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25º TRIBECA FILM FESTIVAL | Summer of Three, de Carlitos Ruiz Ruiz (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 1 dia
  • 7 min de leitura

Em jornada de cicatrização de traumas e amadurecimento, o emocionante Summer of Three evoca o espírito porto-riquenho com personagens sensíveis em triângulo amoroso.


 

A primeira cena de Summer of Three é um reflexo de uma memória passada envolvendo a morte, na figura de uma criança encontrando seu pai falecido na cama, em uma manhã ensolarada. A imagem turva, filmada em grande angular, de proporções destorcidas, em um aspecto fantasmagórico, exageradamente clara, representa uma ferida na vida do protagonista Javi, agora um adolescente, quase adulto, que retorna sozinho à Porto Rico após mais de uma década morando com a mãe em Los Angeles, para visitar a família e comparecer ao funeral do avô, que acabara de fazer sua passagem.

 

Sua chegada ao país demonstra a predominância das memórias tristes do passado, mescladas às histórias contadas pela mãe, enquanto desconfortável já no aeroporto, de rosto fechado, e semblante cansado. Tudo aquilo que evitara lembrar sobre o próprio passado, do encontro com o corpo do pai e o trauma da perda, se revivem no retorno daquele espaço, do qual “fugira” ainda criança, resultando em um vazio no próprio coração. Voltar à Porto Rico é lidar com o que passou, com as origens, e uma oportunidade de enterrar o luto de uma vez por todas.

 

A formação de amizades inesperadas, logo após o funeral do avô, de quem sente-se culpado por não estar triste – afinal, pouco haviam convivido – reacende uma chama de esperança na estadia de Javi no país. O calor escaldante de Porto Rico, ao qual o protagonista inicialmente se queixa, quando telefona para a mãe pedindo para voltar, se transforma em elemento essencial para a construção da tensão sexual desenvolvida no triângulo amoroso composto por ele e seus dois novos amigos, o complicado casal Luife e Kiki (ambos muito bem vividos por Paolo Jose Schoene e Kiki Montilla, respectivamente). Sugerido a não se apaixonar em Porto Rico, é notória uma competição velada por debaixo dos panos entre Javi e Luife pelo amor de Kiki, que se aprofunda na medida em que rapidamente se passam aquelas três semanas de verão, em dias de anarquia e liberdade, típicos da juventude.

 

Ainda que o roteiro escrito por Carlitos Ruiz-Ruiz, Marcel Ruiz e Mariana S. Belaval não desvie tanto dos caminhos mais comuns, na estrutura como articula seus acontecimentos, em seus oitenta e cinco minutos de duração, com o posicionamento de ideias e características aos personagens passíveis de certa antecipação em razão das próprias personalidades, que casam muito bem à proposta e seu desenvolvimento, o grande trunfo se encontra na maneira como há sensibilidade na construção de cada uma dessas pessoas. Não se trata de apenas mais um filme de triângulo amoroso com uma jornada de amadurecimento, mas o acompanhar momentâneo das vidas de pessoas reais, e sobretudo críveis, em um trisal involuntário que culmina em uma abordagem aos sentimentos mais humanos, do ciúme às dificuldades de se viver em três – não como uma crítica à não-monogamia, mas a complexidade de se desvincular da ideia, e delimitar um relacionamento aberto de mesmas regras para ambos.

 

A direção de Ruiz Ruiz transpõe o máximo que consegue desses sentimentos ao plano da imagem, sobretudo frente ao ótimo trabalho de Marcel Ruiz como protagonista, em uma mise-en-scène que explora simbologias próprias atreladas ao luto, liberdade, superação, e porque não também ao desgaste da relação que estabelece em tela, em seus momentos decisivos – como a cena do pulo na cachoeira, que compõe o clímax. Há muita profundidade em seus personagens, de forma que suas reações não se tornam infundadas, e o perdão faça sentido, já pela reta final, para chegar a resoluções que demonstram honestidade para com o que se estabelece em cena, e em especial para com o espectador, que se envolve junto com o protagonista naquele relacionamento conturbado, e supera o luto encontrando o amor em lugares e momentos improváveis.

 

A cultura porto-riquenha encontra-se abraçada em Summer of Three, drama coming-of-age sincero, que converte um clima inicialmente melancólico em uma experiência de amor e liberdade pelas ruas do país, sob o escaldante calor caribenho, tensão sexual sempre presente, trilha musical delirante, e uma ressignificação do espaço ao protagonista a partir da cicatrização de feridas, sozinho, e acompanhado de família e amigos, como um abraço às próprias origens. A comparação entre os planos inicial e final oferecem uma catarse que encerra o longa com a chave de ouro necessária, de coração quente e lágrimas escorrendo aos olhos – tão trágico quanto emocionante –, ao transpor em tela, com muita eficácia, todo o misto de sentimentos trabalhos, na primeira, e muito frutífera, colaboração entre pai e filho (Carlitos Ruiz-Ruiz e Marcel Ruiz) no cinema, o que torna o longa mais pessoal e especial.

