XXII FANTASPOA | Deathgasm 2: Goremageddon, de Jason Lei Howden (Idem, 2026)
- Henrique Debski

- 27 de abr.
- 6 min de leitura
Dez anos após o primeiro longa, Jason Lei Howden acumula experiência no cinema de gênero, retornando ao universo em sequência mais autoconsciente, menos problemática, e mais profunda na construção dos conflitos.

Conhecido pelo trabalho com efeitos digitais no cinema hollywoodiano, tendo colaborado em grandes produções, inclusive as trilogias Senhor dos Anéis e O Hobbit, o cineasta neozelandês Jason Lei Howden fez sua estreia como diretor com a comédia de terror Deathgasm, na qual une os universos do heavy-metal com demônios, zumbis e cultos satânicos em uma abordagem que o aproxima de realizadores como Rob Zombie e Joe Begos, cada qual a sua própria forma. Ainda que não fosse muito além do que outros tantos filmes já não tivessem feito anteriormente, é evidente a paixão que Howden nutre pelo universo que constrói, pelas bandas que referencia, pelas músicas que compõem a trilha – originais - e a própria narrativa, sobretudo pelo humor "sujo” que assume, repleto de piadas de conotação sexual, palavrões, e uma violência de caráter trash.
Nos últimos dez anos, Howden acumulou mais experiência enquanto artista de efeitos visuais, e chegou até mesmo a dirigir outro projeto - a comédia de ação e ficção-científica, igualmente violenta, Guns Akimbo, em 2019. Agora, seu Deathgasm 2: Goremageddon chega em outro momento de sua carreira - com mais orçamento, evidentemente, mas sobretudo consciência do fazer cinema.
Rejeitando uma ideia de conexão com o mundo dos mortos a partir de um rádio, sugerida em uma cena pós-créditos ao término do primeiro longa, esta sequência traz Brodie no fundo do poço - sem emprego, bêbado e chapado, vivendo de benefícios do governo prestes a serem cortados, e, sobretudo, sem o "grande amor de sua vida”, Medina, que agora toca em uma banda de grande sucesso. Acompanhado apenas de um dos amigos que sobreviveu à batalha contra o grande demônio, o protagonista decide disputar uma competição de bandas para reconquistar sua paixão, e usa do Hino Negro para reunir a turma novamente, agora na forma de zumbis.
Como um filme que se permite ir além na loucura, de universo já anteriormente estabelecido, Deathgasm 2 esquiva-se da ideia de uma nova jornada de amadurecimento, a partir do momento em que esclarece ser o protagonista uma espécie de "caso perdido”. É justamente o elemento sobre o qual se constrói uma barreira entre ele e Medina, reforçado desde a primeira cena, na qual se explora seu momento de vida estagnado. Justamente em razão desse aspecto de sua personalidade, os antagonistas da vez crescem sobre o personagem, enquanto uma pessoa sem perspectiva de sucesso, pela falta de vontade, comprometimento e maturidade que demonstra.
A reunião do grupo, na forma de zumbis a partir de magia necromântica, revela uma série de questões que circundam o protagonista. Em um primeiro momento, pode ser visto como uma decisão egoísta, e até vingativa a uma realidade contrária a si, dadas as consequências previsíveis que tal fato ensejaria - zumbis a solta pela cidade e um verdadeiro apocalipse. No entanto, pode ser visto também como uma decisão desesperada pelo retorno de pessoas queridas, injustiçadas, tal como a cura para um estado de depressão constante, surgindo mais como algo inconsequente do que egoístico.
A direção também encontra espaço para trabalhar as sequências de ação regadas à violência trash, herança do longa anterior, agora ainda mais caprichadas e exageradas com o maior orçamento, e a própria experiência do cineasta. A montagem frenética, repleta de cortes, especialmente para criar situações de humor, contribui para a atmosfera caótica, e reforça um sentimento de desprezo dos personagens pelo mundo, que não os compreende.
O ápice chega na batalha final, na qual a música, mais do que nos momentos anteriores, torna-se fundamental para a resolução do conflito estabelecido, e da derrota dos três antagonistas - cada qual direcionado especificamente um dos heróis.
Assim, Deathgasm 2 se mostra um filme de maior maturidade enquanto cinema de gênero, desde o trabalho gráfico, humor ácido - e menos preconceituoso, ainda que se mantenha no nível - e, sobretudo, encontra diferenciais na narrativa, em como constrói a vida dos protagonistas, e suas relações com os vilões, ao passo que a música, apesar de que em menor quantidade, posiciona-se no centro dos conflitos, e torna-se a grande arma da batalha final. Segue divertidíssimo, e já ansioso para um terceiro, talvez daqui a uma década.
Avaliação: 4/5
Deathgasm 2: Goremageddon (Idem, 2026)
Direção: Jason Lei Howden
Roteiro: Jason Lei Howden
Gênero: Terror, Comédia
Origem: Nova Zelândia
Duração: 102 minutos (1h42)
Exibido no XXII Fantaspoa
