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XXII FANTASPOA | Life at Sandy’s, de Aleksandra Hansen (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 4 de mai.
  • 6 min de leitura

Partindo de uma “sitcom fantasmagórica”, Life at Sandy’s pouco extrai de sua proposta, em filme de terror tímido, que se deixa levar pelas belas composições visuais, esquecendo-se de desenvolver o universo e a tragédia da protagonista.


 

Lembro-me como se fosse ontem da época, quando adolescente, em que costumava jogar videogame – especialmente Minecraft – ouvindo a creepypastas na internet. Entre as muitas que cheguei a escutar, uma das que mais gostava era Candle Cove, sobre um programa infantil que apenas crianças conseguiam assistir, exibido entre a estática da televisão, cujo qual os adultos não enxergavam. O mistério da história residia na dúvida, se aquele programa seria fruto de uma ilusão coletiva, ou se realmente havia existido – e se sim, como e quais seriam as intenções dos realizadores por detrás daquilo. Inclusive, de tão interessante chegou a ser adaptada para a televisão, na primeira temporada da série antológica Channel Zero, criada por Nick Antosca, com a proposta de explorar essas antigas creepypastas em formato de seriado.

 

De certa maneira, Life at Sandy’s bebe de uma fonte semelhante a de Candle Cove, ainda que não intencionalmente, ao girar em torno de uma estranha sitcom, que aparece em antigas televisões de tubo, a pessoas emocionalmente vulneráveis de uma pequena cidade no interior da Noruega, tornando-as viciadas no programa – ou ao menos é o que parece. É neste lugar onde reside a protagonista, Evelyn, vivida por Heather Cunningham, uma jovem norte-americana, que acabara de perder a mãe, e passa a morar com a tia. Mesmo vivendo no país há alguns anos, o sentimento de deslocamento aumenta a cada dia enquanto não domina a língua local, e tampouco possui condições financeiras de retornar ao seu país de origem.

 

Na prática, torna-se evidente a intenção da roteirista e diretora Aleksandra Hansen em explorar a depressão da personagem frente à realidade que vive. Com poucos momentos de exposição, essa atmosfera de incapacidade se revela nas entrelinhas de uma rotina cansativa e desinteressante, enquanto eventualmente a personagem reflete sobre o passado com olhares de saudosismo, a partir de seus interesses artísticos, por exemplo, com a fotografia, que não mais sente vontade em exercer, ao passo que sua tia, ao invés de reconhecer a situação e oferecer apoio, apenas a considera preguiçosa, a compara com a mãe, de quem sente falta, e a ela se refere como quem não quer nada da vida.

 

É quando justamente a sitcom “Life at Sandy’s” surge para Evelyn, em um quarto escondido embaixo da sala da própria casa, no qual existe um sofá e uma televisão de tubo. Aos poucos, a personagem torna-se viciada no seriado, e passa a conversar com a tela e seus personagens. Como parte de algo por ela inventado ou não, fato é que tal vício não se mostra saudável, quando se torna a única fonte de prazer, na fuga para aquele mundo perfeito, de estética inspirada em Seinfeld e Friends, se passando em uma cafeteria tipicamente norte-americana – mais um elemento que reforça sua saudade do país.

 

No entanto, em meio à crítica metalinguística articulada à artificialidade da arte, e o vício excessivo no cinema e na televisão, como válvulas de escape ao mundo real e suas possibilidades no combate à depressão, Hansen parece nunca saber como trabalhar essas ideias em seu universo, e tampouco quaisquer outros elementos que nos remetam à fantasia. É o caso de uma série de situações estranhas, e teoricamente metafóricas que insere no decorrer da projeção (como um ovo com sangue no supermercado, ou uma criança “valentona” sofrendo do próprio veneno, caindo ensanguentada ao chão depois de se machucar) que nunca parecem se encaixar exatamente à narrativa. Talvez a intenção fosse um aprofundamento da protagonista, mas que sem qualquer contexto, apenas soa como ideias deslocadas em um filme de terror que precisar se esforçar para aumentar a dose de tensão e provocação a fim de se encaixar no gênero, quando por muitas vezes com ele parece pouco interessado.

 

O mesmo acaba valendo também à sitcom que titula a obra, cujo prólogo não guarda ou encontra relação ao restante da narrativa, senão, talvez, por uma visita da protagonista à casa da senhora idosa que assistia ao programa na cena inicial. Ainda assim, é mais uma passagem estranha e igualmente descontextualizada do longa, que apenas cria certa tensão sem grandes razões dentro do conjunto, o que aos poucos esvazia a obra.

