XXII FANTASPOA | Appofeniacs, de Chris Marrs Piliero (Idem, 2026)
- Henrique Debski

- há 4 dias
- 6 min de leitura
Entre IA e “deepfakes”, na comédia de erros Appofeniacs a realidade se torna confusa, e Chris Marrs Piliero acende o alerta para o uso indiscriminado da tecnologia como arma de destruição social.

A palavra “apofenia” não é das mais utilizadas em nosso vocabulário cotidiano, ainda que seu significado faça parte do dia a dia, como uma característica natural do ser humano. Trata-se da tendência em perceber padrões, conexões ou significados contidos em informações aparentemente aleatórias, sem qualquer relação entre si. Estaria ligada, então, à formação de teorias conspiratórias, superstições, falsas conclusões ou puramente uma percepção da realidade que não necessariamente é real – como procurar formas nas nuvens – mesmo que possa refletir, de alguma forma, o real.
Curiosamente, o próprio roteirista e diretor de Appofeniacs, Chris Marrs Piliero, sabia da complexidade do título de seu filme, ao ponto de inserir uma definição como a mencionada acima em um texto, logo nos minutos iniciais. O título, no decorrer do longa, torna-se ótimo objeto de ironia, quando, na prática, por detrás dos eventos, articulados pelo roteiro na forma de uma comédia de erros, prova, de fato, a existência de um padrão de conexões sendo seguido.
Tudo se torna mais divertido quando o diretor decide por não revelar todo o seu jogo de princípio, construindo sua narrativa a partir de dois momentos distintos. Inicialmente, estabelece uma situação delicada, no qual uma festa entre amigos em uma casa no deserto torna-se palco de discórdia quando um vídeo, encaminhado para a aniversariante, mostra um deles falando dela pelas costas. Em meio ao clima desagradável que passa a reinar, as relações estremecem, e os eventos passam a tomar contornos violentos e sair ainda mais do controle quando outro amigo chega posteriormente, depois de cometer um ato hediondo, também em razão de um vídeo por ele recebido, no qual claramente visualizava sua namorada o traindo com outro homem.
Naturalmente, todo esse primeiro segmento já seria suficiente para render um ótimo curta-metragem, e serve com excelência para explorar as ramificações posteriores, e a origem de todos os problemas construídos. É quando Appofeniacs, em uma completa mudança de tom, através de novos arcos e personagens, revela o uso de inteligência artificial generativa como a fonte dos vídeos encaminhados, pelas mãos de um sujeito que mal consegue dar conta da própria vida e das próprias economias. O que seria uma ferramenta útil para a melhora do desempenho humano, nas mãos erradas, se torna então uma arma de destruição social, a partir de seu uso para a desconstrução das relações entre pessoas. É, como bem diz uma linha de diálogo do próprio filme, a realidade começando a se tornar confusa.
Com a noção da possibilidade de estrago, e consequências devastadoras do uso indiscriminado de inteligência artificial para o mal, através dos “deepfakes”, na forma do prólogo isolado, Chris Marrs Piliero conecta as vidas de outras pessoas, igualmente vítimas dessa mesma tecnologia, em uma espiral de “coincidências”, que se tornam uma verdadeira comédia de erros, entre causas e efeitos diversos, em cuja violência fixa-se o aspecto central, pelo preço que terão de pagar por algo que não fizeram. Torna-se engraçado a partir do momento que o cineasta aborda essas ideias na base do absurdo, não apenas colocando o acaso contra os personagens vítimas, mas jogando até mesmo contra o autor dos vídeos falsos, em sua profunda insensibilidade.
Embora se divirta com as situações orquestradas no decorrer do filme, Piliero se mostra também muito consciente da temática tratada pela obra, e mesmo que embebido na violência exagerada e no humor peculiar, demonstra seriedade na abordagem quando um reflexo do mundo contemporâneo, considerando que a tecnologia retratada, ainda que não exatamente da mesma maneira e não tão perfeita, já existe e está a disposição da sociedade, refletida no filme em seus perigos de serem usadas pelo cidadão das maneiras erradas, com intuitos de vingança, incitação ao caos, e até para aplicação de golpes – o que naturalmente já acontece.
Dessa maneira, Appofeniacs sabe precisamente delimitar a seriedade de sua temática, e das preocupações que manifesta, de quando explorar o absurdo das conexões que traça entre as narrativas violentas, como uma comédia de erros. Junta-se então a outras obras deste ano que manifestam a mesma preocupação com o uso de IA, algo que se torna crescente, não apenas pela maneira como podem contribuir negativamente à sociedade, em contextos políticos e sociais (como Good Luck, Have Fun, Don’t Die, de Gore Verbinski; e Compliance, de Kyle Mangione-Smith, exibido nesta edição do Fantaspoa, em sua premiere mundial), como também por seus reflexos na própria indústria cinematográfica, o que motivou as greves de 2023 em Hollywood, e dos próprios filmes que usam dos recursos de geração de imagens para evitar gastos com efeitos visuais. No fundo, não é um filme que se posiciona contrário ao uso dos recursos, mas que busca acender o alerta de sua aplicação indiscriminada, e sobretudo, desregrada.
