CRÍTICA | Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra, de Gore Verbinski (Good Luck, Have Fun, Don’t Die, 2026)
- Henrique Debski

- há 21 horas
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Gore Verbinski mira as redes sociais e inteligência artificial em seu retorno ao cinema depois de uma década, com ficção-científica que abraça o humor nonsense para alertar sobre os perigos de um futuro hiper conectado.

Já se passou quase uma década desde quando Gore Verbinski nos presenteou com A Cura (2017), seu último filme até então. Naquela época, se apropriava de um subgênero do terror clássico para construir um filme sobre monstros a partir da doença do século: a depressão. Seu horror debatia diretamente, a partir do estranhamento de seu microcosmo, uma sociedade adoecida pelo excesso de trabalho normalizado em uma dinâmica de quase escravidão, como sintoma de um mundo enlouquecido e incapaz de olhar para além de um palmo, enquanto tudo ao redor se corrompia. Evidentemente que a solução não se encontrava no local aonde o protagonista vai para buscar seu chefe, que via nesse cenário uma possibilidade de potencializar pesquisas insanas.
Agora, o retorno do cineasta em 2026, com Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra, transita para um caminho incrivelmente semelhante, enquanto a partir do roteiro assinado por Matthew Robinson busca por uma nova desconstrução da sociedade, novamente pela veia da loucura, mas deixando de lado o terror para abraçar a ficção-científica e a comédia, a sua própria forma.
Nesse sentido, é muito bom que, há cerca de três anos, Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo tenha conseguido não apenas o apelo de um público fiel e defensor do projeto, angariando uma legião de fãs, como também uma série de estatuetas na temporada de prêmios, incluindo o Oscar de melhor filme. Digo isso pois uma repercussão positiva ao nonsense como tal permitiu a produção de longas como o presente, pouco interessados na exploração de um viés realista, se permitindo construir realidades paralelas, viagem no tempo e humor sem grandes preocupações. Pois mantendo um estilo de insanidade, uma constante no cinema de Verbinski que seu novo filme se apoia nos elementos contemporâneos criticados para construir o próprio mundo.
Sob a influência dos celulares e da internet no cotidiano do ser humano, a realidade do longa se estabelece a partir do vício. As redes sociais – sobretudo do tipo TikTok – dominam as telas dos celulares em cena, com pessoas alienadas, apenas olhando para os aparelhos, sem observar qualquer elemento do mundo ao redor, ou mesmo conversar pessoalmente, e não por mensagem. Evidentemente há um tom de exagero, especialmente na forma como se representa a juventude, mas não de maneira aleatória, trata-se da eminente possibilidade de um caminho sem volta, de uma sátira com tamanho fundo de verdade que se concretiza, de maneiras sutis, à nossa frente sem que percebamos.
Após a entrada do protagonista, o “homem do futuro”, muito bem vivido por Sam Rockwell, o grande destaque do filme no quesito atuações, à lanchonete e formação de seu time da vez, com o objetivo de salvar o mundo, acompanhamos um pouco da vida de alguns desses personagens, em momentos anteriores ao grande e fatídico dia. Curiosamente, a estrutura do texto se mostra muito cuidadosa no aprofundamento de alguns membros específicos desse grupo, como forma de compreender aquilo que os conecta, as surpresas que os aguardam, mas sobretudo, a vida para além daquela noite. Cada uma das três histórias contadas se interliga a partir da tecnologia, as quais aparecem desde os primeiros instantes, e são desenvolvidas com paciência à medida em que são contadas. Então, enquanto alguns elementos já são posicionados desde a primeira, é na segunda ou na terceira que serão efetivamente explicados e contextualizados ao espectador, culminando justamente no momento que dá início ao filme.
Não demora a percebermos que as redes sociais não são os grandes antagonistas do filme, mas um instrumento utilizado por para atingir o objetivo de escravização da sociedade a partir do prazer e da recompensa. O pano de fundo tão logo mira na inteligência artificial, tema cada vez mais interessante ao cinema, e uma verdadeira preocupação do presente para com o futuro, se não impostos limites e controles desde já.
Evidente que o filme também mira na própria humanidade como a grande vilã, “com culpa no cartório”, quando responsável pela criação de tecnologia para possibilitar a existência das IAs. O lucro a todo custo, sobretudo em cima de tragédias e da dor alheia, é uma das locomotivas que levam o mundo, aos olhos dos realizadores, à beira do colapso, enquanto cada vez mais abandona-se a sensibilidade em prol de medidas paliativas, e a possibilidade de ganhar dinheiro acima de tudo.
Para construir esse mundo de ponta-cabeça, não tão distante do nosso, onde até nas escolas as coisas se invertem, a partir de “alunos zumbis” viciados em telas caçando professores, como forma de castigo pelas broncas levadas, Carol Ballan, amiga e crítica de cinema, fez uma boa definição em breve comentário na plataforma Letterboxd, acerca da maneira como Verbinski articula suas ideias: “ [é] o filme que resume como é uma timeline de TikTok enquanto a critica”.
A sátira de Verbinski está em precisamente trabalhar, em sua narrativa, com o excesso de informações e a loucura para ilustrar o mundo do presente, e criticá-lo no ritmo frenético. Ele nos instiga ao guardar seu mistério, e revelá-lo aos poucos, como o faria em uma boa literatura, investigando as circunstâncias junto aos personagens, ligando os pontos, e até mesmo refletindo sobre o caminho seguido pela humanidade. Como forma de exaltar esse aspecto “louco”, o filme se aproveita de um humor ácido, capaz de genuinamente provocar o espectador, ora através do desconforto, e ora através do nonsense.
Admito, no entanto, que oportunamente o longa também tropece no caminho, justamente ao se perder no próprio excesso de informações que traz como forma de criticar o presente. Por vezes, o humor extrapola no número de piadas e absurdos que coloca diante da tela, e a própria direção perde a oportunidade de transformar algumas passagens em momentos mais memoráveis, por exemplo, se a trilha musical soasse menos genérica.
Ainda assim, creio que a mensagem desejada por Verbinski seja muito bem articulada ao longo das aproximadas duas horas de Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra, um filme ousado no ritmo acelerado, nas críticas a uma sociedade que aprisiona a si própria, no temor dos perigos da inteligência artificial, e na própria humanidade como a grande vilã. É um filme tão fiel às regras que estabelece que não tem medo do anticlímax, tanto que o abraça, ainda que houvesse espaço para soar mais ousado. E espero que não tenhamos de esperar mais quase uma década para o próximo filme do diretor.
Avaliação: 3.5/5
Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fum, Don’t Die, 2026)
Direção: Gore Verbinski
Roteiro: Matthew Robinson
Gênero: Thriller, Comédia, Ficção-Científica
Origem: EUA, Alemenha
Duração: 134 minutos (2h14)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Um homem vindo do futuro chega a uma lanchonete em Los Angeles, onde precisa recrutar a combinação exata de clientes para acompanhá-lo em uma missão de uma noite, entre seis quarteirões, para salvar o mundo da ameaça terminal de uma inteligência artificial descontrolada.



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