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CRÍTICA | A Extraordinária Vida de Ibelin, de Benjamin Ree (Ibelin, 2024)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 20 de fev. de 2025
  • 4 min de leitura

Com a história de Mats Steen, A Extraordinária Vida de Ibelin prova o poder transformador dos jogos online – da melhor forma.



Mats Steen viveu pouco mais de vinte e cinco anos neste mundo. Mas, apesar de um quarto de século não parecer muito tempo, para este jovem norueguês foi o suficiente para deixar uma marca na vida de muitos que tiveram o prazer de conhece-lo em vida, ainda que por detrás das telas e através da internet.

 

Acometido por uma doença muscular degenerativa desde o seu nascimento, aos poucos Mats foi perdendo seus movimentos corporais. Enquanto outras crianças corriam, brincavam, se exercitavam e praticavam esportes, o enfraquecimento constante e gradativo o impedia cada vez mais de se mexer, primeiro retirando sua liberdade de andar livremente, ação que se tornara cada vez mais difícil, e posteriormente o impedindo de utilizar seus braços e até falar. Impossibilitado de explorar o mundo como ele é, Mats encontrou uma solução por meio do computador, em um universo chamado World of Warcraft.

 

Seus pais se entristeciam, em ver o próprio filho sem poder das asas ao livre arbítrio, e o imaginavam como alguém incapaz de experienciar os mais comuns sentimentos do ciclo da vida, de criança à adulto, de se apaixonar e encontrar alguém para amá-lo de volta da mesma maneira. O que não sabiam, porém, é que seu tempo online, que possivelmente chegou à casa das 20 mil horas na soma de seus últimos anos, o permitiram viver muito mais do que o esperado, a partir de ‘Ibelin’, como era chamado o personagem que havia criado e interpretava no jogo online.

 

Assim, em A Extraordinária Vida de Ibelin, a direção de Benjamin Ree constrói dois retratos distintos: em casa, Mats era um jovem solitário, doce, amado pela família, amante de jogos online, e cada vez mais debilitado em razão de sua doença incurável, ilustrado com vídeos caseiros que o mostravam ao longo da vida, do nascimento a seu último ano; de onde começara a jogar, ao seu último quarto, quando, depois de adulto, teve a oportunidade de morar sozinho, ainda que no mesmo terreno de seus pais. Mas Ibelin, em contrapartida, era o Mats de verdade, e como gostaria de ser no mundo real. Falante, preocupado com o próximo e bom ouvinte, seu personagem se apresentava como um detetive particular – e de fato agia como um.

 

A medida em que conhecia pessoas no mundo de seu jogo online – inclusive a guilda em cujo servidor jogou ativamente durante mais de oito anos, até fazer sua passagem -, naturalmente encontrava maneiras de marcar as vidas de com quem cruzava, apenas sendo quem era. Ao longo do documentário, Ree busca por alguma dessas pessoas, para contar como nasceram as relações entre elas e Ibelin, dentro do jogo, e o como foram impactados em suas vidas para fora do mundo online, do encanto de seu charme como um homem romântico, que seguia os passos do próprio coração, como ele mesmo chegou a dizer; até a manutenção da relação entre uma mãe e seu filho, conectados através do jogo online.

 

Aos poucos, a medida em que avança, com inteligência o diretor subverte todas as imagens de arquivo que mostrara, sob outra perspectiva – não mais de um jovem doente, mas de alguém que encontrou um lugar no qual, apesar das circunstâncias, pode ser quem realmente é, e que, ao contrário das expectativas depositadas pelo senso comum, provou ser uma pessoa com uma compreensão de mundo não apenas madura, mas até mesmo otimista.

 

Tudo isso só foi possível com os registros mantidos pelo presidente da guilda, que ao longo de todo esse tempo manteve salvas todas as falas e descrições das ações tomadas no servidor, totalizando mais de quarenta mil páginas de conteúdo. Alguns desses momentos “in-game” foram animados pelo documentarista e sua equipe utilizando os modelos de World of Warcraft, a fim de ilustrar momentos-chave em que Mats/Ibelin, duas faces de uma mesma persona, mostraram quem era e até se confundiram, mesmo quando inseguro e chateado.

 

Assim, A Extraordinária Vida de Ibelin não apenas serve como um tributo a Mats, dez anos após seu falecimento, o qual nunca foi esquecido pelas vidas que tocara e amigos que fizera, mas também milita, positivamente, em prol de uma visão do universo dos jogos online como ambiente de refúgio, como fora para o protagonista e também para parte de seus amigos. Claro que uma vida inteiramente pautada em realidades virtuais não é completamente saudável, mas ainda existe um preconceito, que há de ser superado, para com suas benesses, e não apenas o que se supõe serem vidas fictícias. É uma questão de respeito, e, ao invés de julgar o outro por suas escolhas, há de tentar compreendê-lo, e, quem sabe, se surpreender. E a extraordinária vida de Mets é prova disso.

 

Avaliação: 5/5

 

A Extraordinária Vida de Ibelin (Ibelin, 2024)

Direção: Benjamin Ree

Roteiro: Benjamin Ree

Gênero: Documentário

Origem: Noruega

Duração: 103 minutos (1h43)

Disponível: Netflix

 

Sinopse: Mats Steen, um gamer norueguês, morreu de uma doença muscular degenerativa aos 25 anos. Seus pais lamentaram o que pensavam ter sido uma vida solitária e isolada, quando começaram a receber mensagens de amigos on-line de todo o mundo.

(Fonte: IMDB - Adaptado)

 
 
 

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