30º FANTASIA FILM FESTIVAL | Privadas de Suas Vidas, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner (Idem, 2026)
- Henrique Debski

- há 49 minutos
- 8 min de leitura
Embalado por ideias absurdas, Privadas de Suas Vidas coloca a maternidade ao centro, enquanto ressignifica referências do cinema de horror do século XX e desafia convenções sociais para falar sobre o presente.

Desde o ano passado, sinto-me perseguido por privadas nos festivais de cinema fantástico. Mas não digo isso de maneira negativa, muito pelo contrário – e posso explicar. Durante a cobertura do XXI Fantaspoa, deparei-me com a divertida comédia de terror canadense Scared Shitless (inclusive vencedora de prêmio do júri no festival, e terceiro lugar no prêmio de público do 28º Fantasia, em sua première mundial), no qual um pai e filho, ambos encanadores, precisam separar as próprias diferenças para lidar com um grande monstro que se manifesta no encanamento de um condomínio, atacando seus moradores através das privadas. Alguns meses depois, na cobertura do 29º Fantasia, assisti a Flush, criativo thriller francês no qual um sujeito encontra-se com a cabeça presa dentro do vaso sanitário, no banheiro de uma boate – naquele caso, tratava-se apenas um buraco no chão.
Agora, nesta cobertura do 30º Fantasia, o terror brasileiro Privadas de Suas Vidas aparece para manter a tradição. E dentro de um cinema que avança, a cada ano, em quantidade e qualidade de suas produções dentro do gênero, devemos agradecer aos cineastas Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner pela ideia de privadas assassinas, e mais ainda para Rodrigo Teixeira, Berta Marchiori e Tereza Alvarez por entrarem de cabeça na produção de uma obra que desafia o bom-senso e outras tantas convenções do horror.
Através de um condomínio localizado no centro de São Paulo, os cineastas exploram, por meio dos moradores de cada apartamento, um retrato da sociedade brasileira em pleno século XXI – mais especificamente, dos anos 2020s: redes sociais, influencers, bets, vida de aparências, terceirização, pautas sociais que apenas importam na frente de uma câmera ligada, ideologia de gênero e debates correlatos são levantados ao longo da narrativa, e distribuídos entre seus diversos personagens. No entanto, ao centro de tudo, a maternidade é o grande elo comum.
O prólogo, que antecede os créditos iniciais, situa um trauma passado que abala a relação da protagonista com sua filha: ocupada e preocupada no trabalho de organizadora de festas e eventos, sem contar com a ajuda do pai de seus filhos gêmeos, perde uma das crianças em um trágico – e bizarro – acidente envolvendo a quebra de um vaso sanitário e o aspecto cortante da cerâmica. Não contentes em apenas estabelecer o desespero da cena, de maneira até cômica, por si só bastante chocante, os cineastas vão além ao direcionar a câmera, ainda que de relance, ao local do acidente após sua ocorrência, com intento de reforçar ainda mais a dor da perda sentida pela protagonista Malu (excelente na pele de Martha Nowill) no decorrer da projeção.
Cerca de uma década depois, o filme nos coloca em um cenário de dificuldades, na qual a vida da personagem ainda parece excessivamente presa aos traumas do passado, e à memória do filho falecido. O não uso de vasos sanitários é um destaque quando a personagem busca por métodos alternativos para aliviar as necessidades, e carrega consigo um pingente com o dente de leite da criança, que representa sua memória. Por outro lado, a relação com a filha, Genesis (em ótima intepretação de Benjamín), que agora se identifica como pessoa não-binária, mostra-se sempre abalada pelas cicatrizes nunca curadas, a falta de diálogo e uma incompreensão da ideologia a qual se filia. O diálogo nunca se mostra presente naquele espaço, o que inflama ainda mais a relação conflituosa, na qual não falta amor, mas oitiva de uma parte com a outra.
No decorrer da narrativa, Privadas de Suas Vidas trabalha seus elementos fantásticos sem recorrer à explicações. Sua proposta volta-se muito mais a uma abordagem dos condôminos onde desenrola sua trama, e da relação entre mãe e filha, do que propriamente de resolução do mistério, que se ancora nas questões psicológicas que envolvem seus personagens. Em uma estrutura de “slow-burn”, concentra toda a ansiedade da protagonista no intestino, e usa de seu corpo para manifestar tudo aquilo que não consegue resolver por conta própria. Trata-se de uma reação com anos de sentimentos reprimidos, dores e ansiedades, deixando que o passado a afete no presente, sendo impossível mudar o que já aconteceu.