 

Avaliação: 4.5/5

 

Summer of Three (Idem, 2026)

Direção: Carlitos Ruiz-Ruiz, Marcel Ruiz e Mariana S. Belaval

Roteiro: Carlitos Ruiz-Ruiz

Gênero: Drama, Romance

Origem: Porto Rico

Duração: 85 minutos (1h25)

Exibido no 25º Tribeca Film Festival (Competição Norte-Americana)

 

Sinopse: Ao retornar à sua terra natal, Porto Rico, após anos longe, Javi, de 17 anos, conhece Luife e Kiki, dois jovens deslocados socialmente que viram seu mundo de cabeça para baixo.

 

English review

 

In a journey of healing and coming of age, the moving Summer of Three evokes the Puerto Rican spirit through sensitive characters caught in a love triangle.


 

The opening scene of Summer of Three reflects a memory of death, embodied in the image of a child finding his father deceased in bed on a sunny morning. The blurry image, shot with a wide-angle lens, distorted proportions, a ghostly appearance, and excessive brightness, represents a wound in the life of the protagonist, Javi, now a teenager on the verge of adulthood, who returns alone to Puerto Rico after more than a decade living with his mother in Los Angeles to visit his family and attend the funeral of his grandfather, who has just passed away.

 

His arrival in the country demonstrates the predominance of painful memories from the past, mixed with the stories told by his mother, as he appears uncomfortable from the moment he arrives at the airport, with a closed expression and a weary face. Everything he had avoided remembering about his past - the discovery of his father's body and the trauma of that loss - resurfaces upon returning to the place he had "fled" as a child, resulting in an emptiness within his heart. Returning to Puerto Rico means confronting what happened, reconnecting with his roots, and finding an opportunity to finally bury his grief once and for all.

 

The formation of unexpected friendships shortly after his grandfather's funeral - a man for whose death he feels guilty for not grieving, since they barely knew one another - rekindles a spark of hope during Javi's stay in the country. The scorching Puerto Rican heat, which the protagonist initially complains about while calling his mother and asking to come home, becomes an essential element in building the sexual tension that develops within the love triangle formed by him and his two new friends, the complicated couple Luife and Kiki (both wonderfully portrayed by Paolo Jose Schoene and Kiki Montilla, respectively). Warned not to fall in love in Puerto Rico, there is a clear underlying competition between Javi and Luife for Kiki's affection, one that deepens as those three summer weeks pass by quickly in days of anarchy and freedom typical of youth.

 

Although the screenplay written by Carlitos Ruiz-Ruiz, Marcel Ruiz, and Mariana S. Belaval does not stray far from more familiar narrative paths in the way it structures its events throughout its eighty-five-minute runtime, with ideas and character traits positioned in ways that can sometimes be anticipated because of the characters' own personalities - which fit the film's premise and development very well - its greatest strength lies in the sensitivity with which each of these individuals is constructed. This is not merely another love-triangle film combined with a coming-of-age journey, but rather a temporary glimpse into the lives of real and, above all, believable people, trapped in an unintentional throuple that culminates in an exploration of the most human emotions, from jealousy to the difficulties of existing as three people in a relationship - not as a criticism of non-monogamy, but of the complexity involved in moving beyond conventional notions of love and defining an open relationship governed by the same rules for everyone involved.

 

Ruiz-Ruiz's direction translates as much of these emotions as possible into visual language, particularly through Marcel Ruiz's excellent performance as the protagonist, within a mise-en-scène that explores symbolic elements tied to grief, freedom, healing, and even the gradual deterioration of the relationship unfolding on screen during its decisive moments - such as the waterfall jump sequence that serves as the film's climax. There is considerable depth to these characters, ensuring that their reactions never feel unfounded and that forgiveness ultimately makes sense as the story approaches its conclusion. The resolutions feel honest to everything established on screen and, especially, to the audience, which becomes emotionally involved alongside the protagonist in that turbulent relationship and overcomes grief by finding love in unexpected places and moments.

 

Puerto Rican culture is embraced throughout Summer of Three, a sincere coming-of-age drama that transforms an initially melancholic atmosphere into an experience of love and freedom through the streets of the island, beneath the scorching Caribbean heat, ever-present sexual tension, a vibrant soundtrack, and a redefinition of space for the protagonist through the healing of old wounds, both alone and alongside family and friends, as an embrace of his own roots. The comparison between the opening and closing shots provides a catharsis that brings the film to a perfect conclusion, leaving viewers with warm hearts and tears in their eyes - as tragic as it is moving - by effectively translating to the screen the full range of emotions explored throughout the story. As the first and highly fruitful cinematic collaboration between father and son, Carlitos Ruiz-Ruiz and Marcel Ruiz, the film becomes all the more personal and special.

 

Summer of Three was screened at 25th Tribeca Film Festival (U.S Competition).

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