XXII FANTASPOA | Armageddon Road, de Karen Lam (Idem, 2026)
- Henrique Debski

- há 19 horas
- 6 min de leitura
Armageddon Road sabe contornar as limitações orçamentárias experimentando com a própria linguagem, mas se perde em thriller lento, que fala mais do que resolve.

No clima de um jogo de cartas em um quarto de hotel, Armageddon Road já exala a atmosfera dos anos 1970 desde seus primeiros instantes. O clima competitivo, com a câmera rodando entre os apostadores, explora um ambiente de homens endividados, sedentos por dinheiro, e devedores de montantes que provavelmente não serão capazes de juntar, ainda mais com os juros altos cobrados pelos agiotas a quem devem.
É o caso do protagonista Steve, um homem sem emprego, preso à uma vida tentando juntar dinheiro para suas dívidas, enquanto sonha alto para planos e desejos distantes de alcançar. Seu trabalho principal é dirigir pela noite para mulheres envolvidas com um mafioso local, a quem deve, e também o utiliza para tais serviços. Na cidade do pecado, Las Vegas, os letreiros neon indicam para a inalcançável felicidade de um local destinado a sugar dinheiro e oferecer prazeres momentâneos, justamente entre os quais colocaram o personagem na situação de infelicidade em que se encontra.
Ao dirigir para Dalilah, em um primeiro instante, o sentimento de paixão do personagem pela mulher o faz se abrir às próprias vulnerabilidades. É quando o roteiro, assinado pela diretora Karen Lam, se dedica a tentar compreender o que se passa por detrás daquele homem cafajeste e pouco confiável, viciado em jogo e nos prazeres passageiros, perdido, aparentemente sem um grande plano para a vida. Em um terreno vazio, a diretora projeta flashes de seu sonho pelo vidro da frente do veículo que dirige, ilustrando os desejos de se reconectar com o filho através de um parque de diversões, tentando transformar um pouco da cidade de Vegas daquele tempo e universo em um ambiente também familiar.
No entanto, os planos se interrompem quando Dalilah retorna estranha de uma balada na qual adentra, depois de aparentemente ser possuída, em uma passagem que apenas o público presencia, e cuja composição das cores e fotografia nos remete, ainda que remotamente, aos giallos italianos, muito populares na época retratada pelo longa, o pedindo para dirigir através do deserto a fim de concluir uma suposta missão.
Armageddon Road, como uma produção canadense de baixo orçamento, assume-se como um filme pautado essencialmente em diálogos. Centrado no interior do veículo, nessa jornada entre Las Vegas e o grande deserto de Nevada, constrói seu mistério a partir das conversas e do aprofundamento da relação entre Steve e Dalilah (sem perceber o comportamento estranho dela), bem como dos elementos sobrenaturais que os circundam, que aos poucos revelam uma guerra bíblica entre entidades.
O longa, no entanto, encontra certa dificuldade em explorar todo esse conflito no qual Dalilah arrasta Steve, não só pela forma dos diálogos, mas especialmente nos momentos em que decide investigar o que realmente está acontecendo naquela estrada. Durante muito tempo, tanto Steve quanto o público são deixados em "banho-maria”, sem nada de fato ser revelado sobre o mistério. Essa lentidão narrativa tampouco consegue ir além também na exploração dos personagens, exceto pela reiteração e reforço de um aspecto falho e humano no protagonista, a partir daquilo que já havia sido explorado anteriormente. É evidentemente uma oportunidade de Brian McCaig se destacar, o que de fato acontece, enquanto é capaz de oferecer emoção ao personagem, ainda que muito disso já houvesse sido trabalhado em momentos anteriores, e meramente se repita em razão da redundância na qual recai o texto - que acaba deixando espaço, por outro lado, para que Natalie Grace trabalhe a dualidade entre suas duas personagens na narrativa.
A solução encontrada por Karen Lam, então, para as passagens mais intensas, planos abertos da estrada, e do próprio veículo, na intenção de contornar as limitações, foi experimentar com a linguagem do próprio filme com o uso de cenários em miniaturas. É algo que dialoga muito bem com a época retratada, e o cinema setentista (muito visto em séries de ação japonesas, como Ultraseven), que com o tempo foram sendo substituídas por técnicas de computação gráfica e outros recursos - uma saída tosca, de certa maneira, mas ainda assim criativa.
Dessa maneira, Armageddon Road encontra seu diferencial mais na inventividade da da forma pela qual habilidosamente contorna suas limitações orçamentárias e os desafios de produção do que efetivamente pela história que conta em tela. Ainda que exista um aspecto bíblico interessante nesse conflito estabelecido, falta uma conexão mais profunda do que acontece no interior do veículo com aquilo que ocorre ao lado de fora, que se prolonga no desenrolar, evita durante muito tempo oferecer respostas, e se encerra como uma incógnita, sem que, como público, sejamos capaz de entender exatamente. É de se compreender que o longa centra-se no ponto de vista de Steve, mas a experiência torna-se algo similar a de pegar o bonde andando - muitas coisas já aconteceram, mas não sabemos o que, pois não tivemos a oportunidade de ver.
