XXII FANTASPOA | Cielo, de Alberto Schiamma (Idem, 2026)
- Henrique Debski

- há 21 horas
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Entre o drama de amadurecimento e o “road movie”, em Cielo Alberto Schiamma encanta pela sensibilidade de uma jornada dolorosa, vivida por uma criança em meio ao deserto boliviano.

Estonteado o público pela beleza do cenário de um deserto boliviano, Alberto Schiamma já propõe uma provocação nos instantes iniciais, quando a protagonista, a garota Santa, de apenas oito anos de idade, engole, sozinha, e sem mastigar, um peixe vivo que retirou de um lago. Em uma breve exploração do interior de sua casa, um ambiente preenchido pela violência doméstica do pai, normalmente embriagado, em face da mãe, o choque continua a partir de uma sequência violenta. Em seguida, com uma missão decisiva, Santa segue atravessando o país para chegar ao litoral.
Trata-se, pelas mãos de um cineasta de carreira voltada essencialmente ao terror, de uma diversificação na filmografia, em prol de um drama de amadurecimento precoce que se utiliza da fantasia e de elementos fantásticos como força motriz da estruturação de seu universo, no qual uma criança precisa lidar com a perda dos pais e descobrir os próprios rumos em um mundo incerto.
Essa fantasia, desde cedo estabelecida, constrói-se como meio de transformar o inverossímil em uma regra ao universo da obra. Se é basicamente impossível engolir um peixe por si só, e mantê-lo vivo dentro de nossos corpos, igualmente o é uma criança conseguir dirigir um carro, por exemplo - não apenas pela complexidade inerente à condução habilidosa do próprio veículo, como mantê-lo na via, por exemplo, tal qual seria impossível que conseguisse pressionar os pedais. Entretanto, Schiamma se esquiva do uso de tais elementos como facilitadores narrativos em prol da transformaçao da protagonista Santa em uma personagem, em sua infinita ingenuidade infantil, muito mais madura que quaisquer outros adultos com os quais cruza o caminho.
Na medida em que avança, há de se ter em mente a proposta alegórica e metafórica do cineasta em um filme que considera pessoal, no qual se descola da realidade para através do absurdo versar sobre o mundo em que vivemos, entre dores, feridas e os encontros fortuitos. Ao olhar do longa, nenhum evento da vida se torna em vão quando algo se tem a aprender com o desafio a ser enfrentado.
No caso de Santa, em uma interpretação inesquecível de Fernanda Gutiérrez Aranda (sobre quem o diretor disse, em debate após a sessão, ter sido a atriz mais fácil com a qual já trabalhou), é muito doloroso assistir à sua dor e esperança, de uma criança em luto que acredita conseguir se reencontrar com a mãe no plano espiritual a partir de sua viagem. A jornada que caminha no decorrer do longa revela o contrário, uma desilusão, enquanto os elementos de fantasia, reflexos de sua mente ainda infantil, desaparecem na medida em que conhece a realidade e torna-se obrigada a enfrentar os fatos do mundo real.
Embora nem sempre a catarse proposta funcione de fato, forçando passagens emotivas em excesso, a relação da protagonista com os personagens ao seu entorno torna a viagem mais interessante mediante a pluralidade de ideias, visões e mundos que se colidem, enquanto apenas conhecia seu pequeno núcleo familiar, em que vivia isolada, em meio à violência, na pequena casa no meio do deserto.
Assim, com uma abordagem sensível sobre luto e união, sobretudo quando diante de pessoas vivendo por algo parecido, Cielo fala sobre o aprender a superar a vida, e em conjunto, suprime a fantasia quando o vazio interior passa a ser preenchido. É um filme de beleza particular, para além da fotografia e da direção de arte, capazes de filmar com afinco e emoção o deserto boliviano, mas especialmente pela jornada de superação na qual envolve o espectador. E o mais interessante é que a interpretação e debate sobre seus significados seguem abertos, quando o próprio cineasta se esquivou, por mais de uma vez no debate após a sessão, de explicar suas ideias para parte dos elementos fantásticos, em prol da liberdade e criatividade do espectador.
Avaliação: 3.5/5
Cielo (Idem, 2026)
Direção: Alberto Schiamma
Roteiro: Alberto Schiamma
Gênero: Drama, Aventura
Origem: Bolívia, Reino Unido
Duração: 106 minutos (1h46)
Exibido no XXII Fantaspoa
