TIFF 51 | Mr. Nelson, Did You Kill People?, de Shinya Tsukamoto (ネルソンさん、あなたは人を殺しましたか?, 2026)

O cineasta veterano Shinya Tsukamoto leva o espectador à mente de Allen Nelson e seus traumas da Guerra do Vietnã, em retrato sólido e não espetacularizado das profundas marcas do conflito em um soldado arrependido.

Mais de cinquenta anos após o término do conflito, a Guerra do Vietnã segue como um evento ainda muito discutido no cinema norte-americano. Tendo servido como base para inúmeros clássicos que retratam o período, ainda que a pretensão dos cineastas seja criticar o episódio, sua espetacularização aos olhos do público através do cinema acaba se tornando um fenômeno bastante comum – algo que vale, também, aos filmes de guerra como um todo. Não à toa, embora muitos utilizem da arte como meio para reflexões políticas e sociais, como um esforço para desconstruir narrativas militaristas, o próprio militarismo também se utiliza do cinema para vender suas versões da história e convencer pessoas a se alistarem ao serviço militar – mesmo a contragosto de muitos, é certamente uma das funções de Top Gun, por exemplo.
Esse limiar entre o cinema de guerra e o espetáculo é tão complexo, e a linha tão tênue, que mesmo Oliver Stone, diretor que até hoje usa de sua filmografia para dissecar os Estados Unidos das décadas de 60/70, por mais de uma vez acabou, mesmo enquanto falava contrariamente, transformando passagens de violência do Vietnã em espetáculos visuais – o mesmo que fora feito, na mesma época de Platoon, por Coppola em Apocalypse Now, e segue acontecendo, como na recente comédia de Peter Farrelly The Greatest Beer Run Ever.
Ao mesmo tempo, também se tem tornado cada vez mais comum a discussão dos efeitos pós-guerra nos próprios soldados norte-americanos, para além das vítimas dos conflitos em seus próprios territórios, e a completa ausência de apoio estatal, tratados como seres dispensáveis, verdadeiras máquinas de matar, que ao retornarem para casa com sequelas psicológicas, são abandonados pela corporação que os levou para serem traumatizados, e pela sociedade que juraram defender.
Pelas mãos de Shinya Tsukamoto, um dos mais relevantes e autorais cineastas japoneses, Mr. Nelson, Did You Kill People? busca olhar para os efeitos da Guerra do Vietnã pelos olhos de um norte-americano, mas em um filme longe do controle de profissionais da indústria cinematográfica do país. O resultado é um longa evidentemente mais corajoso na abordagem, que se permite imergir na mente de uma pessoa perturbada pela guerra, assombrada pelo passado, e traumatizada com aquilo que fez e com aquilo que viu ao longo de sua participação pelo conflito.
Os minutos iniciais são bastante ilustrativos nessa relação sobre os efeitos que circundam o protagonista. Vivendo em um apartamento abandonado, em meio à sujeira e abandono, o jovem Allen Nelson, recém-chegado do Vietnã, furta comida em mercados locais e evita contato visual enquanto caminha pela rua. Com o aumento do volume sonoro da rua em que caminha, logo mais um estrondo torna a imagem preta e branca, e vemos Allen saindo debaixo de um carro estacionado, enquanto, aos poucos, o som retorna ao normal. É a visão mais clara que podemos ter, de início, relacionada a uma pessoa traumatizada, incapaz de sentir-se confortável na própria cidade em que nasceu e cresceu, após retornar de um campo de batalha.
A narrativa, de início não linear, demonstra a intenção de explorar essa personalidade real, cujo roteiro de Tsukamoto adapta suas memórias, a partir de um livro homônimo. A pergunta de uma criança, em uma sala de aula, “Sr. Nelson, você matou pessoas?” se torna o pontapé inicial para que assistimos ao primeiro dos alguns fragmentos de guerra encenados pela narrativa, em sua maior parte intercalados com as sessões de terapia de Allen, já mais velho, interpretado pelo talentoso Rodney Hicks, em sua estreia como protagonista no cinema, que assume o manto de repetidas vezes falar sobre o conflito, com as emoções e profundidades de um personagem que não consegue compreender as próprias emoções e sentimentos. Quando no passado, durante a própria guerra e logo após, na pele da versão mais jovem do protagonista, o olhar do jovem estreante Mark Merphy chama a atenção pelo misto de medo, trauma, liberdade e arrependimento que cercam a Guerra do Vietnã.
