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CRÍTICA | Missão Refúgio, de Ric Roman Waugh (Shelter, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Missão Refúgio pauta a hipervigilância como pano de fundo e instrumento de roteiro para um thriller de ação genérico, incapaz de aproveitar do elenco talentoso ou de algumas boas ideias que traz para discussão.


 

No decorrer dos últimos anos, parece que Jason Statham vem se aproximando cada vez mais de um caminho semelhante ao de Liam Neeson: mesmo sendo um bom ator (especialmente no que se refere ao cinema de ação), anualmente faz filmes diferentes em que interpreta sempre o mesmo personagem, seguindo à risca uma fórmula de missões de “resgate”, e com alguma trama de vingança por perto, seja em face do passado ou de alguma situação do presente.

 

Esse é mais ou menos o campo no qual se encontra os mais recentes projetos do ator, The Beekeper e A Working Man, ambos em colaboração com o cineasta David Ayer, sem grandes histórias para contar, e bastante genéricos na forma como se constroem, mas que pelo menos encontram personalidade no absurdo da ação violenta, e com certa dose de humor, ao assumir, gradualmente, um aspecto de galhofa.

 

No mesmo ritmo, Missão Refúgio traz Jason Statham como um homem recluso em uma ilha solitária, junto a um farol, que passa por uma reviravolta após salvar uma garota de um naufrágio, sobrinha do homem que lhe entregava suprimentos semanalmente, e, ao ser identificado por uma câmera de segurança ao comprar itens de primeiros socorros em uma cidade próxima, começar a ser perseguido por antigos inimigos do MI6, que o levam a enfrentar o passado e proteger a menina.

 

Na proposta batida, até existe uma ideia muito interessante abordada pelo roteirista Ward Parry, ao trabalhar, em segundo plano, como desafio aos personagens, um polêmico sistema de segurança antiterrorismo operado pelo serviço secreto, capaz de identificar pessoas por meio do reconhecimento fácil através de qualquer câmera – este que coloca o Reino Unido em uma crise sem precedentes, capaz de derrubar a Primeira-Ministra e a própria agência. No entanto, esse aspecto político serve como pano de fundo para operar com mais agilidade as ameaças, e ao se limitar a esta descrição, torna-se apenas um facilitador para o texto estabelecer os confrontos e acelerar ou desacelerar a narrativa, por meio das perseguições e da ação, conforme necessário.

 

O recurso tecnológico empregado pela trama a servir como mero instrumento de controle narrativo pelo roteirista não é um problema, até que suas intenções comecem a extrapolar o campo do filme ao subestimar a capacidade do espectador. No decorrer da obra, regras antes estabelecidas para o funcionamento do sistema começam a encontrar exceções diferentes a cada cena, como forma de burlar a si próprio e chegar aonde precisa utilizando de “atalhos” mal desenhados, que contradizem a própria narrativa, abalando a relação para com o público, incapaz de confiar naquilo que o longa firma como parte do funcionamento de seu universo.

 

Isso vale também à identidade do protagonista de Statham, que ao invés de revelada no desenrolar dos eventos, é feito pura e simplesmente através de diálogos expositivos no arco protagonizado por Naomi Ackie, uma ótima atriz terrivelmente aproveitada em um filme cuja função a ela atribuída se resume a verbalizar fatos com uma analista da agência de espionagem. Quando desconfia de algo no banco de dados, que parece falso, simplesmente tecla três botões do teclado e descobre a verdade sobre algo ou alguém – o que, em tese, deveria estar escondido “a sete chaves”. Nunca há espeço para os personagens falarem de si, revelarem as verdades ou discutir as próprias intenções, como no caso de Bill Nighy, igualmente perdido aqui. A função de cada um é estabelecida em suas primeiras aparições, e permanece inalterada até o final, nunca soando como seres humanos de verdade, mas apenas peças no tabuleiro do filme, de maneira unidimensional.

 

A relação do protagonista com a garota “resgatada”, vivida muito bem pela jovem Bodhi Rae Breathnach, é o melhor atributo do filme, pela química que existe entre os atores em uma relação paternal, mas segue prejudicada pelo roteiro que nunca os desenvolve de verdade para além desse sentimento, ou pelo menos se interessa em ir além em suas personalidades.

 

E por incrível que pareça, é tudo tão apagado em Missão Resgate, com sua fotografia acinzentada e escura, que nem a ação orquestrada por Ric Roman Waugh é capaz de tornar o longa empolgante. Até existem algumas coreografias de luta legais, ainda mais por Statham ser um ator de muita experiência, mas para além de curtas, e do personagem nunca sofrer ou sequer ser atingido, a montagem não consegue torná-las empolgantes por cortar antes do impacto das pancadas, sem muito mostrar das consequências da violência, e acompanhadas por uma trilha repetitiva de batidas eletrônicas vão se tornando cansativas, assim sem nunca surtir qualquer sensação de perigo. Claro exemplo de tudo isso é a grande batalha final, contra o assassino que o persegue ao longo do filme, a qual se encerra em menos de um minuto.

 

Assim, mesmo que o cineasta tente acrescentar alguma tensão com sua câmera trêmula, a bolha formada pelo roteiro para proteger os personagens nunca faz este thriller de ação soar tenso de alguma forma. Missão Resgate subaproveita um elenco talentoso (incluindo o próprio Statham), se entrega a um roteiro genérico, e até mesmo consegue tornar a própria ação entediante. A temática da hipervigilância governamental renderia muito mais se permitisse soar ousada nas escolhas, e não apenas como mero instrumento para que os vilões encontrem o protagonista, usado de maneira tão discrepante e incoerente que até subestima o próprio espectador.

 

Avaliação: 2/5

 

Missão Refúgio (Shelter, 2026)

Direção: Ric Roman Waugh

Roteiro: Ward Parry

Gênero: Thriller, Ação

Origem: EUA, Canadá, Reino Unido

Duração: 107 minutos (1h47)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: Um faroleiro em uma remota ilha escocesa resgata uma garota do mar, desencadeando uma sequência perigosa de eventos que culminam em um ataque à sua casa, forçando-a a enfrentar seu passado conturbado.

 
 
 

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