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CRÍTICA | Devoradores de Estrelas, de Phil Lord e Christopher Miller (Project Hail Mary, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 6 horas
  • 5 min de leitura

Devoradores de Estrelas equilibra razão e emoção em épica ficção-cientifica, com Ryan Gosling provando ainda mais carisma em frente às câmeras.


 

Ainda consigo me recordar do dia em que vi o anúncio dos primeiros materiais promocionais de Devoradores de Estrelas. Estava em casa, no final de semana, descendo no elevador para pegar um lanche que havia pedido, quando vi o pôster anunciando o projeto protagonizado por Ryan Gosling, com uma sugestão – e aspecto – de propor-se a ser um épico de ficção científica. Era ainda bastante cedo (talvez junho ou julho do ano passado), e até pensei “mas nossa, só março do ano que vem”? O tempo voou, e a estratégia funcionou, pois apesar de não estar tão ansioso pelo longa (ou no hype, como dizem), eu lembrava da data de lançamento.

 

Sem esperar nada, e tampouco saber sobre o filme, para além de alguns nomes envolvidos na produção, fui positivamente surpreendido com o lançamento. A grandiosidade que sugeria em seu material promocional se confirmou diante da tela IMAX em que tive a oportunidade de assistir ao filme, em uma construção narrativa cuja estrutura nos remete a elementos de Oppenheimer. Não exatamente existem dois pontos de vista, mas dois momentos distintos, acompanhados sob o olhar de um mesmo personagem, que andam lado a lado, entre passado e presente, e segmentam-se em blocos temáticos capazes de juntos estabelecer um interessante diálogo acerca da situação e momento em que o protagonista se encontra, frente aos desafios que precisa enfrentar.

 

O longa começa com Dr. Grace, vivido por Gosling, acordando de um coma induzido, sob a voz de um robô ecoando em seus ouvidos, sem compreender nada do que está acontecendo ao seu redor, desnorteado. Estamos tão perdidos quanto ele, tentando entender quem é e o porquê dele estar ali, em um ambiente aparentemente futurista, semelhante a uma nave espacial, e sozinho. A pouca tripulação existente está registrada como falecida, o deixando definitivamente como o único sobrevivente do local. Sua missão terá de descobrir sozinho, reavivando as próprias memórias e buscando por qualquer elemento que o permita se recordar de quem é o do porquê está ali.

 

Evidentemente, o mistério inicial nem de longe é o cerne do filme, mas uma forma inteligente de oferecer uma aproximação do público com o protagonista a partir da ausência de informação, e da busca por ela. Assim, começamos, então, a revisitar do passado, não como flashes da memória, já que tão logo o personagem a recupera, mas de maneira cronológica, intercalada com o momento presente.

 

As escolhas do que e como mostrar e abordar, no entanto, não são aleatórias. Inexiste uma proposta manipulativa à narrativa, a fim de reservar informações para posteriores surpresas, mas como forma de absorver, e desenvolver, com calma, todo o contexto que motiva a missão espacial. É algo que o roteiro de Drew Goddard, adaptado do livro homônimo de Andy Weir, trabalha muito bem, porquanto a exposição verbal é inevitável, mas com uma clara preocupação em demonstrar os fenômenos científicos que menciona, explorar, sempre que possível, as formas pelas quais se chegou a determinadas respostas, e esclarecer, efetivamente, o contexto de preocupação e urgência da Terra, e da necessidade de uma intervenção a partir de uma reunião global como a do Projeto Hail Mary, que originalmente titula a obra.

 

No entanto, Devoradores de Estrelas vai além de uma ficção científica de proporções épicas. Como um filme hollywoodiano voltado a um público até familiar, é de se esperar que o risco real não exista de fato, mas tão somente de maneira abstrata, o que se prova verdade no decorrer da projeção. Mas o risco, e a própria aventura, não é realmente o que importa, mas a jornada que se estabelece no caminho.

 

No arco referente ao passado, uma superação de medo e insegurança por parte do Dr. Grace revela-se um ponto central, enquanto auxilia nas investigações dos fenômenos que ameaçam o planeta. A direção de Phil Lord e Christopher Miller privilegia, de maneira interessante, uma opção por razão de aspecto mais claustrofóbica e fechada. Ainda que repleto de ambientes abertos, e definitivamente muito mais arejados do que uma capsula espacial, a insegurança do protagonista é o que mais o comprime diante de ambientes e cenários sociais, nos quais, intelectualmente, está no mesmo nível, senão até além, de todos ao redor.

 

No presente, enquanto no espaço, as apertadas paredes da nave espacial são filmadas a partir de ângulos abertos, e uma razão de aspecto preenchedora de toda a tela. Retomadas as memórias, o contato e improvável amizade com um alienígena feito de pedra possibilita o aprofundamento do protagonista sob outro ponto de vista: a manutenção das relações. Superada uma barreira da incomunicabilidade, a partir de uma solução tecnológica, a cooperação entre ambos leva a construção de uma amizade genuína.

 

As maneiras como os cineastas exploram o restrito ambiente da maior parcela do longa, a nave, a partir de uma câmera que se movimenta distintamente ao longo da projeção, diante dos momentos e diferentes necessidades dos personagens, torna a extensa narrativa de quase cento e sessenta minutos infinitamente mais dinâmica, tal como as escolhas da trilha musical se revelam precisas para a composição da atmosfera épica, que vai muito além dos efeitos visuais impressionantes. Da mesma maneira, em muito contribui a atuação carismática de Ryan Gosling, enquanto segura a maior parte do tempo como o único em frente à câmera, muitas vezes desacompanhado. E ainda que contracenando com uma criatura de CGI, o trabalho gráfico capaz de construir uma relação crível através da imagem proporciona momentos de emoção ao público no clímax narrativo.

 

E assim, a prova de que Devoradores de Estrelas é realmente um épico do ano se faz quando, ao final da projeção, além de pouco sentirmos a extensa duração, ficamos com a sensação de que gostaríamos de conhecer ainda mais daquele universo. Não que eu espere por uma sequência ou spin-off, algo desnecessário, mas prova uma imersão cada vez mais difícil de se encontrar no cinema recente. Trata-se de um filme que fala tanto quanto mostra, apaixonado pela própria construção, e capaz de colocar a emoção e a razão lado a lado, sem torná-las mutuamente excludentes à jornada do protagonista. É um filme muito equilibrado em seus elementos, e incrivelmente humano no melhor dos sentidos. Talvez até deixe uma esperança de que a humanidade tem salvação.

 

Avaliação: 4.5/5

 

Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary, 2026)

Direção: Phil Lord e Christopher Miller

Roteiro: Phil Lord e Christopher Miller

Gênero: Ficção-Científica, Aventura, Comédia

Origem: EUA

Duração: 156 minutos (2h36)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: O professor de ciências Ryland Grace acorda em uma espaçonave, anos-luz de casa e sem memória de quem ele é ou como chegou lá. Enquanto sua memória volta, ele começa a descobrir sua missão: desvendar a misteriosa substância que está causando a morte do Sol.

 
 
 

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