25º TRIBECA FILM FESTIVAL | Funk, de Aly Muritiba (Idem, 2026)
- Henrique Debski

- há 6 horas
- 8 min de leitura
Com duas grandes atuações, Funk simplifica e idealiza uma realidade conturbada, em jornada superficial que sucumbe às próprias críticas que busca formular à objetificação da mulher na indústria musical.

Pelo segundo ano consecutivo, o Festival de Tribeca, em Nova York, recebe um longa brasileiro em sua seleção oficial, cujo objeto central de interesse são as favelas cariocas e sua cultura. Na última edição do festival, Pipas, assinado pelo norte-americano Walter Thompson-Hernandez, exibido na mostra Viewpoints, faz um retrato problemático desse ambiente, como de alguém que pouco conhece de nosso país, e traz um olhar estrangeiro completamente avesso à realidade concreta.
Pelo menos, Funk, exibido neste ano na competição internacional de Tribeca, se sobrepõe a tais problemas, vez que de alma verdadeiramente brasileira, com produção assinada por Heitor Dhalia, e colaboração no roteiro e direção de Aly Muritiba, responsável por obras memoráveis do cinema nacional contemporâneo, como o excelente drama queer Deserto Particular (2021). Era uma boa receita para o sucesso, que infelizmente não se concretizou.
Escrito a oito mãos (Fernando Barcellos, Taísa Machado, Aly Muritiba e Leandro Saraiva), Funk mais se parece com o rascunho inacabado de uma história em construção e ainda não finalizada, do que realmente um texto pronto para ser filmado. Com ênfase em explorar o crescimento de uma jovem no universo do funk brasileiro, a popularidade da música nas favelas cariocas, e a cultura local imersa no contexto da violência policial e do crime organizado na cidade do Rio de Janeiro, narra a ascensão de Sabrina, conhecida na comunidade como MC Sabrina, ao mundo da música. Em sua jornada, enfrenta um cenário dominado por homens, e a dificuldade em ser respeitada – e não apenas objetificada – em um ambiente que não joga ao seu favor.
É de uma proposta não incomum ao cinema recente, especialmente norte-americano, quanto às temáticas musicais, e de trabalhar os desafios de ascensão a um universo de extrema concorrência, conflitos e até violência em suas mais diversas formas, sobretudo à mulheres e na relação estabelecida entre os artistas, seus empresários, produtores, patrocinadores, e o mundo afora, especialmente com as redes sociais e hiperconectividade. Duda Santos, inclusive, é o grande destaque na composição de uma personagem verossímil, como uma pessoa real, e humana em suas intenções, imersa nos dilemas de uma jornada que a leva cada vez mais para fora da favela, usada como um trampolim para crescer na própria vida, mas ao mesmo tempo se afastando do grupo e comunidade que a formou.
O problema é que, no decorrer de suas quase duas horas de duração, insere e estabelece mais ideias e elementos do que consegue, ou intenta, trabalhar. É o caso de toda a relação conflituosa da protagonista com a própria mãe (também muito bem interpretada por MC Nem, outro destaque positivo), repleto de situações contraditórios ao longo da narrativa, que parecem advir de momentos e escritas diversas, quando inexiste uma constância nos verdadeiros sentimentos nutridos uma pela outra e no desenvolvimento dessa convivência. Na maior parte do tempo dotado de uma inveja, de mãe para com a filha, acerca do sucesso e os desvios da vida, parece algo estagnado, sempre no mesmo lugar e reforçado, sem sair do lugar, enquanto o filme continua – o que torna a cena final injustificável, porquanto nunca se trabalha o suficiente para que aquela conclusão faça sentido ao espectador, incapaz de compreender as decisões de Sabrina e a maneira como decidiu lidar com o cenário familiar.
Da mesma maneira sua ascensão meteórica encontra pouco espaço, depois de utilizar muito de seu tempo no estabelecimento de relações e contextos que, no decorrer da narrativa, pouco fazem diferença – como o fato de o irmão de Sabrina ser o chefe criminoso da comunidade em que reside, algo que se escanteia cada vez mais quando chega ao final. A duração, então, precisa ser aproveitada, tornando a passagem do tempo excessivamente rápida, e simplificando situações que mereciam mais atenção, o que torna tudo bastante genérico, já visto em tantos outros filmes. O que há de mais interessante nesse aspecto, talvez, seja justamente o afastamento da personagem em relação à sua música e identidade, beirando uma música “pop” com traços de funk – um debate até interessante, igualmente pouco aproveitado no filme.