 

Assim, mesmo com um gingle que prende à mente, pouco se torna memorável em Life of Sandy’s, senão o sentimento de uma oportunidade não aproveitada. Muito preso às escolhas estéticas “bonitas” em frente à câmera, pouco se diz e pouco se conta acerca de seu universo, enquanto um terror tímido, repleto de passagens deslocadas, e excessivamente convencional no trato à temática da depressão, cujo debate colocado em tela, acerca do papel da arte, é trabalhado de forma contraditória no discurso, entre o vício e a fonte de energia para o auxílio da pessoa a sair do fundo do poço.

 

Avaliação: 2/5

 

Life at Sandy’s (Idem, 2026)

Direção: Aleksandra Hansen

Roteiro: Aleksandra Hansen

Gênero: Thriller, Drama, Terror

Origem: EUA, Noruega

Duração: 75 minutos (1h15)

Exibido no XXII Fantaspoa

 

Sinopse: Após a morte de sua mãe, Evelyn, uma jovem norueguesa-americana sem rumo, fica presa e sozinha em uma pequena cidade na Noruega. Afundando em depressão, ela fica obcecada por um sitcom americano chamado "Life at Sandy's" e começa a se refugiar no mundo da série, fazendo amizade com os personagens. Quanto pior sua vida real fica, mais tempo ela passa no sitcom.

 

English review


Starting from a “ghostly sitcom” premise, Life at Sandy’s extracts very little from its idea, resulting in a timid horror film that becomes overly absorbed in its attractive visual compositions while neglecting to develop its world and the tragedy of its protagonist.


I remember clearly my teenage years, when I used to play video games - especially Minecraft - while listening to creepypastas online. Among the many I heard, one of my favorites was Candle Cove, about a children’s TV show that only kids could see, hidden within television static, invisible to adults. The mystery lay in whether the program was a shared illusion or something that truly existed - and if so, what intentions lay behind it. Its popularity even led to an adaptation in the first season of the anthology series Channel Zero, created by Nick Antosca, which explored such creepypastas in serialized form.


In some ways, Life at Sandy’s draws from a similar source as Candle Cove, even if unintentionally, by centering on a strange sitcom that appears on old tube televisions to emotionally vulnerable residents of a small Norwegian town, gradually turning them into addicts of the program - or so it seems. It is in this setting that we meet the protagonist, Evelyn, played by Heather Cunningham, a young American woman who has recently lost her mother and now lives with her aunt. Despite having lived in the country for some time, her sense of displacement only deepens, as she does not speak the language fluently and lacks the financial means to return home.


It becomes clear that writer-director Aleksandra Hansen intends to explore the character’s depression in the face of her circumstances. With minimal exposition, this sense of emotional paralysis emerges subtly through a monotonous and unfulfilling routine, punctuated by moments of nostalgia tied to her past - particularly her artistic interests, such as photography, which she no longer feels motivated to pursue. Meanwhile, her aunt fails to recognize her struggle, dismissing her as lazy, comparing her unfavorably to her late mother, and treating her as someone with no ambition.


It is in this context that the sitcom Life at Sandy’s appears to Evelyn, discovered in a hidden room beneath the house, furnished with a couch and an old tube television. Gradually, she becomes obsessed with the show, even interacting with its characters. Whether imagined or not, this dependency proves unhealthy, as it becomes her sole source of comfort - an escape into a perfect, idealized world visually inspired by shows like Seinfeld and Friends, set in a typical American café, further reinforcing her longing for home.


However, despite its metalinguistic critique of the artificiality of art and the excessive reliance on film and television as coping mechanisms, Hansen never seems to know how to fully develop these ideas within the film’s universe - nor how to integrate its more fantastical elements. This is evident in a series of strange, ostensibly symbolic moments (such as a blood-filled egg in a supermarket or a bully child suddenly injured and collapsing) that never quite connect to the narrative. Perhaps they are intended to deepen the protagonist, but without context, they feel like disjointed ideas in a horror film that seems to strain itself to generate tension, often appearing uninterested in the genre it inhabits.


The same issue applies to the sitcom itself, which gives the film its title. Its prologue bears little to no connection to the rest of the story, aside from a possible link through Evelyn’s visit to the elderly woman seen watching the show in the opening scene. Even then, it remains another strange and poorly contextualized moment that generates tension without meaningful purpose, gradually draining the film of substance.


Thus, even with a catchy jingle, little in Life at Sandy’s proves memorable beyond the sense of a missed opportunity. Too focused on aesthetically pleasing imagery, the film says very little about its world, resulting in a timid horror piece filled with disconnected moments and an overly conventional approach to its themes. Its central discussion - about the role of art as both an addictive escape and a potential source of healing - ultimately feels contradictory and underdeveloped.


Life at Sandy's was screened at XXII Fantaspoa (world premiere).

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