XXII FANTASPOA | Compliance, de Kyle Mangione-Smith (Idem, 2026)
- Henrique Debski

- há 2 dias
- 7 min de leitura
Consciente da controvérsia, Compliance propõe uma implosão da sociedade norte-americana a partir da manipulação digital, em filme realista cujo verdadeiro terror reside na possibilidade de o retrato ultrapassar a tela para o mundo concreto.

Entre todo o cinema de terror, e a infinidade de subgêneros que se apresentam por debaixo deste guarda-chuva, creio que o "found-footage” é um dos mais interessantes, pela forma como possibilita uma experimentação, se nas mãos de cineastas inventivos e ambiciosos. O conceito de "fita encontrada” surgira, essencialmente, no formato contemporâneo, com o sucesso de A Bruxa de Blair, projeto de baixíssimo orçamento, e muito criativo, à época, em seu uso de câmeras digitais, atmosfera de tensão e estratégia de marketing, que vendia o filme como registros reais.
Ao longo dos anos, uma série de convenções dentro do subgênero foram sendo criadas, e o estilo, aos poucos, desgastado. Com a evolução das tecnologias, e o surgimento de uma internet mais acessível, um novo ramo surgiu a partir do found-footage: o filme de telas, se passando inteiramente em computadores, celulares e interfaces digitais - aproveitados tanto no terror, como Amizade Desfeita, Host; no thriller, como Buscando; e mais recentemente, até no cinema de ação, vide Justiça Artificial.
Nesse sentido, Compliance, que fez sua estreia mundial no XXII Fantaspoa, propõe uma mescla entre o found-footage e o filme de telas - algo que vem, constantemente, se tornando mais comum, frente a inevitabilidade da correlação entre os formatos e a tecnologia da qual compartilham. A partir de câmeras diversas, em celulares, lapelas, bodycams e de circuito interno, e diante da interface de aparelhos eletrônicos, o cineasta Kyle Mangione-Smith torna um naturalmente delicado caso de compliance empresarial em algo muito maior do que parece.
A narrativa se inicia com Sam, funcionária do departamento de compliance de uma startup de aluguel de imóveis por diária, que é designada para atender uma vítima de violência sexual em um dos locais vinculados à plataforma. Com uma abordagem compreensiva, destacando por mais de uma vez também já ter sofrido formas de violência, seu trabalho, que encara como o de uma assistente social, na verdade é uma maneira de a empresa se resguardar de futuras consequências pelos fatos ocorridos, oferecendo o custeio de tratamentos médicos, investigações, terapias e o que mais for necessário para que nada possa vazar para a mídia e venha à tona.
No entanto, todo o caso é mais nebuloso do que parece. A vítima se apresenta perante à polícia com o uso de documentos falsos, não possui digitais, e recusa-se a falar ou assinar qualquer acordo e documentos junto à empresa. Ao mesmo tempo, sugere à protagonista que algo diferente aconteceu naquele imóvel.
Diante de um conflito moral que se estabelece entre a personagem e a empresa para a qual trabalha, algo maior começa a revelar-se diante dela. Se até certo ponto acreditamos tratar-se das câmeras na residência de equipamento instalado para segurança própria, descobrimos que ela mesma não sabia que era vigiada. É quando os contornos tomados pelo filme passam a trilhar caminhos não só mais obscuros, como se faz a pergunta: quem a está observando?
O digital, que antes, no próprio filme, se apresentava como um possível recurso de segurança, se torna então motivo de paranoia. No mundo hiper-conectado, não há quem não possa ser encontrado ou vigiado à distância pela internet, ainda mais em uma cidade como Los Angeles. A montagem, também assinada por Mangione-Smith, faz questão de ressaltar o sentimento a partir de uma infinidade de ângulos escolhidos para acompanhar a protagonista, em uma jornada em que fora escolhida para participar, não necessariamente com a sua anuência. Há muito cuidado, inclusive, com a continuidade narrativa, com atenção às datas e horários dispostos na parte inferior da tela, a fim de manter a linha do tempo dos eventos, ainda mais quando, na reta final, intercala diversos acontecimentos simultâneos, potencializando o caos e a tensão.
O poder, então, não está necessariamente em quem comanda um país, quem coloca as mãos nos órgãos estatais, ou quem detém de maiores recursos financeiros, mas sim quem está no controle da tecnologia, e dela sabe usar para manipular o mundo ao redor para atingir seus objetivos, tratando-o como um grande tabuleiro, no qual as pessoas são meros peões em um jogo do qual nem fazem ideia participar.
O mais interessante é que Compliance, sem medo de colocar o dedo na ferida, provocar ou causar polêmicas, produz todo um retrato explosivo à sociedade norte-americana desconstruindo elementos amplamente difundidos e estabelecidos pelo próprio cinema do país. Não existe um conceito maniqueísta de bom e mau no decorrer da narrativa - mas tão somente polos de interesses opostos, uns manipulados por outros, na preparação para uma situação que equivaleria a passos iniciais para um processo de guerra civil. A inflamação desse aspecto social se fortalece frente a repercussão dos eventos da narrativa em podcasts, debates em redes sociais, noticiários, e reflete também a maneira como a informação é veiculada em tempos nos quais reina a (des)informação e o espírito da pós-verdade.
Não há certo e errado - jamais haverá. Toda a violência retratada, física e psicológica, assusta mais pelo realismo empregado em cena do que mesmo pelas situações que o filme propõe em tela. Da direção de arte, com seu sangue escuro, e passagens que se aproximam do prelúdio de uma era cyberpunk, à quase completa ausência de trilha musical no longa, que ainda assim mantém-se dinâmico com o som ambiente, como o pavio de uma bomba prestes a explodir, o verdadeiro terror de Compliance reside na forma como, mesmo se parecendo com um filme exagerado, todos os acontecimentos facilmente poderiam ocorrer no plano concreto, nos Estados Unidos ou mesmo no Brasil. É para suscitar o debate: o quanto somos manipulados, sem que percebamos?