Avaliação: 4/5
Appofeniacs (Idem, 2026)
Direção: Chris Marrs Piliero
Roteiro: Chris Marrs Piliero
Gênero: Terror, Thriller, Comédia
Origem: EUA
Duração: 90 minutos (1h30)
Exibido no XXII Fantaspoa
Sinopse: Quando Duke entra numa espiral de criações irresponsáveis de deepfakes, seu total desprezo pelas consequências revela como, com poucos cliques em um aplicativo no celular, qualquer pessoa pode criar um vídeo enganoso de uma vítima desavisada e arruinar sua vida… ou encerrá-la.
English review
Between AI and “deepfakes,” in the comedy of errors Appofeniacs, reality becomes blurred, and Chris Marrs Piliero raises a warning about the indiscriminate use of technology as a weapon of social destruction.
The word “apophenia” is not commonly used in everyday vocabulary, even though its meaning is very much part of our daily lives, as a natural human trait. It refers to the tendency to perceive patterns, connections, or meanings in seemingly random information with no actual relation between them. It is closely tied to the formation of conspiracy theories, superstitions, false conclusions, or simply a perception of reality that is not necessarily real - like seeing shapes in the clouds - even if it may, in some way, reflect reality.
Interestingly, Appofeniacs writer and director Chris Marrs Piliero was clearly aware of the complexity of his film’s title, to the point of including a definition like the one above in an opening text. As the film unfolds, the title itself becomes an ironic device, as the events orchestrated by the screenplay - structured as a comedy of errors - ultimately reveal that there is, in fact, a pattern of connections being followed.
Things become even more engaging when Piliero chooses not to reveal his full hand from the outset, constructing the narrative through two distinct movements. Initially, he sets up a tense situation: a birthday gathering among friends in a desert house turns sour when a video sent to the birthday girl shows one of them speaking badly about her behind her back. As discomfort takes over, relationships begin to fracture, and events escalate into violence when another friend arrives later, having committed a heinous act after receiving a video in which he clearly sees his girlfriend cheating on him.
This first segment alone would already make for a compelling short film, and it works effectively as a foundation for exploring the ripple effects and origins of the chaos that follows. It is then that Appofeniacs, in a complete shift of tone, introduces new arcs and characters, revealing generative AI as the source behind the videos - orchestrated by a man who can barely manage his own life or finances. What should be a tool for improving human productivity becomes, in the wrong hands, a weapon of social destruction, used to dismantle relationships. As one line in the film aptly states, reality itself begins to grow confusing.
By establishing the destructive potential and devastating consequences of malicious AI use - particularly through deepfakes - Piliero connects the lives of multiple characters who fall victim to the same technology, creating a spiral of “coincidences” that evolves into a true comedy of errors. Violence becomes a central element, as characters pay the price for actions they never committed. The film finds humor in its embrace of absurdity, not only pitting chance against its victims, but also turning it against the creator of the fake videos, exposing his profound insensitivity.
While clearly having fun with the situations he orchestrates, Piliero also demonstrates a strong awareness of the themes he is addressing. Beneath the exaggerated violence and peculiar humor lies a serious reflection of the contemporary world, where the technology depicted - though perhaps not as advanced or seamless - already exists and is accessible. The film highlights the dangers of its misuse, whether for revenge, inciting chaos, or committing fraud - all of which are already present in reality.
In this way, Appofeniacs carefully balances the seriousness of its concerns with the absurdity of its narrative construction as a comedy of errors. It joins other recent works that express similar anxieties about the rise of AI - not only in terms of its potential social and political consequences, but also its impact on the film industry itself, from the 2023 Hollywood strikes to the growing use of AI-generated imagery as a cost-cutting measure. Ultimately, the film does not position itself against the use of such technologies, but rather seeks to raise awareness about their indiscriminate and unregulated application.
Appofeniacs was screened at XXII Fantaspoa.


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