top of page

TIFF 51 | La Bola Negra, de Javier Ambrossi e Javier Calvo (Idem, 2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
há 1 hora
9 min de leitura

A dupla de diretores ‘Los Javi’ faz em La Bola Negra um quebra-cabeças de três histórias em tempos distintos como um reflexo da Espanha, costuradas através de reflexões acerca da homossexualidade e da liberdade na definição da própria identidade.



Três épocas e realidades distintas separam os protagonistas de La Bola Negra. Ainda que os anos de 1932 e 1937 não se encontrem necessariamente tão distantes temporalmente, é o suficiente para que a dupla de cineastas Javier Calvo e Javier Ambrossi - “Los Javi”, como são chamados - explorem a Espanha como um verdadeiro barril de pólvora prestes a ser incendiado nos instantes que antecedem e sucedem o início da Guerra Civil Espanhola, não apenas um conflito sangrento, e antecedente imediato da Segunda Guerra Mundial, mas também um momento que deixou profundas marcas e cicatrizes ao país até os dias contemporâneos - investigado justamente quando levam a trama para oitenta anos no futuro, em 2017.


O choque entre essas realidades surge logo na primeira cena, no ano de 1937, na qual uma pequena cidade no interior da Espanha aguarda ansiosamente pela recepção das tropas italianas, aliadas ao ditador Franco, a quem apoiavam durante a guerra - e posteriormente, o lado vencedor. Os bombardeios levam o protagonista deste arco, Sebastian, bem vivido pelo cantor Guitarricadelafuente, em seu primeiro trabalho no cinema, a juntar-se por necessidade às tropas fascistas, como um ato desesperado por sobrevivência, em meio à violência e carnificina de sua terra natal - tudo em um único dia. O que não espera é pela mudança de sua percepção sobre a realidade, ainda em formação, quando se apaixona por um soldado levado como prisioneiro, que luta pela liberdade de uma Espanha longe das mãos fascistas.


No passado, em 1932, Carlos, também muito bem interpretado pelo estreante Milo Quifes, lida com um dilema para sua aceitação como filiado ao cassino da cidade: pelos bastidores, entre as ruas e seus residentes, correm boatos e questionamentos acerca de sua sexualidade, especialmente quando consideradas as amizades e companhias com quem anda. Precisa, em uma votação para o conselho, que sejam colocadas pelos membros mais bolas brancas do que pretas para ser aceito. Deve se ater aos seus princípios, ou negar a si para ser aceito perante a sociedade?


Já em 2017, Alberto, na pele do ótimo Carlos González, vive em tempos nos quais pode abrir-se à própria sexualidade - ator, dramaturgo e pesquisador da cultura queer no campo artístico, vive com seu namorado em um bom apartamento, sem guerras ou conflitos ao seu entorno no país. São momentos de paz. Sem tão boa relação com a mãe, descobre o recente falecimento do avô materno, do qual sequer sabia da existência, e o testamento nominalmente deixado a ele.


Então, a partir desses três arcos, La Bola Negra costura reflexões sobre a homossexualidade trabalhadas no decorrer de oitenta anos, em momentos históricos diferentes ao país, mesmo que temporalmente próximos - antes, durante e décadas depois da Guerra Civil. Ainda que de alguma maneira conectadas, porém isoladas narrativamente em seus próprios universos, existem elementos que se revelam comuns no decorrer de cada uma das jornadas retratadas em tela, nas quais a característica gay de seus personagens é constantemente questionada pelo meio, que se manifesta e os atinge, porém, de maneiras diferentes.


A montagem assinada por Alberto Gutiérrez é muito cuidadosa enquanto constrói relações entre as histórias de maneiras inicialmente sutis. Antes de estabelecer as pontes e as razões pelas quais estão sendo contadas ao espectador, a preocupação primordial é o desenvolvimento de cada um desses homens, em alguma medida reprimidos pela sociedade, e seus sentimentos perante as vidas que levam, os momentos em que se encontram, e os objetivos que determinaram. 