Sinopse: Alguns anos após sobreviver ao último apocalipse demoníaco, Brodie está decadente, sem dinheiro e preso ao purgatório de uma cidade pequena. Quando descobre que uma batalha de bandas irá acontecer ali, ele enxerga uma chance de redenção - e talvez até de reconquistar sua amada. Só há um problema: seu baterista perdeu um braço e o resto da banda está… bem, morto. Felizmente, Brodie ainda tem as páginas do Hino Negro - e ressuscitar seus companheiros do além é questão de um riff.
English review
Ten years after the first film, Jason Lei Howden has gained experience in genre cinema, returning to this universe with a sequel that is more self-aware, less problematic, and deeper in its construction of conflict.
Known for his work with digital effects in Hollywood, having collaborated on major productions, including The Lord of the Rings and The Hobbit trilogies, New Zealand filmmaker Jason Lei Howden made his directorial debut with the horror-comedy Deathgasm, blending heavy metal with demons, zombies, and satanic cults in an approach reminiscent of filmmakers like Rob Zombie and Joe Begos, each in their own way. While it didn’t go much further than what many films had already done before, it was clear that Howden had a genuine passion for the universe he built - from the bands he referenced to the music in the soundtrack (including original tracks), and especially the narrative itself, driven by its “dirty” humor, full of sexual jokes, profanity, and deliberately trashy violence.
Over the past decade, Howden has continued to develop his experience as a visual effects artist, even directing another project - the equally violent action sci-fi comedy Guns Akimbo in 2019. Now, Deathgasm 2: Goremageddon arrives at a different moment in his career - with a larger budget, certainly, but above all, with a stronger awareness of the craft of filmmaking.
Rejecting the idea of connecting with the world of the dead through a radio - suggested in a post-credits scene at the end of the first film - this sequel finds Brodie at rock bottom: unemployed, drunk, and high, living off government benefits that are about to be cut, and, above all, without the “love of his life,” Medina, who is now the lead singer of a highly successful band. Accompanied only by one of the friends who survived the battle against the great demon, the protagonist decides to enter a band competition in an attempt to win her back, using the Black Hymn to reunite the group - now in the form of zombies.
As a film that allows itself to push further into madness within an already established universe, Deathgasm 2 avoids the idea of a new coming-of-age journey by making it clear that its protagonist is something of a “lost cause.” This becomes the very element that creates a barrier between him and Medina, reinforced from the opening scene, which highlights his stagnant life. Precisely because of this aspect of his personality, the new antagonists gain strength over him, as someone lacking prospects due to his own absence of will, commitment, and maturity.
The reunion of the group as zombies through necromantic magic brings to light a series of issues surrounding the protagonist. At first, it may seem like an egoistic, even vengeful decision in response to a reality that works against him - especially considering the predictable consequences, such as zombies roaming the city and a full-blown apocalypse. However, it can also be interpreted as a desperate attempt to bring back loved ones who were wronged, almost like a misguided cure for a constant state of depression, driven more by impulsiveness than selfishness.
The direction also finds room to further develop the action sequences infused with the same trashy violence inherited from the previous film, now even more polished and exaggerated thanks to the increased budget and the filmmaker’s growing experience. The frenetic editing, packed with rapid cuts - particularly to enhance comedic timing - contributes to the chaotic atmosphere and reinforces the characters’ sense of alienation from a world that fails to understand them.
The climax arrives in the final battle, where music, more than ever before, becomes essential to resolving the central conflict and defeating the three antagonists - each one specifically tied to one of the heroes.
In this way, Deathgasm 2 proves to be a more mature entry within genre cinema, from its visual design to its acidic humor - now less prejudiced, even if still intentionally crude - and, above all, in the way it builds its narrative, the lives of its protagonists, and their relationships with the villains. Music, even if used more sparingly, takes center stage in the conflicts and ultimately becomes the key weapon in the final showdown. It remains immensely fun - and already leaves me eager for a third installment, perhaps another decade from now.
Deathgasm 2: Goremageddon was screened at XXII Fantaspoa.



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