Avaliação: 3/5
Armageddon Road (Idem, 2026)
Direção: Karen Lam
Roteiro: Karen Lam
Gênero: Thriller, Drama
Origem: EUA
Duração: 85 minutos (1h25)
Exibido no XXII Fantaspoa
Sinopse: Um romântico incurável e cheio de grandes sonhos, Steve é um ex-presidiário contratado para dirigir, por uma noite, a namorada de um chefão da máfia. Ele não faz ideia de que sua passageira morreu e agora está possuída por um dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse.
English review
Armageddon Road knows how to work around its budget limitations by experimenting with its own language, but ultimately gets lost in a slow-burning thriller that talks more than it resolves.
Set in the atmosphere of a card game in a hotel room, the film immediately evokes the 1970s. The competitive mood, with the camera circling the gamblers, establishes a world of indebted men, desperate for money, owing sums they will likely never be able to repay - especially under the weight of high-interest loans from the loan sharks they answer to.
This is the case for Steve, an unemployed man trapped in a life of trying to pay off his debts while dreaming of ambitions far beyond his reach. His main job is driving at night for women connected to a local mob figure, to whom he also owes money. In Las Vegas, the city of sin, neon lights promise an unattainable happiness - a place designed to drain money and offer fleeting pleasures, the very same forces that led him into his current unhappiness.
When driving Dalilah, Steve’s initial infatuation leads him to open up about his vulnerabilities. It is here that the screenplay, written by director Karen Lam, attempts to understand what lies beneath this unreliable, womanizing man, addicted to gambling and temporary pleasures, seemingly without direction in life. In one striking moment, Lam projects flashes of his dreams onto the windshield - visions of reconnecting with his son in an amusement park - momentarily transforming the harsh world of Vegas into something resembling a family space.
However, these aspirations are interrupted when Dalilah returns from a nightclub behaving strangely - after what appears to be a possession, witnessed only by the audience. The use of color and cinematography in this sequence subtly recalls Italian giallo films, popular during the era the film evokes, as she asks Steve to drive into the Nevada desert to fulfill a mysterious mission.
As a low-budget Canadian production, Armageddon Road embraces its reliance on dialogue. Confined largely to the interior of the car, during the journey between Las Vegas and the Nevada desert, it builds its mystery through conversations and the evolving relationship between Steve and Dalilah - the former unaware of her unsettling transformation - while supernatural elements gradually hint at a biblical conflict between entities.
The film, however, struggles to fully explore this conflict. Not only do the dialogues occasionally fall short, but the narrative also lingers too long without offering meaningful revelations. For an extended period, both Steve and the audience are left in a kind of narrative limbo, with little clarity about the unfolding mystery. This slow pace also fails to deepen the characters significantly, beyond reiterating Steve’s already established flaws and humanity. While this gives Brian McCaig room to deliver an emotionally engaging performance - which he does - much of it feels repetitive due to the script’s redundancy. On the other hand, it does allow Natalie Grace to explore the duality of her character more effectively.
To compensate for budget constraints in larger-scale moments - such as wide shots of the road and the car - Lam turns to miniature sets. This choice aligns well with the film’s 1970s aesthetic and recalls techniques often seen in Japanese action series like Ultraseven, before the widespread use of CGI. While somewhat crude, it is undeniably creative.
In this sense, Armageddon Road stands out more for the inventiveness with which it navigates its production limitations than for the story it tells. Although the biblical undertones of its central conflict are intriguing, there is a lack of cohesion between what happens inside the car and what unfolds beyond it. The narrative stretches itself, avoids providing answers for too long, and ultimately concludes as an enigma - leaving the audience with the feeling of having boarded a moving train mid-journey, aware that much has already happened, but without ever having been allowed to see it.
Armageddon Road was screened at XXII Fantaspoa (world premiere).



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