10º OVERLOOK FILM FESTIVAL | New Group, de Yûta Shimotsu (Idem, 2026)
- Henrique Debski

- há 3 horas
- 7 min de leitura
Yûta Shimotsu faz de New Group uma metáfora para retratar o conformismo na sociedade, na qual a expressão individual é suprimida em prol do pensamento coletivo, e toda discordância é perseguida.

O cinema de Yûta Shimotsu já me surpreendera na edição anterior do Overlook Film Festival, quando seu Best Wishes to All revelou-se um terror atmosférico muito perspicaz em sua abordagem crítica à sociedade japonesa a partir de conflitos morais, e uma desconstrução de heranças familiares conservadoras. Desde então, fiquei atento ao nome do cineasta, que ressurgira para mim no Fantasia Film Festival com seu novo projeto, New Group. Infelizmente, não houve oportunidade, na cobertura online daquele festival, de assistir ao longa, esta que finalmente aconteceu, um ano depois de conhecer sua obra anterior, na edição seguinte do Overlook.
Mantendo a abordagem formalista, onde Shimotsu anteriormente provocara através de planos longos, memórias fragmentadas, e um grande segredo por detrás dos laços familiares, em New Group busca incomodar seu público através da atmosfera caótica proposta desde a introdução, que intercala três situações distintas onde a indiferença aos poucos se torna uma verdadeira forma de violência, física e psicológica. Já é um indício da temática a ser abordada, mas ainda não de maneira precisamente esclarecida.
No decorrer do primeiro ato, uma frase específica, dita por uma professora de artes na escola onde se passa boa parte da narrativa, chama a atenção pelo confronto que propõe à sua função como educadora, e sobretudo na disciplina lecionada: “aqui não há espaço para expressão individual”. Com a posterior formação de uma cada vez maior e inexplicável pirâmide humana no gramado da quadra, e as constantes vezes em que Kobayashi, um aluno novo, critica a protagonista Ai por não expressar suas opiniões é que o tema da vez então se revela: o conformismo da sociedade.
Quando o corpo docente escolar parece aderir à ideia da pirâmide humana, sem explicações, forçando os alunos a dela integrar, os quais se direcionam, sem questionamentos, os pontos começam a se ligar. Enquanto a maioria segue indiscutivelmente aquilo que lhes é falado, sem discutir ou mesmo pensar, o pequeno grupo no qual se encontra a protagonista, que mentem a autonomia, passa a ser perseguido como dissidente.
É como se houvesse uma transformação à reflexão proposta pelo longa, enquanto a protagonista começa a repensar nos próprios atos. Mais atentas às práticas e ao que ocorre ao seu redor, percebe a cegueira pela qual fora acometida até mesmo no interior do seio familiar, enquanto seus pais igualmente revelam-se vendados às próprias ideias, em prol daquilo que lhes é oferecido, por exemplo, pela internet ou pela televisão. Da mesma forma é o que acontece nas questões inerentes a serem enfrentadas e resolvidas dentro de casa, como o luto, trabalhado pela família sob uma válvula de escape, esquivando-se do assunto sempre que possível.
É de se compreender que a realidade construída aqui por Yûta Shimotsu estabelece-se através da metáfora, na qual a verossimilhança dos eventos reside nas entrelinhas. Para tanto, o diretor recorre à violência e à fantasia para expressar essa retaliação social aos personagens principais, que se recusam a aderir ao efeito manada, transformando todas as sequências de ação e perseguição através das formações humanas tribais em uma representação de atos de exclusão, bullying e violências diversas, as quais o filme já anteriormente apresentara em momentos prévios à formação das pirâmides.
No decorrer da narrativa, essa nova percepção do mundo, excessivamente conformista e alienado pela ausência de pensamento individual em prol do coletivo, torna Ai a liderança de uma busca por novos tempos, de maior autonomia do ser. É o enfrentamento da pirâmide pela ‘bola’, uma circunferência – algo também parte da metáfora do longa –, o choque entre o momento presente e uma ordem futura, e de um mundo que não busca a destruição do pensamento diferente. Torna-se uma interessante analogia ao surgimento das sociedades fascistas, e um alerta ao retorno dos piores momentos vividos pela humanidade – não apenas uma relação indireta ao Holocausto e à Segunda Guerra, mas muitos outros, anteriores e posteriores.
Com as redes sociais e a internet, esse cenário se intensificou, e a alienação tornou-se ainda mais fácil e comum. Em meio à fantasia, terror, musical e até uma comédia ácida, pautada no absurdo, o retrato proposto por New Group prova-se uma leitura precisa dos caminhos seguidos pela sociedade contemporânea, na qual é mais fácil, e “mais recompensador”, filmar uma pessoa idosa caída ao chão para publicar nas redes sociais, por exemplo, do que ajudá-la a se levantar.
É um projeto no qual Shimotsu contrapôs a narrativa lenta de seu longa anterior, voltada ao núcleo familiar, ao ar frenético de um retrato social mais amplo, com ênfase na coletividade, em um terror que aposta na tensão de um ambiente adoecido pela ausência de expressão individual, valores morais distorcidos e na perseguição daqueles que ousam pensar diferente.
Avaliação: 4/5
New Group (Idem, 2026)
