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TIFF 51 | The Face of Horror, de Anna Biller (Idem, 2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
há 1 dia
5 min de leitura

Anna Biller busca referências no cinema de horror britânico da década de sessenta, e The Face of Horror explora o monstro como uma vítima da sociedade patriarcal da Idade Média.



Quando The Face of Horror começou com uma música instrumental muito característica, seguida pelo letreiro com o título do filme, a primeira lembrança que me veio à mente foi o cinema produzido pela Hammer, lendária produtora britânica que, dentre outros clássicos, foi a responsável por dar a luz às clássicas adaptações de Drácula protagonizadas por Christopher Lee e Peter Cushing. Em projetos de baixo orçamento, deixaram uma marca no cinema de terror ao explorar com mais ousadia e violência personagens popularizados décadas antes pela Universal nos Estados Unidos, longe de controle e censura, com todo um estilo próprio, que ao longo dos anos se tornou exemplar de uma representação cinematográfica das décadas de 1960 e 1970 através da imagem: cores vibrantes, e certa teatralidade na decupagem e atuações.


Em poucas oportunidades cheguei a testemunhar um projeto que, de tão caprichada imersão, fez-me sentir assistindo a um filme de outros tempos, que não atuais. De certo, a caracterização bem elaborada por Anna Biller ultrapassa meramente a estética setentista da fotografia, rodada em película 35 milímetros. Preocupada com essa viagem no tempo formal que propõe, a cineasta não perde nenhum detalhe no decorrer de suas duas horas de duração. 


Situado em algum lugar da Europa, e em algum momento da Idade Média, as caracterizações genéricas de tempo e espaço são meros elementos, como tantos outros, que abstraem The Face of Horror do escopo realista. Os figurinos excessivamente limpos e coloridos, idealizados pela própria diretora, que também assina como roteirista e figurinista, nos remete a uma espécie de realidade paralela, como um conto de fadas macabro, permeado por ambição, conspirações e traições em planos orquestrados por homens em seus desejos macabros de ascender socialmente.


Ao mesmo tempo que Biller nos leva de volta ao século XX nesse cinema de monstros que hoje soa artificial e excessivamente teatral, cuja direção de arte e atuações, sobretudo de Jonah Hauer-King e Kristine Froseth, incorporam as referências e as trabalham com maestria, a diretora, por outro lado, explora esse universo construído à base de um olhar narrativamente contemporâneo. Em seu cinema, tal qual na esmagadora maioria da realidade, não existem nobres cavaleiros salvadores de donzela por pura gentileza. O que existe na humanidade é cobiça, egoísmo, e sobretudo na Idade Média, um olhar para mulheres como objetos de desejo e interesses sexuais. 


O monstro de The Face of Horror nada mais é do que o retrato de uma vítima dessa sociedade europeia patriarcal, que rebaixava mulheres à meras servas do casamento, para cuidar da casa e criar os filhos. Endossada a visão pelo poder central, nas mãos da Igreja, a cineasta caçoa a corrupção enraizada no coração da própria sociedade, e da falta de moral para uma instituição formada por homens que trocavam poder político e financeiro pela absolvição dos outros pelos crimes cometidos. 


Essa leitura feminista da Idade Média, sob a estética do cinema britânico sessentista se mostra uma boa descontrução de conceitos enraizados e tão profundamente estabelecidos com relação ao período histórico que retrata com intenções satíricas. Apenas poderia, por outro lado, ser um pouco mais curto, visto que cento e vinte minutos de duração, apesar de relativamente bem aproveitados, por vezes soam excessivos considerando a estética e referência escolhida. Mesmo assim, a experiência como um toda é bastante divertida, e como um fã do cinema de terror, raras foram as vezes que me senti assistindo a um filme de outros tempos, dado o capricho geral de uma produção pensada nos mínimos detalhes. 


Avaliação: ★★★½


The Face of Horror (Idem, 2026)

Direção: Anna Biller

Roteiro: Anna Biller

 

English review


Anna Biller draws on references from British horror cinema of the 1960s, and The Face of Horror explores the monster as a victim of medieval patriarchal society.


When The Face of Horror began with a very characteristic instrumental piece, followed by the title card, the first memory that came to mind was cinema produced by Hammer, the legendary British production company that, among other classics, was responsible for bringing to life the classic adaptations of Dracula starring Christopher Lee and Peter Cushing. In low-budget projects, they left their mark on horror cinema by exploring, with greater boldness and violence, characters popularized decades earlier by Universal in the United States, far from control and censorship, with an entire style of their own that, over the years, became exemplary of a cinematic representation of the 1960s and 1970s through imagery: vibrant colors, and a certain theatricality in the découpage and performances.


On few occasions have I had the opportunity to witness a project that, through such meticulous immersion, made me feel as though I were watching a film from another era, rather than a contemporary one. Certainly, the characterization so carefully crafted by Anna Biller goes beyond the mere seventies aesthetic of the cinematography, shot on 35mm film. Concerned with this formal journey through time that she proposes, the filmmaker does not miss a single detail throughout its two-hour running time.


Set somewhere in Europe, and at some point during the Middle Ages, the generic characterization of time and space are merely elements, among many others, that remove The Face of Horror from a realistic scope. The excessively clean and colorful costumes, designed by the director herself, who also serves as screenwriter and costume designer, bring us to a kind of parallel reality, like a macabre fairy tale, permeated by ambition, conspiracies, and betrayals in schemes orchestrated by men in pursuit of their macabre desires to rise socially.


While Biller takes us back to the twentieth century through this monster cinema that today feels artificial and excessively theatrical, whose production design and performances, especially those of Jonah Hauer-King and Kristine Froseth, incorporate the references and work with them masterfully, the director, on the other hand, explores this universe built upon a narratively contemporary perspective. In her cinema, as in the overwhelming majority of reality, there are no noble knights rescuing damsels out of pure kindness. What exists in humanity is greed, selfishness, and, particularly in the Middle Ages, a view of women as objects of desire and sexual interests.


The monster in The Face of Horror is nothing more than the portrait of a victim of this patriarchal European society, which reduced women to mere servants of marriage, to take care of the household and raise children. With this view endorsed by the central power, in the hands of the Church, the filmmaker mocks the corruption rooted in the heart of society itself, and the lack of morality within an institution made up of men who exchanged political and financial power for the absolution of others for the crimes they had committed.


This feminist reading of the Middle Ages, through the aesthetics of 1960s British cinema, proves to be a good deconstruction of concepts so deeply rooted and established in relation to the historical period it portrays with satirical intentions. It could, on the other hand, be a little shorter, since its 120-minute running time, although relatively well used, sometimes feels excessive considering the chosen aesthetic and references. Even so, the experience as a whole is quite fun, and as a fan of horror cinema, rarely have I felt as though I were watching a film from another era, given the overall care of a production conceived down to the smallest details.


★★★½

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