Quando no campo de batalha, Tsukamoto troca as longas sequências de ação em planos abertos, típicas do cinema norte-americano, repletas de explosões, inimigos vilanescos e aquela câmera que brilha para a violência da guerra por uma visão mais íntima e direcionada sobre o conflito. Centrado no ponto de vista de Nelson, quase sempre ao centro do quadro, a câmera se movimenta à mão, se comportando como se fosse mais um combatente. Ao nos imergir no conflito, abusa propositalmente de uma violência gráfica mais chocante e realista para representar a constante diminuição da sensibilidade dos soldados em meio ao sangue e pedaços de corpos. O ato de matar torna-se automático, de certa forma como meio de assegurar a sobrevivência quando em encontros com o inimigo, mas também de demonstrar um poder pessoal frente ao outro, quando a maior parte das baixas acontecem entre os civis, das remotas vilas vietnamitas.
O filme olha para toda essa violência com dor e pesar. Aos poucos, mostra-se como produto de um ecossistema que incentiva a brutalidade como o único meio de sobreviver, e de uma alienação por objetivos vagos. No fundo, pouco sabiam o que faziam na guerra, senão matar e machucar todos que não fossem norte-americanos. Ao retornar, a violência continua como algo internalizado, nunca resolvido dentro de si, e também como um sintoma, dentre outros, do estresse pós-traumático.
“Por que o Sr. Nelson matou pessoas”, então, acaba se tornando a grande pergunta que permeia a narrativa, colocada ao centro das sessões com o terapeuta. Para muito além de um filme de guerra como tantos outros, Mr. Nelson, Did You Kill People? leva o espectador à mente do protagonista, que encontra no diálogo sobre a guerra e nas próprias memórias uma das únicas formas de lidar com tudo o que fizera. Ao passo que se coloca sobre os trilhos e avança linearmente na vida do personagem, o filme também aproveita para discutir questões raciais na participação da população negra no conflito, em sua falta nas posições de comando, e na falta de assistência pelas mãos do próprio Estado no cuidado de seus soldados. No fundo, o que resta são as memórias, dores, arrependimentos, traumas e um desejo de que nunca mais aconteça.
Avaliação: ★★★★½
Mr. Nelson, Did You Kill People? (ネルソンさん、あなたは人を殺しましたか?, 2026)
Direção: Shinya Tsukamoto
Roteiro: Shinya Tsukamoto, adaptado de Allen Nelson (livro)
Gênero: Drama, Thriller, Guerra
Origem: Japão, EUA, Vietnã, Tailândia
Duração: 116 minutos (1h56)
51th Toronto International Film Festival (TIFF)
Sinopse: Nelson, criado em Nova York, entrou na Marinha aos 18 anos para fugir da pobreza e lutou no Vietnã em 1966. Traumatizado, viveu nas ruas até receber tratamento. Dedicou sua vida ao ativismo antiguerra, com mais de 1.200 palestras no Japão.
English review
Veteran filmmaker Shinya Tsukamoto takes the viewer into the mind of Allen Nelson and his traumas from the Vietnam War, in a solid, unsensationalized portrait of the deep scars left by the conflict on a remorseful soldier.
More than fifty years after the end of the conflict, the Vietnam War remains an event that is still widely discussed in American cinema. Having served as the basis for countless classics depicting the period, even when filmmakers' intention is to criticize the episode, its spectacularization in the eyes of audiences through cinema ends up becoming a rather common phenomenon - something that also applies to war films as a whole. It is no coincidence that, although many use art as a means for political and social reflection, as an effort to deconstruct militaristic narratives, militarism itself also makes use of cinema to sell its versions of history and convince people to enlist in the military - even against the wishes of many, this is certainly one of the functions of Top Gun, for example.