Direção: Yûta Shimotsu
Roteiro: Yûta Shimotsu
Gênero: Terror, Thriller
Origem: Japão
Duração: 82 minutos (1h22)
Exibido no 10º Overlook Film Festival
Sinopse: A estudante do ensino médio Ai vê seu mundo desmoronar quando uma estranha mentalidade, semelhante à de uma seita, passa a transformar gradualmente as pessoas ao seu redor em seguidores sem vontade própria, capazes de converter simples rotinas de ginástica em uma dança mortal e aterradora.
English review
Yuta Shimotsu turns New Group into a metaphor for societal conformism, in which individual expression is suppressed in favor of collective thinking, and any form of dissent is persecuted.
Shimotsu’s cinema had already surprised me in a previous edition of the Overlook Film Festival, when Best Wishes to All revealed itself as a highly perceptive atmospheric horror, critically engaging with Japanese society through moral conflicts and a deconstruction of conservative family legacies. Since then, I’ve kept an eye on the filmmaker, who reappeared on my radar at the Fantasia International Film Festival with this new project, New Group. Unfortunately, I didn’t have the opportunity to watch it during that festival’s online coverage, finally doing so a year later at a subsequent edition of Overlook.
Maintaining his formalist approach - previously marked by long takes, fragmented memories, and a central hidden truth within family dynamics - Shimotsu now seeks to unsettle the audience through a chaotic atmosphere established from the outset. The introduction intercuts three distinct situations in which indifference gradually transforms into a form of physical and psychological violence. It hints at the film’s thematic direction, though not yet in a fully explicit way.
During the first act, a particular line spoken by an art teacher at the school - where much of the narrative unfolds - stands out for directly contradicting her role as an educator: “there is no room for individual expression here.” As an increasingly large and inexplicable human pyramid begins to form on the school grounds, and as Kobayashi, a new student, repeatedly criticizes the protagonist Ai for failing to express her opinions, the film’s central theme becomes clear: societal conformism.
When the school’s faculty appears to adopt the pyramid without question - forcing students to participate, who in turn comply without resistance - the pieces begin to fall into place. While the majority follows instructions unquestioningly, a smaller group, including the protagonist, attempts to preserve some degree of autonomy, and is consequently targeted as dissident.
The film gradually transforms this reflection into a personal awakening for Ai, who begins to reconsider her own actions. Becoming more attentive to the practices and dynamics around her, she recognizes the blindness that has also shaped her family environment, where her parents likewise reveal themselves to be influenced by external forces - whether from television or the internet - rather than their own independent thought. Even within the household, issues such as grief are avoided, treated through emotional escape mechanisms rather than genuine confrontation.
It becomes clear that Shimotsu constructs this reality as a metaphor, where the verisimilitude lies beneath the surface. To express this, he leans into violence and fantasy, depicting the social retaliation against those who refuse to conform. The sequences involving tribal-like human formations and chases operate as representations of exclusion, bullying, and various forms of violence, all of which had already been suggested earlier in the narrative before the pyramids fully take shape.
As the story progresses, this new awareness of a hyper-conformist, alienated world - one devoid of individual thought - positions Ai as the leader of a movement toward autonomy. The confrontation between the pyramid and the “sphere” - a circular formation that also carries metaphorical weight - represents a clash between the present order and a possible future, one that does not seek to eliminate difference. It becomes a striking analogy for the rise of fascist societies and a warning about the return of humanity’s darkest moments - not only in reference to the Holocaust and World War II, but also to other past and present manifestations.
With the rise of social media and the internet, this condition has only intensified, making alienation easier and more pervasive. Amid its blend of fantasy, horror, musical elements, and even acidic, absurdist humor, New Group offers a sharp reading of contemporary society - one in which it feels easier, and even more “rewarding,” to film an elderly person collapsed on the ground for social media than to help them up.
In this project, Shimotsu contrasts the slower, family-centered narrative of his previous film with the frenetic pace of a broader social portrait, emphasizing collectivity. The result is a work of horror driven by the tension of a world made ill by the absence of individual expression, distorted moral values, and the persecution of those who dare to think differently.
New Group was screened at the 10th Overlook Film Festival, and will be available soon on Shudder.

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