Fixando a homofobia, elemento comum à essas três vidas, como a grande antagonista desses homens, entre eles e aqueles que os cercam inexistem personificações de heróis ou vilões. O pensamento social é justamente o que os separa como um grupo a ser discriminado; a noção conservadora bíblica de que apenas existem relações entre homens e mulheres como possibilidade torna-se a principal noção a ser combatida. Os diretores, inclusive, tão logo fixam esse preconceito de origem religiosa como algo para derrotar que, logo nos primeiros instantes, levam a Sebastian, durante sua fuga, a ficar sob os escombros de uma igreja destruída pela guerra - justamente um dos principais materiais promocionais do filme também.


O sentimento de exclusão é apenas um de tantos elementos que conectam os protagonistas, cujas passagens fantasiosas de uma dessas histórias se estendem, no íntimo, às demais. Rimas visuais igualmente fazem esses três homens, que nunca contracenam de fato, terem suas histórias cruzadas pelo fato de, eventualmente, precisarem esconder quem são, ainda que vivam em momentos históricos diferentes. Quando conectados, posteriormente, pela narrativa no plano da realidade, a não-linearidade de La Bola Negra se encerra como um grande ciclo que vai muito além de contos individuais, mas como representações de grandes círculos viciosos históricos.


Dentro desse campo de batalha moral, em favor da liberdade de se autodeterminar, os diretores também encontram espaço para trabalhar romances e contemplação. Em um momento no qual o amor queer era visto com maus olhos, a paixão se manifestava justamente pelos olhares, gestos carinhosos e preocupações mútuas, alimentados pela esperança de um dia não serem julgados. Da mesma maneira, os Javi também aproveitam a oportunidade para trabalhar um espetáculo queer, experimentando com passagens musicais, um pouco do olhar feminino à essa noção de “masculinidade” cada vez mais frágil (a personagem de Penélope Cruz, com uma participação diminuta, porém relevante, reforça este aspecto), e até alguns momentos em que o olhar para o horizonte e para a realidade ao entorno é muito mais eloquente do que quaisquer palavras seriam capazes de comunicar. Da mesma forma, dialoga também, nominalmente, com a literatura de Federico García Lorca, cuja memória é um dos alicerces da narrativa.


Esse quebra-cabeças de La Bola Negra faz com que sua longa duração mal seja percebida. São tantos momentos em que sentimos os dramas de seus personagens, e esse retrato de uma repressão social por vezes velada, em uma contraposição a relativa liberdade individual do mundo contemporâneo, em caminho de evolução, que conseguimos enxergar o amor reproduzido por detrás de cada uma das peças dessa história tão cuidadosamente construída entre três tempos, momentos e personagens distintos lidando com questões semelhantes. A revelação da inspiração em fatos nos instantes finais reforçam ainda mais a sensibilidade de um dos filmes mais complexos - e completos - do ano.

 

Avaliação: ★★★★★

 

La Bola Negra (Idem, 2026)

Direção: Javier Calvo e Javier Ambrossi

Roteiro: Javier Calvo, Javier Ambrossi e Alberto Conejero, adaptado de Alberto Conejero e Federico García Lorca

Gênero: Drama, Thriller, Romance

Origem: Espanha, França

Duração: 155 minutos (2h35)

51th Toronto International Film Festival (TIFF) 


Sinopse: A partir de três histórias ambientadas em 1932, 1937 e 2017, o filme acompanha as vidas interligadas de três homens cujas experiências são atravessadas pelo desejo, pela sexualidade, pela dor e pela herança familiar. As narrativas se conectam também à memória de Federico García Lorca e a uma de suas últimas peças, deixada inacabada, explorando como histórias e experiências queer atravessam gerações.


English review


The directing duo ‘Los Javi’ turn La Bola Negra into a puzzle of three stories set in different periods, reflecting Spain and woven together through reflections on homosexuality and the freedom to define one's own identity.



Three distinct eras and realities separate the protagonists of La Bola Negra. Although the years 1932 and 1937 are not necessarily that far apart in time, the gap is enough for the filmmaking duo Javier Calvo and Javier Ambrossi - “Los Javi,” as they are known - to explore Spain as a true powder keg on the verge of being set alight in the moments before and after the outbreak of the Spanish Civil War, not only a bloody conflict and the immediate precursor to World War II, but also a moment that left deep marks and scars on the country that remain to this day - something investigated precisely when they take the story eighty years into the future, to 2017.