This threshold between war cinema and spectacle is so complex, and the line so thin, that even Oliver Stone, a director who to this day uses his filmography to dissect the United States of the 1960s and '70s, has more than once, even while speaking against it, ended up turning episodes of violence in Vietnam into visual spectacles - the same thing Coppola did around the time of Platoon with Apocalypse Now, and which continues to happen, as in Peter Farrelly's recent comedy The Greatest Beer Run Ever.
At the same time, discussion of the post-war effects on American soldiers themselves has also become increasingly common, beyond the victims of conflicts in their own territories, and of the complete absence of state support, as they are treated as disposable beings, true killing machines, who, upon returning home with psychological scars, are abandoned by the institution that sent them to be traumatized, and by the society they swore to defend.
At the hands of Shinya Tsukamoto, one of the most relevant and distinctive Japanese filmmakers, Mr. Nelson, Did You Kill People? seeks to examine the effects of the Vietnam War through the eyes of an American, but in a film far removed from the control of the country's film industry professionals. The result is a feature evidently more courageous in its approach, allowing itself to immerse us in the mind of a person disturbed by war, haunted by the past, and traumatized by what he did and what he saw throughout his participation in the conflict.
The opening minutes are quite illustrative of the effects surrounding the protagonist. Living in an abandoned apartment, amid dirt and neglect, young Allen Nelson, recently returned from Vietnam, steals food from local markets and avoids eye contact as he walks down the street. As the sound of the street around him grows louder, another blast soon turns the image black and white, and we see Allen emerging from underneath a parked car, while, little by little, the sound returns to normal. It is the clearest indication we can initially have of a traumatized person, unable to feel comfortable in the very city where he was born and raised after returning from a battlefield.
The initially nonlinear narrative demonstrates the intention to explore this real personality, with Tsukamoto's screenplay adapting his memories from a book of the same name. A child's question in a classroom, “Mr. Nelson, did you kill people?” becomes the starting point for us to watch the first of several fragments of war staged by the narrative, mostly intercut with Allen's therapy sessions when he is older, played by the talented Rodney Hicks in his feature-film debut as a lead actor, who takes on the mantle of repeatedly speaking about the conflict, with the emotions and depth of a character who cannot understand his own emotions and feelings. In the past, during the war itself and shortly afterward, in the skin of the protagonist's younger version, newcomer Mark Merphy's gaze draws attention through the mixture of fear, trauma, freedom, and remorse surrounding the Vietnam War.
When on the battlefield, Tsukamoto replaces the long action sequences in wide shots, typical of American cinema, filled with explosions, villainous enemies, and that camera that revels in the violence of war, with a more intimate and focused vision of the conflict. Centered on Nelson's point of view, almost always at the center of the frame, the handheld camera moves as if it were another combatant. By immersing us in the conflict, it deliberately indulges in more shocking and realistic graphic violence to represent the constant diminishment of the soldiers' sensitivity amid blood and pieces of bodies. The act of killing becomes automatic, in a way as a means of ensuring survival when encountering the enemy, but also of demonstrating personal power over the other, when most of the casualties occur among civilians in remote Vietnamese villages.
The film looks at all this violence with pain and sorrow. Little by little, it reveals itself as the product of an ecosystem that encourages brutality as the only means of survival, and of an alienation from vague objectives. Deep down, they knew little about what they were doing in the war beyond killing and hurting everyone who was not American. Upon returning, violence continues as something internalized, never resolved within oneself, and also as one symptom, among others, of post-traumatic stress.
“Why did Mr. Nelson kill people,” then, becomes the great question that permeates the narrative, placed at the center of the sessions with the therapist. Far beyond being a war film like so many others, Mr. Nelson, Did You Kill People? takes the viewer into the protagonist's mind, who finds in talking about the war and in his own memories one of the only ways of dealing with everything he had done. As it gets back on the tracks and moves linearly through the character's life, the film also takes the opportunity to discuss racial issues surrounding the participation of Black people in the conflict, their absence from positions of command, and the lack of assistance from the state itself in caring for its soldiers. In the end, what remains are the memories, pain, remorse, trauma, and a desire that it never happen again.
★★★★½



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