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14ª MOSTRA TIRADENTES SP | Anistia 79, de Anita Leandro (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Em Anistia 79, Anita Leandro explora o passado a partir de registros de câmera redescobertos e digitalizados, enquanto dialoga com o presente ao conversar, cinquenta anos depois, com as pessoas retratadas e seus descendentes.


 

A preservação da memória veio, ao longo dos anos, se mostrando como um dos (muitos) atributos da arte cinematográfica. Seja através da restauração e digitalização de acervos em película, como forma de manter vivas filmagens de outros tempos; editá-las em uma comparação com o presente e inseri-las em uma análise contemporânea do passado; ou mesmo mediante a própria ficção, com a dramatização de eventos reais. Por isso obras que retratam momentos históricos, guerras, ou o Holocausto, entre os muitos possíveis exemplos, encontram importância na disseminação de eventos do passado, e ao explorar parte de seus horrores, contribuem para (tentar) assegurar que nunca mais aconteçam – afinal, a História tende a se repetir, e cabe a nós tentar evitar.

 

Naturalmente, o mesmo pensamento vale, no Brasil, à memória dolorosa dos tempos da ditadura militar, compreendida entre 1964 e 1985. A partir da tomada do poder pelo Exército, e a derrubada do então presidente João Goulart, muitas liberdades individuais foram suprimidas, vozes silenciadas, pessoas desparecidas. Quem ousava enfrentar o governo, onde não havia democracia, acabava preso, muitos torturados nos porões, executados, e cujos corpos até hoje não foram encontrados. Foram momentos delicados, que o cinema brasileiro, por muitas vezes, busca relembrar, de documentários à dramas ficcionais baseados em histórias reais, a fim de jamais esquecer, e claro, também conscientizar.

 

Em um mar de filmes que versam sobre esse momento histórico brasileiro, o documentário Anistia 79 se destaca ao fazer uma abordagem diferenciada, em questões especiais e temporais. A partir de rolos de filmagem redescobertos por Hamilton dos Santos, frutos de filmagens próprias, esquecidas no porão de sua casa, a cineasta Anita Leandro nos leva à Roma, no ano de 1979. Com a preservação e digitalização dos negativos originais, o material é um registro amplo e preciso da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, ocorrido no parlamento italiano, tendo conseguido a concretização da maior reunião de pessoas representantes da esquerda brasileira à época, em sua maior parte exilada na Europa.

 

Com o já enfraquecimento do regime militar, ao final da década de 1970, acreditava-se na possibilidade de pressão para a aprovação, por parte do congresso, de uma anistia aos presos políticos, vitimados pelo regime. Seria uma possibilidade de libertação dessas pessoas, e sobretudo da possibilidade de retorno aos exilados, que se encontravam na Europa.

 

O que torna Anistia 79 impactante, no entanto, não é a mera digitalização do filme de Hamilton dos Santos, e sua montagem na sala de edição, para posterior divulgação, mas a maneira como Anita encontra de estabelecer uma ponte apta a conectar o passado com o presente, a partir dos comentários que tece no entorno do material obtido. As filmagens são exibidas à pessoas diretamente envolvidas com aquele encontro, das próprias personalidades retratadas, até mesmo seus descendentes – alguns já militantes à época, e outros que aparecem nas filmagens ainda crianças, ao lado dos pais.

 

Em um primeiro momento, a emoção predomina a tela porquanto os entrevistados se fascinam ao rever seus mestres, mentores, amigos, familiares e até a si próprios, quase cinquenta anos no passado. A memória pessoal, de fato, é algo que se mantém vivo ao longo de toda a narrativa, a cada debate retratado, cada fala registrada naquele momento, e a cada lembrança que vem à mente, mesmo aos que ali não se encontravam ao tempo.

 

À medida em que avança, então, o filme revela um escopo extremamente amplo na gama de temáticas que levanta em relação à anistia. De discursos que expunham a necessidade de levar e aprovar o projeto junto ao Congresso Nacional, o filme se aprofunda em debates ainda mais complexos, que circundam a necessidade do final da ditadura e o reestabelecimento de uma democracia no país. São ricos registros de discussões entre os principais representantes da esquerda brasileira ao tempo, e suas respectivas linhas ideológicas, mediados por alguém mais “neutro”; e até a oitiva de vozes representativas dos movimentos agrários e sindicais.

 

Com a oitiva, no presente, de alguns dos retratados, Anita Leandro reflete, então, o que mudou em cinquenta anos no Brasil. A partir da memória passada, da reflexão das dores coletivas, do atentado e reestabelecimento da democracia, e das baixas que houveram pelo caminho, Anistia 79 vai além de meramente digitalizar um registro histórico, mas o discute a partir de um olhar contemporâneo. Com um plano final catártico, no Parlamento Italiano atual, naquela mesma sala, o documentário, que falando dessa maneira pode parecer engessado pelo excesso de entrevistas, apresenta um dinamismo, fruto da montagem assinada pela diretora, justamente com Isabel de Castro, ao permitir uma breve viagem ao passado, pelos olhos de Hamilton, com uma visão atual sobre os resultados da Conferência, e seus impactos posteriores à democracia do presente. É um filme poderoso, um registro de memória pouco usual, e uma abordagem temática diferenciada, no retrato dos exilados, que jamais desistiram do país.

 

Avaliação: 4/5

 

Anistia 79 (Idem, 2026)

Direção: Anita Leandro

Roteiro: Anita Leandro e Alice de Andrade

Gênero: Documentário

Origem: Brasil

Duração: 104 minutos (1h44)

Exibido na 14ª Mostra Tiradentes | SP

 

Sinopse: Roma, junho de 1979. Exilados brasileiros filmam a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, o maior encontro da esquerda brasileira fora do país. Quase meio século depois, essas imagens reacendem o debate sobre a manutenção do aparato repressivo da ditadura e a impunidade dos torturadores.

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