XXII FANTASPOA | Quince, de Jack Zagha e Yossy Zagha (Idem, 2026)
- Henrique Debski

- há 21 horas
- 5 min de leitura
Na intenção de trabalhar diversos temas, Quince sucumbe às próprias críticas, em narrativa que explora os corpos de suas protagonistas adolescentes, enquanto às submete à diversas violências sob o pretexto de uma comédia de horror.

Em uma aproximação com a cultura latina como um todo, no México as festas de quinze anos também são uma espécie de tradição entre as adolescentes. Tratada a data e o ano como um rito de passagem e amadurecimento, algo que advém das antigas festas de debutante, é um momento cobiçado da vida, não apenas pela festa em si, mas especialmente pelo que representa no crescimento da anfitriã.
Nesse contexto, a introdução de Quince sugere uma interessante comédia de terror social voltada ao contexto das festas de quinze anos, quando mostra duas amigas sonhando com o grande momento de suas adolescências, utilizando belos vestidos, entrando ao som de música e coreografias próprias, em um verdadeiro show assistido, das mesas, por suas colegas de escola, belos rapazes e familiares. No entanto, revela-se apenas uma fantasia daquilo que tanto gostariam, enquanto tentam economizar ao máximo para custear algum elemento desta tão sonhada ocasião.
Quando conhecemos Ligia e Mayte de perto - inclusive, muito bem vividas por Greta Marti e Macarena Oz, jovens atrizes talentosas que compõem o melhor aspecto do filme com suas interpretações -, percebemos uma discrepância nas vidas que levam em relação a suas colegas de sala. Como jovens de classe média baixa, lidam com cenários distintos quando comparados às demais garotas, em maioria de classe alta, viajando para o exterior, usando roupas de marca por debaixo do uniforme (como um sinal de status e pertencimento ao grupo), e organizando grandes festas de quinze anos, como tanto sonham.
Enquanto explora esse sonho e desejo de deixarem de ser excluídas perante as colegas, e terem a possibilidade de também organizar uma festa como as delas, Quince encontra um bom debate sobre a oposição entre as classes sociais, em um drama adolescente de contornos cômicos, em meio ao bullying e uma violência psicológica inerente ao cenário.
No entanto, os roteiristas Ricardo Álvarez Canales e Andrzej Rattinger decidiram seguir por outros caminhos, quando apenas este eixo temático não pareceu suficiente para sustentar uma comédia de horror em quase noventa minutos de duração. É quando inserirem outro tema à equação, da gravidez precoce, na forma do estupro de uma das garotas pelo próprio namorado, transformado em uma estranha criatura arisca após ser atacado por algo saído de um bueiro.
É de se causar um estranhamento a alternância entre ideias, sobretudo quando acabam sobrepostas em uma narrativa que nunca consegue se decidir e relacioná-las de maneira orgânica. Existe um enorme interesse do longa em debater a violência sexual, o que se faz mediante cenas de estupro e assédio, incorrendo, no entanto, em consequências que beiram o reacionário, quando propõe como solução o enfrentamento aos antagonistas mediante violência e vingança.
Mais do que isso, a direção de Jack e Yossy Zagha, mesmo com a abordagem temática, frequentemente explora os corpos de suas personagens, mirando a câmera no decote da camisa do uniforme escolar, ainda que para enfatizar uma alteração no comportamento social.
Acaba que todo o desenrolar do longa, em que pese a produção de qualidade, incluindo as passagens com violência gráfica em efeitos práticos, se mostra bastante dividido entre as temáticas e linhas narrativas escolhidas, tendo de se equilibrar entre as festas de quinze anos, o bullying, status social, e a gravidez precoce, sem contar todo o contexto de violência sexual. Soa como um roteiro ultrapassado - até com certas passagens homofóbicas na maneira como caçoam das amigas no ambiente escolar -, e igualmente uma direção que não compreende como trabalhar a narrativa sem apelar aos corpos das protagonistas, sucumbindo ao teor das problematizações que busca fazer, enquanto igualmente incapaz de elaborar uma mitologia própria às passagens sobrenaturais, recorrendo à maldições genéricas e soluções pouco críveis, inclusive na cena final. É como uma grande mistura incômoda entre Carrie, O Bebê de Rosemary, A Mosca, Meninas Malvadas e Chiquititas, sem conseguir decidir qual das obras seria mais interessante para inspirar o projeto.