Quando busca por justificativas ao mistério envolvendo o problema com os vasos sanitários, se aproveita muito bem do zelador vivido com paixão e uma certa dose de ingenuidade pelo sempre ótimo Otávio Muller, responsável por alavancar a ameaça e aumentar o nível de tensão a partir das constatações que faz, nos momentos próximos da reta final.
A fotografia de Daniel Venosa, que emula película, através da aplicação de um filtro riscado, auxilia os diretores a colocar em tela suas inspirações no cinema de horror dos anos 70/80. De personagens excêntricos – como a vidente norte-americana vivida por Olívia Torres, a síndica de Maria Gladys, e a idosa solitária vivida por Regina Braga –, o banheiro de cada um, ambiente dos apartamentos bastante explorado, acena para elementos de diferentes movimentos do horror cinematográfico, como o giallo italiano com suas cores fortes; a violência exagerada dos objetos assassinos do cinema de horror B norte-americano dos anos 70/80, até a trilha sonora que presta homenagens com composições em estilo que aproximam o longa a O Exorcista de Friedkin.
De coração puramente brasileiro, Privadas de Suas Vidas reúne referências do cinema de horror estrangeiro do século passado para retrabalhá-las às margens do contemporâneo. Embalado em uma metáfora sobre luto e maternidade, se diverte no próprio conceito de privadas assassinas ao mesmo tempo que satiriza comportamentos do presente, e pune determinados grupos e tipos de pessoas na forma de seus personagens alegóricos. Além do mais, admiro a coragem de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, bem como demais realizadores, em tirar do papel um projeto que rejeita convenções implícitas do cinema de gênero, com passagens de absurdos escatológicos e uma cena gráfica envolvendo a morte de uma criança, algo articulado com delicadeza a fim de estabelecer um trauma. Por mais filmes assim em nosso rico cinema de terror.
Avaliação: ★★★★
Privadas de Suas Vidas (Idem, 2026)
Direção: Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner
Roteiro: Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner
Gênero: Terror, Thriller, Comédia
Origem: Brasil
Duração: 111 minutos (1h51)
Exibido no 30º Fantasia Film Festival
Sinopse: Após perder um dos filhos gêmeos em um acidente trágico, Malu vive em conflito com o filho adolescente sobrevivente, Gênesis, uma pessoa não binária que exige ser reconhecida por sua identidade. Pressionada financeiramente, ela aceita organizar a festa de revelação de gênero da vizinha Suelen, o que aprofunda tensões familiares e reabre traumas do passado. Quando uma maldição transforma os banheiros do prédio em instrumentos de violência, mãe e filho precisam se unir para impedir que a celebração termine em tragédia.
English review
Driven by delightfully absurd ideas, Privadas de Suas Vidas places motherhood at its core while reinterpreting references from 20th-century horror cinema and challenging social conventions to reflect on the present.

Since last year, I have felt as though toilets have been haunting me across genre film festivals. But I don't mean that in a negative way - quite the opposite - and I can explain why. During my coverage of the 21st Fantaspoa, I came across the entertaining Canadian horror-comedy Scared Shitless (which, incidentally, won the Jury Prize at the festival and placed third in the Audience Award at the 28th Fantasia following its world premiere), in which a father and son, both plumbers, must put aside their differences to confront a monstrous creature lurking within the plumbing of an apartment building, attacking residents through their toilets. A few months later, while covering the 29th Fantasia, I watched Flush, a clever French thriller in which a man finds himself with his head stuck inside a toilet bowl in the restroom of a nightclub - though in that case, it was merely a hole in the floor.
Now, during my coverage of the 30th Fantasia, the Brazilian horror film Privadas de Suas Vidas arrives to keep the tradition alive. And within a national cinema that continues to grow every year, both in quantity and in the quality of its genre productions, we should be grateful to filmmakers Gustavo Vinagre and Gurcius Gewdner for coming up with the idea of killer toilets, and even more so to Rodrigo Teixeira, Berta Marchiori, and Tereza Alvarez for fully embracing the production of a film that defies common sense and countless other conventions of horror cinema.
