top of page

48º CINEMA DU RÉEL | Shot Reverse Shot, de Radu Jude e Adrian Cioflâncă (Plan Contraplan, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 6 dias
  • 5 min de leitura

Radu Jude e Adrian Cioflâncă revisitam a Romênia da era Ceaușescu em duelo fotográfico, abordando uma visão aos olhos de um estrangeiro, e outra do Estado que o vigiava.


 

Há dois anos, lembro-me de ter assistido no festival Olhar de Cinema, em Curitiba, o interessante documentário I'm Not Everything I Want to Be, de Klára Tasovská, inclusive selecionado como representante da República Checa no Oscar 2026. No filme, a fotógrafa checa Libuše Jarcovjáková revisita memórias do passado, entre suas memórias de Praga, Berlim e Tóquio durante a Guerra Fria, a partir dos próprios registros fotográficos que fizera ao longo desse período. Trata-se de uma viagem sincera, e de um retrato pessoal daquele tempo, aos olhos de Jarcovjáková.

 

Não é muito diferente, então, daquilo que Radu Jude e Adrian Cioflâncă constroem no curta documental Shot Reverse Shot, a partir de um duelo de perspectivas imagéticas, versando sobre a visita do fotógrafo e jornalista norte-americano Edward Serotta à Romênia, no final dos anos 1980, ainda sob o governo comunista do autoritário Nicolae Ceaușescu, alinhado ao bloco da então União Soviética.

 

Em um primeiro momento, suas fotografias são exibidas em tela, acompanhadas pela voz do jornalista, ao fundo, a qual revela brevemente sua experiência no país, desde os preparativos, documentação, explicando a maneira pela qual conseguiu entrar, bem com seus objetivos, intenções, e interesses particulares descobertos no decorrer de sua estadia. Ao longo de seus dias naquela Romênia fechada ao ocidente, oprimida pelo Estado rigoroso em regime ditatorial, sua visita despertou interesse pela maneira como se encontrava uma pluralidade cultural disposta no local. Sua atenção, durante bastante tempo, voltou-se à comunidade judaica, e os efeitos da Segunda Guerra e do Holocausto ainda sentido por aquelas pessoas, das quais muitas eram sobreviventes.

 

Ao mesmo tempo, suas fotografias, ainda que de maneira relativamente velada, justamente a fim de não atrair atenção indesejada de setores governamentais, que certamente o acompanhavam, conforme as próprias desconfianças, retratavam a dura realidade de um povo perseverante, que vivia abastecido com poucos recursos – racionados, inclusive –, e muitas vezes sequer providos de comida, leite e outros mantimentos, rigorosamente controlados pelo Estado.

 

Quando essa fórmula começa a se esgotar, em virtude do baixo dinamismo narrativo por ela conferido, juntamente à elevada repetição, a dupla de cineastas surpreende o espectador com uma virada. Tendo o fotógrafo mencionado que era sempre seguido e acompanhado por agentes do governo disfarçados, registros de sua presença no país aos olhos do Estado se tornam o foco do contraplano. Por onde passara, com quem conversara, o que fizeram e o que fotografara são elementos daquilo que foi inserido em um dossiê com seu nome, este obtido posteriormente à derrubada do ditador, ainda ao final da década de 1980.

 

Características comportamentais foram analisadas para o acaso de desrespeito à nação, ao governo e a imagem que gostariam de passar ao mundo, bem como diversas fotos suas foram tiradas, de longe, ao lado de suas companhias de viagem. Até mesmo as fotos tiradas se tornam objeto de anotação, em um arquivo completo, que traz uma visão externa da jornada de Serotta sobre a Romênia oitentista. As anotações realizadas ao tempo pelos agentes são lidas, em voz alta, no mesmo formato anterior, agora por uma rígida voz feminina, que personifica um Estado controlador.

 

Dessa forma, Shot Reverse Shot é um curta documental que conhece dos limites da exaustão do formato adotado, e potencializa sua duração, com pouco mais de vinte minutos, na forma de um duelo capturado entre câmeras, apostando na surpresa a possibilidade de obter fôlego para a continuidade da narrativa, sob outro ponto de vista. É mais uma surpresa agradável com a assinatura de Radu Jude, desta vez juntamente com Adrian Cioflâncă, no qual experimenta criativamente com a forma documental, novamente em um retrato da Romênia, num complemento à própria filmografia, ao tratar do passado como forma de justificar o presente do país e sua sociedade.

