and more complicated emerges as an obstacle to this family's unity: the cultural barrier.


With five children - two older ones, two in the middle, and a baby - one of them being interviewed at school and confirming that they had supposedly been slapped by their parents turns into a major investigation into domestic violence and abuse. The children are removed from their home, separated from one another, and sent to care institutions in the region while they await the judgment concerning their parents.


In judicial proceedings, the material truth is an unattainable ideal. What can be pursued through the case records is procedural truth, which emerges from the proceedings and may or may not come close to what actually happened, depending on the evidence and testimony gathered. As Mungiu moves through the protagonist family's home before the children are taken away, he does not direct the viewer's attention toward any specific aspect of their domestic life. In practice, what we see is a "traditional," conservative, Christian family whose devoutly religious parents impose duties related to their faith on their children, raising them to be God-fearing people. Despite the rigid nature of this parental control and the religious freedom they exercise within their home, they also maintain genuine emotional bonds with their children, appearing to be a close and loving family despite everything.


The counterpoint comes in the form of the Norwegian state. Upon thoroughly assessing family life and the accusations brought forward, the authorities raise suspicions of abuse, which would justify removing the children from the home. Once again, the filmmaker offers us elements that support the version presented by the country's legal authorities, without necessarily taking their side.


The legal battle between the conservative, Christian immigrant family and a state driven by progressive public policies then extends beyond the designated spaces. The case becomes a media story, pressure mounts on both sides, and the narratives presented by each party begin to crumble. The director then turns his attention to the children, particularly the teenagers, who are forcibly made to abandon their own lives, relationships, and social connections, potentially offering the viewer a way to reach their own conclusions.


The tension established on screen reveals the anguish of a family separated by the force of public authority, but goes further: Mungiu pushes a conflict between fundamental rights to its limits, in a situation so complex that there may be no "middle-ground" solution, without one of the parties having to yield, at least in part, on their interests.


The performances of Renate Reinsve and especially Sebastian Stan, playing a Romanian man, reinforce this image of a broken family and the desperation to resolve a problem amid state bureaucracy. Their isolation, together with the town's cold atmosphere, leads the viewer to sympathize with them, while leaving open the question of whether abuse might indeed be a regular occurrence within this family unit.


Thus, Fjord places the viewer between a rock and a hard place, almost literally. As he observes this household without paying special attention to any particular detail, almost anthropologically, Cristian Mungiu prepares us for a moral and legal battle that results in an almost impossible impasse, rooted in a conflict between fundamental rights. Depending on their personal philosophies and political convictions, each person leaving the film may reach a different conclusion, in a situation where there is not necessarily a concrete answer of "right or wrong," with equally valid arguments for both sides, presented by the film itself solely through observation and its long, contemplative shots. In the end, moving to a country supposedly considered "perfect," such as Norway, is not always the ideal solution to every problem, precisely because perfection does not exist and, even if certain issues are no longer a concern, others, unforeseen, may emerge depending on one's cultural values and way of life.


★★★★½


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