Avaliação: 1.5/5
Quince (Idem, 2026)
Direção: Jack Zagha e Yossy Zagha
Roteiro: Ricardo Álvarez Canales e Andrzej Rattinger
Gênero: Terror, Comédia, Drama
Origem: México, Argentina
Duração: 97 minutos (1h37)
Exibido no XXII Fantaspoa
Sinopse: Duas melhores amigas, às vésperas de sua festa de quinze anos, enfrentam o desejo, a crueldade e as pressões sociais — até que o corpo de uma delas começa a se transformar em algo monstruoso.
English review
In its attempt to tackle multiple themes, Quince ultimately collapses under the weight of its own critique, in a narrative that explores the bodies of its teenage protagonists while subjecting them to various forms of violence under the guise of a horror comedy.
Drawing from broader Latin culture, quinceañera celebrations in Mexico represent a traditional rite of passage for teenage girls. Rooted in debutante customs, the event marks a symbolic transition into adulthood - a highly anticipated moment not only for the party itself, but for what it represents in the young woman’s coming of age.
Within this context, Quince opens with the promise of an engaging social horror comedy centered on these celebrations, as it depicts two friends dreaming of their ideal quinceañera - wearing beautiful dresses, entering to music and choreography in a spectacle admired by classmates, handsome boys, and family members. This, however, is revealed to be a fantasy of what they long for, as they struggle to save money to afford even a fraction of such a dream.
As we get to know Ligia and Mayte more closely - convincingly portrayed by Greta Marti and Macarena Oz, whose performances stand out as the film’s strongest element - the disparity between their lives and those of their classmates becomes clear. As lower-middle-class teenagers, they navigate a reality far removed from that of their mostly wealthy peers, who travel abroad, wear designer clothes beneath their school uniforms as markers of status and belonging, and host lavish quinceañera parties.
While exploring their desire to escape exclusion and achieve the same social recognition, Quince initially finds compelling ground in its depiction of class division, framed within a teen drama with comedic undertones, marked by bullying and an atmosphere of psychological violence.
However, screenwriters Ricardo Álvarez Canales and Andrzej Rattinger choose to veer in different directions, as this thematic axis alone seems insufficient to sustain a nearly ninety-minute horror comedy. The film introduces another element into the equation - teenage pregnancy - through the sexual assault of one of the girls by her boyfriend, who later transforms into a strange, aggressive creature after being attacked by something emerging from a sewer.
The shifting between ideas becomes jarring, especially as they overlap in a narrative that never fully commits to or organically connects them. There is a clear interest in addressing sexual violence, conveyed through scenes of assault and harassment, yet the film veers toward troubling implications, suggesting retaliation and revenge as its primary form of resolution.
Moreover, the direction by Jack and Yossy Zagha, despite its thematic intentions, frequently objectifies its characters, with the camera lingering on the neckline of school uniforms - even when attempting to signal changes in social behavior.
As a result, despite solid production values, including effective practical effects in its moments of graphic violence, the film feels deeply fragmented across its chosen themes and narrative threads. It struggles to balance quinceañera culture, bullying, social status, and teenage pregnancy, all within a broader context of sexual violence. The script often feels outdated - even incorporating moments that verge on homophobia in the way characters mock one another at school - while the direction fails to navigate its subject matter without resorting to the objectification it seeks to critique. At the same time, it proves unable to construct a compelling mythology for its supernatural elements, relying instead on generic curses and unconvincing resolutions, particularly in its final moments.
Ultimately, Quince plays like an uneasy blend of Carrie, Rosemary’s Baby, The Fly, Mean Girls, and Chiquititas - without ever deciding which of these influences it wants to follow.
Quince was screened at XXII Fantaspoa.



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