 

Avaliação: 4/5

 

Shot Reverse Shot (Plan contraplan, 2026)

Direção: Radu Jude e Adrian Cioflâncă

Gênero: Documentário

Origem: Romênia

Duração: 22 minutos (0h22)

Exibido no 48º Cinema du Réel (Competitiva)

 

Sinopse: Entre 1985 e 1987, o jornalista norte-americano Edward Serotta fotografou o cotidiano na Romênia comunista. Em contrapartida, a Securitate o fotografou secretamente. Quarenta anos depois, os dois arquivos se encontram em um campo e contracampo que revela a ironia da História.


 

English review


Radu Jude and Adrian Cioflâncă revisit Romania during the Ceaușescu era through a photographic duel, contrasting the vision of a foreign observer with that of the State that surveilled him.

 

Two years ago, I remember attending the Olhar de Cinema festival in Curitiba, where I watched the compelling documentary I'm Not Everything I Want to Be, by Klára Tasovská, which was even selected as the Czech Republic’s submission for the 2026 Academy Awards. In that film, Czech photographer Libuše Jarcovjáková revisits her past through her own photographic records, reflecting on memories of Prague, Berlin, and Tokyo during the Cold War. It is a sincere journey, and a deeply personal portrait of that era through her eyes.

 

It is not so different, then, from what Jude and Cioflâncă construct in the documentary short Shot Reverse Shot, built upon a clash of visual perspectives surrounding the visit of American photographer and journalist Edward Serotta to Romania in the late 1980s, still under the authoritarian communist rule of Nicolae Ceaușescu, aligned with the Soviet bloc.

 

At first, Serotta’s photographs are displayed on screen, accompanied by his voice in the background, briefly recounting his experience in the country - from the preparations and documentation required to enter, to his objectives, intentions, and the personal interests he developed throughout his stay. During his time in that Romania, closed off to the West and oppressed by a rigid dictatorial regime, his visit revealed a surprising cultural plurality. For much of his stay, his attention turned to the Jewish community, and to the lingering effects of World War II and the Holocaust, still deeply felt by many survivors.

 

At the same time, his photographs - albeit in a relatively discreet manner, precisely to avoid drawing unwanted attention from government authorities who, as he suspected, were closely monitoring him - captured the harsh reality of a resilient population living with scarce resources, often rationed, and frequently deprived of basic necessities such as food and milk, all strictly controlled by the State.

 

Just as this formal approach begins to exhaust itself - due to its limited dynamism and repetition - the filmmakers surprise the viewer with a shift. Having mentioned that he was constantly followed by undercover government agents, the film then pivots to the counter-shot: records of his presence in the country as seen through the eyes of the State. Where he went, whom he met, what he did, and what he photographed - all of this appears in a dossier compiled under his name, later obtained after the fall of the regime in the late 1980s.

 

Behavioral traits were analyzed in case of any perceived disrespect toward the nation, the government, or the image it sought to project to the world. Numerous photographs of Serotta himself were taken from a distance, capturing him alongside his companions. Even the images he took became objects of scrutiny, meticulously cataloged in a comprehensive archive that offers an external perspective on his journey through 1980s Romania. The agents’ notes, written at the time, are read aloud in the same format as before, now by a stern female voice that embodies the controlling State.

 

In this way, Shot Reverse Shot is a documentary short that understands the limits of the format it adopts and cleverly expands its impact within a runtime of just over twenty minutes. By embracing the element of surprise and shifting perspectives, it breathes new life into its own structure, transforming into a duel captured between cameras. It stands as yet another compelling work bearing the signature of Radu Jude - this time alongside Adrian Cioflâncă - as they creatively experiment with documentary form, once again portraying Romania’s past as a way of illuminating the country’s present and its society.

Comentários


© 2024 por Henrique Debski/Cineolhar - Criado com Wix.com

bottom of page