Avaliação: 4.5/5
Compliance (Idem, 2026)
Direção: Kyle Mangione-Smith
Roteiro: Kyle Mangione-Smith
Gênero: Terror, Thriller
Origem: EUA
Duração: 104 minutos (1h29)
Exibido no XXII Fantaspoa.
Sinopse: Sam Cornell, jovem gestora de crises de uma startup de tecnologia, recebe a missão de conter os danos de um escândalo de agressão sexual. Enquanto tenta controlar a narrativa e apoiar uma vítima pouco colaborativa, Sam acaba se tornando peça de um jogo mortal arquitetado por uma organização poderosa e obscura.
English review
Aware of the controversy it engages with, Compliance proposes an implosion of American society through digital manipulation, in a realistic film whose true horror lies in the possibility of its portrait spilling beyond the screen into the real world.
Among all horror cinema and its countless subgenres, I find “found footage” to be one of the most interesting, given how it allows for experimentation when placed in the hands of inventive and ambitious filmmakers. The concept of the “found tape” emerged, in its contemporary form, with the success of The Blair Witch Project, a very low-budget and highly creative project at the time, both in its use of digital cameras, its tense atmosphere, and its marketing strategy, which presented the film as real footage.
Over the years, a series of conventions within the subgenre have been established, gradually wearing the style down. With technological evolution and the rise of a more accessible internet, a new branch emerged from found footage: the screenlife film, taking place entirely on computers, smartphones, and digital interfaces - used in horror, such as Unfriended and Host; in thrillers like Searching; and more recently even in action cinema, as in Mercy.
In this context, Compliance, which had its world premiere at the Fantaspoa, proposes a blend between found footage and screenlife - something increasingly common given the inevitable overlap between these formats and the technologies they share. Through a variety of cameras - smartphones, lavaliers, bodycams, surveillance systems - and digital interfaces, Kyle Mangione-Smith transforms what initially appears to be a delicate corporate compliance case into something far more expansive.
The narrative begins with Sam, an employee in the compliance department of a short-term rental startup, who is assigned to handle a victim of sexual violence at one of the company’s properties. With a compassionate approach - noting more than once that she herself has experienced forms of violence - her role, which she views as akin to social work, is in fact a mechanism for the company to shield itself from future consequences, offering to cover medical treatments, investigations, therapy, and anything else necessary to prevent the case from reaching the media.
However, the situation proves far more obscure than it seems. The victim presents herself to the police using false documents, has no fingerprints, and refuses to speak or sign any agreements with the company. At the same time, she suggests to the protagonist that something unusual occurred in that residence.
As a moral conflict emerges between Sam and the company she works for, something much larger begins to unfold. If at first we assume that the cameras in the house are installed for security, we soon discover that even she was unaware she was being monitored. From that moment on, the film takes on darker contours, raising a crucial question: who is watching her?
The digital realm, which initially appears as a potential tool for safety, becomes a source of paranoia. In a hyper-connected world, no one is beyond being tracked or surveilled remotely, especially in a city like Los Angeles. The editing - also by Mangione-Smith - reinforces this sensation through a multitude of angles tracking the protagonist in a journey she has been chosen to participate in, not necessarily by her own will. There is notable care with narrative continuity, particularly through timestamps displayed on screen, maintaining the timeline of events, especially as the film intercuts multiple simultaneous developments in its final stretch, heightening chaos and tension.
Power, then, does not necessarily lie with those who govern nations, control state institutions, or hold the greatest financial resources, but rather with those who control technology and know how to use it to manipulate the world around them, treating it as a vast board where people are mere pawns in a game they do not even realize they are part of.
What is most compelling is that Compliance, unafraid to provoke or stir controversy, constructs an explosive portrait of American society by deconstructing elements widely disseminated and reinforced by its own cinema. There is no clear-cut notion of good and evil - only opposing interests, some manipulating others in preparation for a situation akin to the early stages of civil conflict. This social tension is amplified through the narrative’s reverberations in podcasts, social media debates, and news coverage, reflecting how information circulates in an era dominated by (dis)information and post-truth dynamics.
There is no right or wrong - there never will be. The violence depicted, both physical and psychological, is more disturbing for its realism than for the situations themselves. From the production design - with its dark blood tones and sequences that verge on a cyberpunk prelude - to the near absence of a musical score, replaced by ambient sound that feels like the fuse of a bomb about to explode, the true horror of Compliance lies in how, despite sometimes feeling exaggerated, everything portrayed could very well happen in reality, whether in the United States or even in Brazil.
It is a film that invites a pressing question: how much are we being manipulated without even realizing it?
Compliance was screened at XXII Fantaspoa.



Comentários