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XXII FANTASPOA | Os Infiéis, de Tomás Fleck (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 4 dias
  • 6 min de leitura

Em Os Infiéis, Tomás Fleck coloca um padre entre a batina e o amor, em comédia romântica leve, que explora tradições eclesiásticas enquanto o confessionário torna-se centro de reviravoltas.


 

Em tempos de ‘redescoberta’ das comédias românticas nos cinemas, um projeto como Os Infiéis resgata uma estética há cerca de uma década escanteada, por muito tempo aproveitada apenas em filmes para streaming ou televisão, e que agora tem sido objeto de novo interesse, especialmente ao cinema norte-americano. Talvez seja um indício de que possa haver também um retorno do abraço a este subgênero do humor também pelo cinema brasileiro.

 

Inspirado em Confessionário Online, curta-metragem pensado e produzido durante a pandemia por Tomás Fleck e protagonizado por Rafael Pimenta, a ideia de Os Infiéis surgiu justamente do (re)aproveitamento desse ambiente do confessionário para a construção de um conflito. Conforme revelado em conversa após a sessão pelo diretor, acompanhado da produtora Elisa Brites, os tratamentos dados ao roteiro se adequaram às possibilidades espaciais que detinham, enquanto buscavam por locações que coubessem no limitado orçamento que dispunham para a rodagem do filme. Em um golpe de sorte, obtiveram a possibilidade de filmar no interior de São Paulo, em um grande mosteiro, com mais de dezenas de quartos, e uma igreja ao centro, algo muito maior do que imaginavam, com direito a uma criação de galinhas e até uma cabra.

 

O ambiente, então, torna-se um personagem pela maneira como a direção de Tomás Fleck se preocupa em situar o público pelos espaços nos quais transitam os personagens, majoritariamente vazios, em virtude da crise eclesiástica de novos fiéis, e maior ainda de pessoas interessadas em integrarem a instituição. Da igreja central à simplicidade das acomodações dos padres, a chegada da personagem de Luciana Paes desconstrói toda uma atmosfera pautada nos valores cristãos a partir da relação anterior estabelecida entre ela e o protagonista, vivido por Rafael Pimenta, padre há uma década, após uma desilusão amorosa na juventude, justamente com ela.

 

Cria-se um interessante contexto no entorno referente à crise de fé, não apenas ao personagem principal, tentado em retomar um amor de juventude, como a própria instituição católica, vez que a igreja enfrenta dificuldades financeiras pela ausência de frequentadores. A junção dessas duas situações é justamente a força motriz para alavancar os acontecimentos do filme, porquanto suscitam dúvidas relacionadas às crenças pessoais e escolhas feitas no decorrer da vida.

 

Por outro lado, ao mesmo tempo que aproveita bem o espaço geográfico na decupagem, em sua imensidão física, o roteiro, assinado por Fleck e Lucas Abrahão, nem sempre parece adaptado de fato a ele. Em situações-chave ao desenrolar da trama, a quebra da verossimilhança, ainda que em universo nem tão realista, provoca um certo incômodo pela maneira como força alguns acontecimentos - por exemplo, uma pessoa é escondida, dentre dezenas de quartos, justamente naquele em que está guardado o dinheiro a ser entregue ao bispo. A consequência da cena pode até soar cômica, pois de fato o é, mas torna-se difícil ignorar a conveniência excessiva, que se repete outras tantas vezes, entre momentos de seriedade e de humor.

 

Em momentos da conversa pós-filme, o próprio diretor reforçou a ideia de que gostaria de trabalhar com humor, mas sempre acompanhado de um forte aspecto dramático nas relações estabelecidas, sobreposto às piadas, o que nem sempre é possível de se visualizar em cena. A comédia por diversas vezes assume as rédeas da condução narrativa, e mostra-se algo mais valorizado pelo filme do que propriamente a carga dramática que circunda o desenvolvimento dos conflitos entre os personagens.