Sinopse: Santa, uma menina de oito anos que vive no solitário Altiplano boliviano, embarca em uma atribulada jornada para levar sua mãe até o paraíso. As duas fizeram um pacto: quando a mãe morresse, Santa seguiria as estrelas e conduziria seu corpo pelo deserto em direção ao céu, um lugar que elas acreditam ser tão real quanto qualquer outro. Ao longo do caminho, a menina encontra um grupo de lutadoras que a ajuda em sua trajetória, além de se deparar com um policial que a prende, mas começa a suspeitar que ela possui poderes mágicos. Logo ele se dá conta que, para alcançar sua própria salvação, vai precisar se unir a Santa em sua busca além do horizonte visível.
English review
Balancing between a coming-of-age drama and a road movie, in Cielo, Alberto Schiamma captivates with the sensitivity of a painful journey experienced by a child in the Bolivian desert.
Stunning the audience with the beauty of its desert setting, Schiamma immediately provokes in the opening moments, when the protagonist, eight-year-old Santa, swallows a live fish whole - alone, without chewing - after pulling it from a lake. A brief glimpse into her home reveals an environment marked by domestic violence, as her often-drunk father abuses her mother, and the shock continues with a brutal sequence. Soon after, given a decisive mission, Santa sets off across the country in search of the coast.
Coming from a filmmaker whose career has been largely rooted in horror, the film represents a shift in his filmography toward a precocious coming-of-age drama that uses fantasy and fantastical elements as the driving force behind the construction of its universe - one in which a child must cope with the loss of her parents and find her own path in an uncertain world.
This sense of fantasy, established early on, serves to transform the implausible into a rule within the film’s universe. If it is practically impossible to swallow a fish and keep it alive inside one’s body, it is equally unlikely that a child could drive a car - not only because of the complexity of handling a vehicle, but even something as simple as reaching and pressing the pedals. Yet Schiamma avoids using these elements as mere narrative conveniences, instead shaping Santa into a character who, despite her boundless childlike innocence, proves more mature than any of the adults she encounters along the way.
As the film progresses, it becomes essential to understand the filmmaker’s allegorical and metaphorical intent in what he considers a deeply personal work - one that departs from realism and uses the absurd to reflect on the world we live in, filled with pain, wounds, and chance encounters. From the film’s perspective, no life event is meaningless if there is something to be learned from the challenges it presents.
In Santa’s case, portrayed in an unforgettable performance by Fernanda Gutiérrez Aranda (whom the director described in a post-screening discussion as the easiest actor he has ever worked with), it is painful to witness both her suffering and her hope. She is a grieving child who believes she can reunite with her mother on a spiritual plane through her journey. As the film unfolds, however, the opposite becomes clear: disillusionment takes hold, while the fantastical elements - reflections of her still-childlike mind - gradually fade as she confronts reality and is forced to face the facts of the real world.
Although the intended catharsis does not always fully land, at times forcing emotional beats too heavily, Santa’s interactions with the people she meets along the way make the journey more compelling. Through this plurality of perspectives, ideas, and lived experiences, her world expands far beyond the isolated, violent household in which she once lived.
Thus, with a sensitive approach to grief and connection - especially when encountering others who are enduring something similar - Cielo ultimately speaks about learning to move forward in life. In doing so, it allows fantasy to recede as inner emptiness begins to be filled. It is a film of particular beauty, not only in its cinematography and production design, which capture the Bolivian desert with care and emotion, but especially in the journey of resilience it offers the viewer. Most interestingly, its meanings remain open to interpretation, as the filmmaker himself, during the post-screening discussion, deliberately avoided explaining many of the film’s fantastical elements - favoring instead the audience’s freedom and creativity.
Cielo was screened at XXII Fantaspoa.



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