Com esse apressar da narrativa, voltando-se mais aos eventos genéricos, os sentimentos ficam em segundo plano quando a trama precisa avançar, e acaba sucumbindo à sua principal crítica: a objetificação da mulher. Em pouquíssimas oportunidades Sabrina efetivamente consegue se impor perante as situações que enfrenta, contradizendo seu discurso ao insistir em cantar músicas que a tornam submissa perante a masculinidade, e cedendo para a indústria e sociedade, como quem desiste de lutar por um tratamento mais paritário, até mesmo dentro de sua comunidade. Seu próprio corpo acaba sendo objeto de tal objetificação perante a câmera, quando apenas mulheres são mostradas nuas, ainda que homens e mulheres mantenham relações sexuais em diversas oportunidades da projeção.
No fundo, o filme de Muritiba não se distancia tanto do retrato feito por Thompson-Hernandez em Pipas, quando romantiza em excesso o ambiente da favela. Funk idealiza a comunidade musical, normalizando, mesmo que sem a intenção, a objetificação de mulheres como aspecto cultural, em discurso contraditório às intenções que outrora manifesta na narrativa, como forma de tentar, sem sucesso, enxergar Sabrina como uma personagem mais poderosa e com controle sobre si, que acaba nunca se concretizando. Tudo o que reside no entorno da protagonista parece conflitar, como histórias distintas escritas pelos roteiristas, costuradas sem grande refinamento textual, filmadas, e colocadas juntas pelos montadores como possível.
Eu fico chateado por não ter conseguido aproveitar o filme, ainda mais quando representante brasileiro em mostra importante de um festival tradicional como Tribeca – merecedor, reforço, dos prêmios recebidos pelas atuações, de fato o melhor aspecto do filme. Ao mesmo tempo, também não consigo deixar de sentir-me indignado com tal retrato, mais pensado, talvez, para atrair e fascinar um olhar estrangeiro ao país do que representar os próprios brasileiros, que conhecem da situação da nação, e reconhecem quando há uma idealização excessiva, que reforça certos estereótipos e trazem aos olhos uma visão que, no geral, não nos retrata de verdade.
Avaliação: 2/5
Funk (Idem, 2026)
Direção: Aly Muritiba
Roteiro: Fernando Barcellos, Taísa Machado, Aly Muritiba e Leandro Saraiva
Gênero: Drama
Origem: Brasil
Duração: 106 minutos (1h46)
Exibido no 25º Tribeca Film Festival (Competição Internacional)
Sinopse: Sabrina, moradora de uma comunidade do Rio de Janeiro, sonha com o sucesso como cantora de funk, e decide perseguir seus desejos.
English review
Powered by two outstanding performances, Funk simplifies and idealizes a troubled reality in a superficial journey that ultimately succumbs to the very criticisms it seeks to make about the objectification of women within the music industry.

For the second consecutive year, the Tribeca Festival in New York has included a Brazilian feature film in its official selection whose central focus is the favelas of Rio de Janeiro and their culture. At last year's festival, Kites, directed by American filmmaker Walter Thompson-Hernandez and screened in the Viewpoints section, offered a problematic portrayal of this environment, as though made by someone with little understanding of Brazil, presenting a foreign perspective entirely detached from the country's concrete reality.
At the very least, Funk, screened this year in Tribeca's International Competition, rises above those particular issues, possessing a genuinely Brazilian soul, with production by Heitor Dhalia and a screenplay and directing collaboration from Aly Muritiba, responsible for some of the most memorable works in contemporary Brazilian cinema, including the excellent queer drama Private Desert (2021). It was an excellent recipe for success, one that unfortunately never fully materializes.