 

Entre trocadilhos, piadas de duplo sentido e uma comédia romântica água com açúcar, Os Infiéis aborda a fé sem formular juízos de valor em relação à religião, ou mesmo críticas, mas tentando compreender os sentimentos dos personagens, entre feridas do passado e um apoio mútuo no presente. No fim, o confessionário, que deu início a todo o projeto, encontra importância central, e em alguns dos momentos mais inspirados do longa, através da montagem em duas ou até três frentes, articuladas com inventividade a partir da contraposição de ideias e pontos de vista, brinca com reviravoltas. Pode até não ser um filme tão memorável, mas é inegavelmente divertido enquanto comédia romântica, inclusive com muito carisma por parte do elenco.

 

Avaliação: 3/5

 

Os Infiéis (Idem, 2026)

Direção: Tomás Fleck

Roteiro: Tomás Fleck e Lucas Abrahão

Gênero: Comédia, Romance

Origem: Brasil

Duração: 86 minutos (1h26)

Exibido no XXII Fantaspoa

Sinopse: Fé, amor e ironia colidem quando o dever sagrado de um padre é casar com outra pessoa a única mulher que ele amou.

 

English review

 

In Os Infiéis, Tomás Fleck places a priest between the cassock and love in a light romantic comedy that explores ecclesiastical traditions, with the confessional becoming the center of its twists.

 

In a time of “rediscovery” of romantic comedies in theaters, a project like Os Infiéis revives an aesthetic that had been sidelined for about a decade - long confined mostly to streaming or television productions - and which has now regained interest, especially in American cinema. Perhaps it also signals a potential return of this subgenre within Brazilian cinema.

 

Inspired by Confessionário Online, a short film conceived and produced during the pandemic by Tomás Fleck and starring Rafael Pimenta, the idea for Os Infiéis emerged precisely from the reuse of the confessional setting as the foundation for its central conflict. As revealed by the director in a post-screening discussion, alongside producer Elisa Brites, the script underwent adjustments based on the spatial possibilities available to them, as they searched for locations that would fit their limited budget. In a stroke of luck, they secured the opportunity to shoot in the countryside of São Paulo, inside a large monastery with dozens of rooms and a central church - far more expansive than they had initially envisioned, even including a chicken coop and a goat.

 

The setting thus becomes a character in itself, as Fleck’s direction carefully situates the audience within the spaces the characters inhabit - mostly empty, reflecting the ecclesiastical crisis of dwindling congregations and even fewer people interested in joining the institution. From the central church to the simplicity of the priests’ quarters, the arrival of Luciana Paes’s character disrupts an atmosphere grounded in Christian values, due to her past relationship with the protagonist, played by Rafael Pimenta - a priest for a decade, following a youthful heartbreak, precisely involving her.

 

An interesting context emerges around a crisis of faith - not only for the main character, tempted to rekindle a past love, but also for the Catholic institution itself, as the church faces financial struggles due to the lack of attendees. The convergence of these two situations becomes the driving force of the narrative, raising questions about personal beliefs and the choices one makes throughout life.

 

On the other hand, while the film makes good use of its geographical space in terms of staging and visual composition, the screenplay - written by Fleck and Lucas Abrahão - does not always seem fully adapted to it. In key moments of the plot, breaks in plausibility, even within a not entirely realistic universe, create a certain discomfort due to the way events are forced. For instance, someone is hidden among dozens of rooms precisely in the one where the money to be delivered to the bishop is stored. While the outcome may be comical - and it indeed is - it is hard to ignore the excessive convenience, which recurs multiple times across both serious and humorous moments.

 

During the post-screening discussion, the director himself emphasized his intention to balance humor with a strong dramatic core in the relationships portrayed, something that does not always come through clearly on screen. Comedy often takes the lead in guiding the narrative, appearing to be more valued by the film than the dramatic weight surrounding the characters’ conflicts.

 

Through wordplay, double entendres, and a sweet, conventional romantic comedy tone, Os Infiéis approaches faith without passing judgment on religion or offering overt criticism. Instead, it seeks to understand its characters’ emotions, shaped by past wounds and mutual support in the present. In the end, the confessional - the very element that originated the project - assumes a central role, featuring some of the film’s most inspired moments. Through inventive editing that operates across two or even three simultaneous threads, it plays with twists by juxtaposing different ideas and perspectives. It may not be a particularly memorable film, but it is undeniably enjoyable as a romantic comedy, bolstered by the charm of its cast.

 

Os Infiéis was screened at XXII Fantaspoa.

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