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CRÍTICA | Moscas, de Fernando Eimbcke (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 22 horas
  • 7 min de leitura

Moscas aborda o luto e o seguir em frente a partir de uma amizade improvável, com sensibilidade em explorar seus personagens a partir do que fazem e sentem, e não necessariamente do que dizem.


 

Moscas se inicia com um primeiro plano levemente colorido, mostrando uma mulher deitada na cama pela manhã, acordando atordoada pelo som de moscas que transitam ao seu redor. A partir do momento em que pega o primeiro objeto comprido disponível para acertar o inseto, que deixa uma marca na parede e cai ao solo, as cores na imagem desaparecem e dão lugar ao preto e branco. Compreendemos o semblante de uma mulher amargurada, Olga, capaz de se incomodar com o barulho da rua, reclamar do preço de um prato de comida em um restaurante na esquina, em tom de deboche, e agora preocupada com o crescente valor de suas despesas, ainda mais ao descobrir que precisará realizar uma pequena cirurgia no dedo do pé. É por isso que, residindo ao lado de um hospital, decide alugar um quarto disponível em sua casa.

 

É quando seu destino se cruza com o de Cristian, um garoto de oito anos, que aluga o quarto com seu pai, enquanto a mãe encontra-se doente, e internada no hospital do outro lado da rua. Vindos de outra cidade, a situação econômica de pai e filho também não é fácil, e como explicar a uma criança a batalha enfrentada por um ente querido em uma cama hospitalar? Segurando as pontas da maneira como pode, o pai se esforça para entreter e cuidar do filho sem transparecer os sentimentos de dor, e tampouco deixar indícios de que não crê em um destino favorável ao quadro de saúde da esposa.

 

Em que pese um aspecto de filme protocolar, bastante comum a festivais, a partir de uma narrativa dramática de pessoas buscando um lugar ao mundo diante de situações difíceis, a direção de Fernando Eimbcke encontra na sensibilidade um caminho diferente do tradicional. Em momento algum o cineasta se mostra interessado em desviar da trilha provável para a situação que retrata, cujo desfecho resta anunciado desde o início, e opta, a todo tempo, por explorar os sentimentos dos personagens a partir de seus semblantes e de suas atitudes.

 

Rejeitando o uso de diálogos como forma de exposição, algo cada vez mais comum ao cinema contemporâneo, a câmera de Eimbcke se direciona a todo tempo para os olhares, e deposita no ótimo elenco, encabeçado por Teresita Sánchez e Bastian Escobar, a responsabilidade pela condução de uma jornada de luto e aceitação que acaba se revelando maior do que o imaginado.

 

Na medida em que Olga se vê obrigada a conviver com Cristian em sua casa, a direção de arte, através dos objetos de cena e a maneira como a direção, junto a sua câmera, transita mais atentamente pelo interior do imóvel, Moscas começa a revelar o que há por detrás daquela mulher que, a princípio, estabelece uma relação de antipatia com o espectador. Seu choro ao se deparar com determinados objetos, e o choro que engole seco nos levam a compreender que já passou por situações semelhantes às do garoto em sua casa, colocando-se, pouco a pouco, no lugar dele.

 

Ao mesmo tempo, quando volta atenção a Cristian, a partir de um jogo de fliperama, o roteiro, também assinado por Eimbcke, constrói uma dinâmica ao estilo videogame no interesse da criança em visitar a mãe no hospital. Barrado à porta em razão da idade, constantemente o personagem busca por soluções alternativas para convencer adultos a lhe ajudar – as vezes dependendo de sorte, e as vezes de sua sagacidade. A cada nível, portanto, o desafio torna-se maior, culminando na necessidade de convencimento de Olga.

 

A analogia com o jogo de fliperama não se resume apenas a construção dessa dinâmica pelo roteiro na forma de um desafio ao protagonista. Na prática, vai além, ao tratar-se, superficialmente, em um primeiro momento, de uma válvula de escape ao personagem, diante da situação estressante na qual vive, ainda que o pai se esforce ao máximo para que Cristian não se dê conta do que de fato está acontecendo. E enquanto se aprofunda, vai além na maneira como explora o fliperama como uma recordação e proximidade com uma pessoa que talvez, em breve, não mais esteja com ele. É o que acaba facilitando também a proximidade com Olga posteriormente, e chega, no clímax, a resultar numa passagem de fantasia que materializa, em tela, a mente do personagem, e o seu sentimento de uma maneira extremamente criativa, em uma espécie de resumo de tudo o que foi trabalhado até então.