The clash between these realities emerges in the very first scene, set in 1937, in which a small town in the Spanish countryside eagerly awaits the arrival of the Italian troops, allies of dictator Franco, whom they supported during the war - and who would subsequently emerge on the winning side. The bombings lead the protagonist of this arc, Sebastian, portrayed convincingly by singer Guitarricadelafuente in his first film role, to join the fascist troops out of necessity, as a desperate act of survival amid the violence and carnage in his homeland - all within a single day. What he does not expect is a change in his still-forming perception of reality when he falls in love with a soldier taken prisoner, who fights for the freedom of a Spain free from fascist hands.


In the past, in 1932, Carlos, also very well played by newcomer Milo Quifes, faces a dilemma in his bid to be accepted as a member of the town's casino: behind the scenes, rumors and questions about his sexuality circulate through the streets and among residents, especially given the friendships and company he keeps. In a vote by the council, he needs the members to cast more white balls than black ones for him to be accepted. Should he stand by his principles or deny himself in order to be accepted by society?


In 2017, meanwhile, Alberto, played by the excellent Carlos González, lives in a time when he can be open about his own sexuality - an actor, playwright, and researcher of queer culture in the arts, he lives with his boyfriend in a nice apartment, with no wars or conflicts surrounding him in the country. These are times of peace. On poor terms with his mother, he learns of the recent death of his maternal grandfather, whose very existence he had been unaware of, and of a will that explicitly names him as a beneficiary.


Thus, through these three arcs, La Bola Negra weaves together reflections on homosexuality across eighty years, at different historical moments in the country, even if relatively close to one another in time - before, during, and decades after the Civil War. Although connected in some way, yet narratively isolated within their own universes, certain elements prove common throughout each of the journeys portrayed on screen, in which the gay identity of the characters is constantly questioned by their surroundings, which manifest themselves and affect them in different ways.


The editing by Alberto Gutiérrez is very careful in the way it builds connections between the stories, initially in subtle ways. Before establishing the bridges between them and the reasons they are being told to the viewer, the primary concern is the development of each of these men, who are repressed by society to some extent, and their feelings about the lives they lead, the circumstances in which they find themselves, and the goals they have set for themselves.


By establishing homophobia, a common element in these three lives, as the great antagonist facing these men, the directors avoid creating embodiments of heroes or villains among them and those around them. Social attitudes are precisely what separate them as a group to be discriminated against; the conservative biblical notion that relationships can exist only between men and women becomes the main idea to be challenged. Indeed, the directors establish this religiously rooted prejudice as something to be defeated so early on that, in the opening moments, they have Sebastian, during his escape, take shelter beneath the rubble of a church destroyed by war - which is also one of the film's main promotional images.


The feeling of exclusion is just one of many elements connecting the protagonists, whose fantastical passages in one of these stories extend, at their core, into the others. Visual rhymes likewise connect these three men, who never actually share a scene, by having their stories intersect through the fact that they occasionally need to hide who they are, even though they live in different historical periods. When they are subsequently connected by the narrative on the level of reality, the nonlinear structure of La Bola Negra comes full circle as something that goes far beyond individual tales, becoming a representation of great historical vicious cycles.


Within this moral battlefield, in the struggle for the freedom to determine one's own identity, the directors also find room for romance and contemplation. At a time when queer love was frowned upon, passion was expressed precisely through glances, affectionate gestures, and mutual concern, sustained by the hope that one day they would no longer be judged. Similarly, Los Javi also seize the opportunity to create a queer spectacle, experimenting with musical passages, a touch of the feminine gaze upon this notion of increasingly fragile “masculinity” (Penélope Cruz's character, in a small but relevant role, reinforces this aspect), and even moments in which looking toward the horizon and at the surrounding reality is far more eloquent than any words could convey. The film also explicitly engages with the literature of Federico García Lorca, whose memory is one of the foundations of the narrative.


This puzzle that is La Bola Negra makes its lengthy running time barely noticeable. There are so many moments in which we feel the characters' struggles, alongside this portrait of a social repression that is sometimes concealed, contrasted with the relative individual freedom of the contemporary world, which is moving toward progress, that we can see the love reproduced behind each piece of this story, so carefully constructed across three different eras, moments, and characters dealing with similar issues. The revelation, in the final moments, that the story was inspired by real events further reinforces the sensitivity of one of the year's most complex - and complete - films.


★★★★★


Comentários


© 2024 por Henrique Debski/Cineolhar - Criado com Wix.com

bottom of page