Written by four screenwriters (Fernando Barcellos, Taísa Machado, Aly Muritiba, and Leandro Saraiva), Funk often feels more like the unfinished draft of a story still under construction than a script truly ready to be filmed. Focusing on the rise of a young woman within the Brazilian funk scene, the popularity of the genre in Rio's favelas, and the local culture immersed in the context of police violence and organized crime, it tells the story of Sabrina, known within her community as MC Sabrina, as she ascends into the music industry. Along the way, she faces an environment dominated by men and the challenge of being respected - rather than merely objectified - in a world that is fundamentally stacked against her.
The premise is not uncommon in recent cinema, particularly in American films dealing with music-related themes and the challenges of rising within highly competitive industries marked by conflict and various forms of violence, especially against women, and within the relationships that exist between artists, managers, producers, sponsors, and the broader world of social media and hyperconnectivity. Duda Santos is undoubtedly the film's greatest strength, crafting a believable character who feels like a real person, deeply human in her intentions, immersed in a journey that gradually carries her farther away from the favela she once viewed as a springboard toward a better life, while simultaneously distancing herself from the community that shaped her.
The problem is that, over nearly two hours, the film introduces and establishes far more ideas and narrative elements than it is either willing or able to develop. This is particularly evident in the protagonist's conflicted relationship with her mother, who is also excellently portrayed by MC Nem, another major highlight. Their dynamic is filled with contradictory moments that seem to originate from entirely different versions of the screenplay, lacking consistency in the emotions they genuinely feel toward one another and in the progression of their relationship. Most of the time, the mother's apparent jealousy regarding her daughter's success and life choices remains stagnant, endlessly reinforced without meaningful development as the film continues - making the final scene feel unjustified, as the narrative never does enough work to make that conclusion understandable to the audience, who are left struggling to comprehend Sabrina's decisions and her approach to her family circumstances.
Similarly, Sabrina's meteoric rise receives surprisingly little attention after the film spends so much time establishing relationships and contexts that ultimately prove insignificant to the larger narrative - such as the fact that her brother is the criminal leader of the community where she lives, a detail increasingly pushed aside as the film approaches its conclusion. As a result, the passage of time becomes excessively accelerated, reducing situations that deserved greater attention to simplistic narrative shortcuts, making much of the story feel generic and familiar from countless other films. Perhaps the most interesting aspect of this trajectory is Sabrina's gradual distancing from her own musical identity, moving toward a pop sound merely flavored with elements of funk - an intriguing discussion that the film also leaves largely unexplored.
Because of this rushed narrative approach, prioritizing generic plot developments over emotional depth, feelings are pushed into the background whenever the story needs to move forward. In doing so, the film ultimately falls victim to its primary criticism: the objectification of women. Sabrina is rarely allowed to assert herself meaningfully in the situations she faces, contradicting the film's own discourse by continuing to perform songs that place her in a submissive position relative to masculinity, while repeatedly yielding to the industry and society around her, as though abandoning any struggle for more equal treatment, even within her own community. Her body itself becomes subject to this objectification through the camera's gaze, as only women are shown nude despite numerous scenes involving sexual encounters between both men and women.
At its core, Muritiba's film does not stray nearly as far from Thompson-Hernandez's portrayal in Kites as it perhaps intends. Funk excessively romanticizes favela life, idealizing the musical community while normalizing - even if unintentionally - the objectification of women as a cultural element. This creates a contradiction with the intentions the narrative itself expresses, as it unsuccessfully attempts to frame Sabrina as a powerful woman in control of her own destiny, a vision that never fully comes to fruition. Everything surrounding the protagonist feels at odds with itself, as though distinct stories written by different screenwriters were stitched together without sufficient refinement before being filmed and assembled as best as possible in the editing room.
I am disappointed that I was unable to connect with the film, especially given its role as a Brazilian representative in such an important section of a prestigious festival like Tribeca - though I should emphasize that the awards received by its actors are entirely deserved, as the performances are unquestionably the film's greatest strength. At the same time, I cannot help but feel frustrated by this portrayal, which often seems designed more to attract and fascinate a foreign audience than to represent Brazilians themselves, who understand the realities of the country and can recognize when excessive idealization reinforces stereotypes and presents a vision that, in general, does not truly reflect who we are.
Funk premiered at 25th Tribeca Film Festival (International Competition).


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