 

Dessa forma, ainda que eventualmente exagere em algumas soluções para as problemáticas que coloca em tela (como a criação de uma identidade falsa, por exemplo), Moscas narra uma história comum, mas adota caminhos que transitam entre a sensibilidade agridoce e o humor, e mais, optam por explorar os sentimentos dos personagens em tela, sem apelar aos diálogos, em atuações tão intimistas quanto formalistas. E ao final, cada um lida com suas “moscas” às próprias maneiras, e como podem, quem sabe aprendendo, na convivência, a superar as tristezas, os lutos da vida, e seguir em frente. Assim, quem sabe até a cor possa voltar.

 

Avaliação: 4/5

 

Moscas (Idem, 2026)

Direção: Fernando Eimbcke

Roteiro: Fernando Eimbcke

Gênero: Drama, Comédia

Origem: México

Duração: 99 minutos (1h39)

Exibido no 76º Festival de Berlim (Competitiva)

 

Sinopse: Olga vive uma vida rigidamente controlada, sem amigos ou relacionamentos, em um enorme condomínio de apartamentos. Quando, por necessidade financeira, ela é obrigada a alugar um quarto, um homem se muda para o local e leva escondido seu filho de nove anos. Para sua surpresa, Olga começa a criar um vínculo improvável com a criança. Seu mundo cuidadosamente controlado começa a mudar e essas três vidas passam a se entrelaçar.

 

English review

 

Moscas approaches grief and the process of moving forward through an unlikely friendship, with a sensitivity that explores its characters through what they do and feel, rather than what they say.

 

The film opens with a slightly colored shot of a woman lying in bed in the morning, waking up disturbed by the sound of flies buzzing around her. As she grabs the first long object she can find to strike the insect—leaving a mark on the wall as it falls to the ground - the color drains from the image, giving way to black and white. We come to understand the demeanor of a bitter woman, Olga, easily irritated by street noise, quick to complain mockingly about the price of a meal at a nearby restaurant, and now increasingly concerned about her expenses - especially upon learning she will need a minor surgery on her toe. Living next to a hospital, she decides to rent out a spare room in her home.

 

It is then that her path crosses with Cristian, an eight-year-old boy who moves in with his father while his mother lies ill in the hospital across the street. Coming from another city, their financial situation is far from stable, and how does one explain to a child the battle a loved one is fighting from a hospital bed? Holding things together as best he can, the father strives to care for and entertain his son without revealing his own pain—or hinting at his lack of hope for his wife’s recovery.

 

Despite bearing the hallmarks of a somewhat conventional festival drama - centered on characters searching for their place in the world amid difficult circumstances - Fernando Eimbcke’s direction finds a more delicate and distinctive path. At no point does the filmmaker seem interested in straying from the likely trajectory of the story, whose outcome feels foreshadowed from the beginning. Instead, he consistently chooses to explore the characters’ emotions through their expressions and actions.

 

Rejecting dialogue as a means of exposition - something increasingly common in contemporary cinema - Eimbcke’s camera is constantly drawn to glances and gestures, placing its trust in a strong cast, led by Teresita Sánchez and Bastian Escobar, to carry a journey of grief and acceptance that ultimately proves deeper than expected.

 

As Olga finds herself forced to coexist with Cristian, the production design - through objects and the camera’s attentive movement across the interior of the house - gradually reveals what lies beneath a woman who initially comes across as unlikable. Her quiet tears when confronted with certain objects, and the emotion she struggles to suppress, suggest that she has lived through experiences similar to those now faced by the boy, slowly allowing her to place herself in his position.

 

At the same time, when the film turns its focus to Cristian through an arcade game, the screenplay - also written by Eimbcke - builds a video game-like dynamic around the boy’s attempts to visit his mother in the hospital. Barred from entry due to his age, he constantly seeks alternative ways to convince adults to help him—sometimes relying on luck, other times on his own cleverness. With each “level,” the challenge grows, eventually leading to the need to win over Olga herself.

 

The arcade metaphor goes beyond simply structuring the narrative as a series of challenges. At first, it functions as a form of escape for the boy, a way of coping with the stressful situation he is living through, even as his father does everything possible to shield him from the truth. As the film deepens, however, the game also becomes a symbol of memory and connection to someone who may soon no longer be there. It is this element that later facilitates his bond with Olga, culminating in a climactic moment of fantasy that visually materializes the boy’s inner world and emotions in a remarkably creative way—serving as a synthesis of everything the film has been building.

 

Thus, even if it occasionally stretches plausibility in some of its narrative solutions (such as the creation of a false identity), Moscas tells a familiar story while adopting a tone that balances bittersweet sensitivity with touches of humor. More importantly, it chooses to explore the emotional lives of its characters without relying on dialogue, through performances that are as intimate as they are formally precise. In the end, each character deals with their own “flies” in their own way—learning, perhaps through coexistence, how to confront sorrow, process grief, and move forward. And maybe, just maybe, color can return.

 

The film premiered at the 76th Berlinale (Competition).

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