Set within an apartment building in downtown São Paulo, the filmmakers use the lives of each resident to construct a portrait of Brazilian society in the 21st century - more specifically, the 2020s. Social media, influencers, online betting, curated lifestyles, outsourcing, social causes that matter only when a camera is rolling, gender ideology, and related debates all emerge throughout the narrative, distributed among its various characters. At the center of it all, however, motherhood serves as the film's unifying thread.
The prologue, which precedes the opening credits, introduces a traumatic event that permanently damages the relationship between the protagonist and her daughter. Overwhelmed by her work as an event planner and lacking support from the father of her twin children, she loses one of them in a tragic - and bizarre - accident involving a shattered toilet and the razor-sharp edges of its broken porcelain. Not content with simply portraying the horror of the moment, which is already shocking despite its darkly comic nature, the filmmakers go even further by briefly directing the camera toward the site of the accident afterward, reinforcing the profound grief that Malu (wonderfully portrayed by Martha Nowill) carries throughout the film.
Roughly a decade later, the story presents a woman whose life remains deeply imprisoned by the traumas of the past and by the memory of her deceased son. Her refusal to use toilets becomes one of the film's defining details, as she searches for alternative ways to relieve herself, while wearing a pendant containing the child's baby tooth as a tangible reminder of his memory. Meanwhile, her relationship with her daughter, Genesis (excellent in a remarkable performance by Benjamín), who now identifies as non-binary, remains deeply scarred by unresolved wounds, a complete lack of communication, and Malu's inability to understand the gender identity with which Genesis identifies. Dialogue never truly exists within that household, further intensifying a relationship in which love is undoubtedly present, yet genuine listening between mother and child is painfully absent.
Throughout its narrative, Privadas de Suas Vidas embraces its fantastical elements without ever feeling compelled to explain them. Its interests lie far more in portraying the lives of the apartment building's residents and the relationship between mother and child than in solving the central mystery itself, which remains firmly rooted in the psychological struggles affecting its characters. Built as a slow burn, the film concentrates all of the protagonist's anxiety within her intestines, using her own body to externalize everything she cannot resolve emotionally. It becomes a physical reaction born from years of repressed emotions, grief, and anxiety, allowing the past to continue shaping the present in ways that can no longer be undone.
Whenever it seeks explanations for the mysterious events involving the building's toilets, the film makes excellent use of the caretaker, played with passion and a charming sense of innocence by the ever-reliable Otávio Muller, whose discoveries significantly escalate both the threat and the level of tension as the story approaches its final stretch.
Daniel Venosa's cinematography, which emulates the look of celluloid through the use of a scratched-film texture, helps the directors bring their inspirations from 1970s and 1980s horror cinema vividly to the screen. From eccentric characters - such as the American psychic played by Olívia Torres, Maria Gladys' building manager, and the lonely elderly woman portrayed by Regina Braga - to the bathrooms inside each apartment, which become some of the film's most frequently explored spaces, the production nods toward numerous traditions within horror cinema, from the vibrant colors of Italian giallo to the exaggerated violence of killer-object B-movies from 1970s and 1980s American horror, all the way to a musical score whose compositions evoke the style of Friedkin's The Exorcist.
Brazilian to its very core, Privadas de Suas Vidas gathers references from 20th-century international horror cinema only to reshape them through an unmistakably contemporary lens. Built around a metaphor for grief and motherhood, it delights in its own outrageous premise of killer toilets while simultaneously satirizing present-day behaviors and punishing specific groups and personality types through its allegorical characters. Above all, I admire the courage of Gustavo Vinagre, Gurcius Gewdner, and everyone else involved in bringing to life a project that rejects many of the unwritten conventions of genre filmmaking, embracing grotesque absurdity and even a graphic scene involving the death of a child - handled with remarkable sensitivity in order to establish lasting trauma. May Brazilian horror continue to produce films like this.
★★★★
Privadas de Suas Vidas (Bowels of Hell) was screened at 30th Fantasia Film Festival.



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