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14ª MOSTRA DE TIRADENTES SP | Meu Tio da Câmera, de Bernard Lessa (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 17 horas
  • 4 min de leitura

Abrindo a intimidade do próprio núcleo familiar, Bernard Lessa faz de Meu Tio da Câmera um belo registro de memória, até acender uma discussão política que leva a obra para outros rumos, e reflete a polarização na qual se encontra o país – e o mundo.


 

O texto pode conter spoilers do filme. Siga com cautela, por sua conta e risco.

 

Como bem disse minha amiga, e crítica de cinema, Carol Ballan, em um pequeno comentário no Letterboxd: todo mundo tem ou já teve um “tio da câmera”. É aquele que, nas reuniões de família, e no próprio dia-a-dia dentro de casa, usava – ou usa – sua filmadora caseira (e agora o celular) para registrar e eternizar momentos festivos, de união e harmonia, dentro de casa. Apontando o equipamento para todos os lados, entrevista os familiares, faz piadas, brinca, e assim, constrói, talvez sem nem se dar conta no momento, um arquivo do próprio núcleo familiar através dos anos.

 

Em casa, creio que meu pai e mais um tio tenham dividido essa personalidade, e na família do diretor Bernard Lessa, o tio Paulo era o “tio da câmara”, especificamente o qual o título do filme se refere. Até certo ponto, inclusive, Meu Tio da Câmera é interessante pela maneira como abre a intimidade de uma família, em uma colagem de registros feitos pelo tio que perpassam mais de trinta anos – do início da década de 1990 até os dias presentes.

 

Encanta a maneira como Paulo filmou sua vida dentro de casa, com sua esposa, e os três filhos crescendo, de pequenos, brincando na piscina, correndo pela casa, estudando, passando pela adolescência e chegando até os dias mais recentes, com eles viajando, todos já formados em universidades, seguindo as próprias carreiras profissionais, e um deles até mesmo já sendo pai. O cineasta, inclusive, também aparece, de criança, em algumas das imagens, brincando com os primos, tal como seus avôs e o restante da família.

 

Os registros do tio, no entanto, vão para muito além do convívio apenas em casa. No recorte realizado por Lessa, o assistimos também trabalhando ao lado do pai (avô do diretor), e após seu falecimento, o homenageando, em tom de gratidão. O registro que se faz, a partir da montagem, se assemelha à memória em sua forma mais pura: esporádica, pouco ordenada, sem exatamente uma linha temática ou mesmo cronológica, refletindo apenas o que é o tio Paulo: uma pessoa bem-humorada, de alto astral. Fica registrado com sua câmera o como foi, e certamente continua sendo, um bom pai para seus filhos, presente e pilar de suas criações, em um lar amoroso.

 

No entanto, Bernard Lessa busca por um efeito de choque em sua narrativa. Conhecendo o público que assistirá ao filme, e os festivais por onde passará, decide pela inserção de um elemento político na obra. Ao mostrar, durante cerca de apenas dois minutos, o tio Paulo imerso em manifestações de determinado grupo em apoio a certa personalidade política, amplas reações partiram do público de Tiradentes, segundo relatos obtidos, pelas palavras de amigos que cobriram presencialmente o festival, em janeiro de 2026. Seriam reações de susto, decepção, de um ar frustrado com os posicionamentos da pessoa, até então, retratada como “incrível”.

 

Por um lado, se torna uma maneira interessante de ilustrar a polarização político-partidária que divide o país no presente momento. Incapazes de discernir o posicionamento eleitoral de determinado indivíduo, todo um retrato gentil, que reflete uma pessoa amorosa, cai por terra quando se mostra, superficialmente, a tendência de sua posição. Em momento algum Paulo fala qualquer coisa relacionada ao assunto, apenas acompanhamos imagens suas que o colocam no centro de uma manifestação. É um reflexo de uma intolerância social, tão enraizada em nosso cotidiano que talvez nem percebamos, de que somos incapazes de discernir uma pessoa querida, que conhecemos durante sessenta e cinco minutos, de uma posição política. É aquilo “não posso me relacionar ou me sentir bem ao lado de alguém que vota em partido A ou B”. Esse pensamento apenas leva a sociedade à beira de um precipício, aos piores dias já vividos pela espécie humana desde seu surgimento, quando a beleza do mundo, e da natureza do ser, é justamente a diversidade.

 

Por outro lado, a questão que fica é: qual o custo dessa abordagem adotada por Bernard Lessa? Qual precisamente foi sua intenção em, tendo em vista o público que assistirá a obra, jogar seu próprio tio, de quem faz um belo retrato durante boa parte do tempo, à jaula dos leões? Seria realmente necessário conhecer essa faceta política dele, ou apenas tornou-se um recurso para tornar o filme mais “surpreendente”, e chamar a atenção?

 

A mim, confesso, tornou-se duvidosa a escolha. Continuarei a gostar do registro de Lessa ao tio, independente da posição política apresentada, algo de cunho estritamente pessoal, que não vale a pena ser discutida no contexto estabelecido pela obra. Mas questiono se realmente é algo ético expô-lo dessa maneira – cheguei a assustadoramente ler em um comentário sobre o filme na internet que o tio Paulo representaria a “banalidade do mal”. Sendo sarcasmo ou não, pois não foi esclarecido pelo autor das palavras, que limitou-se ao patético comentário, reflete bem parte do efeito gerado pelo longa, cujo custo social e familiar pode tornar-se alto aos envolvidos.

 

Avaliação: 3/5

 

Meu Tio da Câmera (Idem, 2026)

Direção: Bernard Lessa

Roteiro: Bernard Lessa

Gênero: Documentário

Origem: Brasil

Duração: 71 minutos (1h11)

Exibido na 14ª Mostra Tiradentes | SP

 

Sinopse: Meu Tio da Câmera acompanha 30 anos de filmagens realizadas por Paulo Henriques de sua família em Vitória, uma família capixaba de classe média crescendo no Brasil dos anos 90 e 2000. Na intimidade de sua câmera, é esboçado um panorama político do Brasil a partir da afetividade familiar masculina.

 
 
 

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