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CRÍTICA | A Noiva!, de Maggie Gyllenhaal (The Bride!, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 17 de mar.
  • 5 min de leitura

Com proposta ousada, em releitura da figura de Frankenstein a partir da Noiva, Maggie Gyllenhaal possui sua protagonista com o espírito de Mary Shelley em jornada de amor, aceitação e revolução feminista através de uma sociedade misógina.


 

Em tempos de uma Hollywood desprovida de ousadia, mais interessada em vender sequências, spin-offs e refilmagens de obras e franquias já consagradas do que propriamente arriscar em novidades, conferindo liberdade artística a seus realizadores, um filme como A Noiva! sobe quase à mesma prateleira ocupada, no ano passado, pelo excelente Pecadores.

 

Em uma onda de interesse pelo cinema contemporâneo lançada em face dos monstros clássicos (como Drácula, Frankenstein e a Múmia), que vêm recebendo novas versões recentemente, tanto pelos grandes estúdios quanto por realizadores menores e até ao redor do mundo, em A Noiva! Maggie Gyllenhaal foge à curva em sua abordagem diferenciada na maneira como constrói a Noiva de Frankenstein.

 

Em que pese os personagens tratarem-se de clássicos e conhecidos do imaginário popular, baseados na literatura e no próprio cinema, presentes em diversos longas no decorrer dos últimos quase cem anos, a proposta trazida à baila pela cineasta diferencia-se de tudo o que concerne a Frankenstein. A começar pelo fato de a obra base ter sido concebida por uma mulher, Mary Shelley, no início do século XIX, em tempos de representatividade feminina infinitamente mais restrita, dentro de uma sociedade predominantemente patriarcal, o filme se inicia com uma materialização da autora, em preto e branco, e um monólogo. O prólogo serve como introdução à protagonista, que futuramente se tornará a Noiva, envolta de mafiosos, em ambiente hostil, e vítima de violências diversas à plena luz de um todo um restaurante, em uma noite de casa lotada. É em plena década de 1930, época de ainda muito preconceito para todos os lados, de condutas, hoje entendidas como inaceitáveis, vistas como atitudes normais, de uma exclusão social latente e sendo a misoginia parte do cotidiano.

 

A possessão da personagem pelo espírito da autora a faz, na prática, revelar suas verdadeiras filosofias e pensamentos em relação a sociedade na qual vive, em uma rebelião à decadência da própria situação. A repressão de sua personalidade, para se encaixar àquele ambiente e encontrar-se na companhia daqueles homens, é abandonada, o que a leva diretamente ao encontro da morte quando sua voz passa a se sobrepor às das figuras masculinas no local. Sua posterior reanimação (em grande inspiração estética no Expressionismo Alemão), por uma cientista, então, a faz se tornar a Noiva, uma mescla do espírito possuidor de Mary Shelley com a libertação da verdadeira Ida, a personagem falecida.

 

O Frankenstein, nesse contexto, torna-se coadjuvante, e é tratado pela narrativa de Gyllenhaal como instrumento para o estabelecer e desenvolver do conflito – como fora tratada a Noiva em outras obras do personagem –, ainda que dotado de bastante tempo de tela, enquanto um par romântico. Assim, a Noiva e Frankenstein saem em uma jornada de amor pelas estradas dos Estados Unidos, enquanto um casal monstruoso vivendo à margem da sociedade.

 

Com grandes inspirações em Bonnie e Clyde, conhecido casal de ladrões de banco norte-americanos dos anos 1930, e nos filmes que os retratam e contam suas histórias (como o clássico da Nova Hollywood, dirigido por Arthur Penn), a cineasta os compara às figuras de seus protagonistas, no entanto a partir de uma subversão que os leva ao caminho contrário: enquanto aqueles espalhavam medo em razão dos crimes que cometiam, e da violência que propagavam pelas cidades em que passavam, a Noiva e seu Frankenstein são excluídos perante a sociedade. A violência deles emanada surge tão somente como uma reação à hostilidade que sofrem de pessoas que, ao não os aceitarem por suas diferenças, sobretudo físicas, os destratam e agridem fisicamente, tratando-os como ameaças, ao ponto de assim se tornarem de fato. Os personagens assumem a representação, sob o manto da alegoria, de um processo comum à História, de vilanizar grupos minoritários compostos por pessoas diferentes da maioria, conforme comumente ocorre às comunidades estrangeiras (xenofobia), em razão da cor da pele (racismo), religião, cultura, etc.

 

Ademais, diante do descaso, já durante muito tempo sofrido por Frankenstein, de maneira apática, sem reação à hostilidade, a Noiva chega como um ponto de virada para ambos. Assumindo flashes de sua memória passada, como Ida, de quem pouco se recorda – e a quem conhecemos a partir de um arco investigativo do rastro deixado pelos monstros –, e possuída pelo espírito de Mary Shelley, a Noiva, incrivelmente bem vivida por Jesse Buckley, incorpora o espírito do feminismo (representado, na narrativa, pela autora, uma mulher à frente de seu tempo), e transforma seu desabafo no pontapé inicial de uma revolução em plena década de 1930.

 

É curioso como Gyllenhaal trabalha seu discurso de reação, a partir da causa feminista, com o cuidado de não cair em uma armadilha reacionária por acidente. Ao compreendermos a relação estabelecida entre a Noiva, Ida, a quem pertenceu seu corpo, e Mary Shelley, a citação aos nomes de mulheres assassinadas em casos de feminicídio tornam sua luta, inicialmente de vingança, e posteriormente de mudança, segmentada à comportamentos, grupos e mentalidades específicas da sociedade. Não se trata de uma luta contra os homens em geral, e tampouco recai em uma violência generalizada, mas em uma caça à mafiosos, “feminicidas”, e sobretudo, à normalização de comportamentos misóginos e justificativas para tais crimes hediondos e comportamentos nefastos – como a absurda “legítima defesa da honra”, proibida perante os Tribunais brasileiros.

 

Suas personagens são, em maioria, mulheres que se encontram nas mesmas situações e cenários de Ida/Noiva – é a médica responsável pela reanimação; a policial, que almejava o cargo de detetive; e a própria Mary Shelley, escrevendo horror e ficção-científica em um período cuja literatura, o gênero e o mercado eram dominados por homens.

 

Gyllenhaal traz muito disso também para fora das telas, a partir da equipe repleta de mulheres, em uma produção de grande porte, corajosa não apenas em seus discursos, mas também na maneira como os explora em tela. A diretora experimenta com a montagem, a partir das sequências de possessão, dos discursos verborrágicos que emanam a autora, da contraposição entre o preto e branco e o excesso de cores, na fotografia assinada por Lawrence Sher, e até pelo emprego de recursos contemporâneos ao nosso tempo impressos em plena década de 1930, como as festas e baladas, nas quais os personagens se envolvem, em sequências que por vezes nos remetem a elementos de fantasia típicos de Tim Burton.

 

A Noiva! surpreende pela maneira como não apenas experimenta, narrativa e imageticamente, em uma produção de noventa milhões de dólares, mas também em como articula sua mensagem sem pudores ou limitações, subvertendo elementos clássicos de monstros do cinema a partir de uma leitura feminista com a figura de sua Noiva, em uma homenagem à autora Mary Shelley, e um discurso de reação à violência de gênero sob uma aventura que mescla terror, fantasia e ficção científica, com referências sob medida. No fundo, se torna o que Coringa: Delírio a Dois prometia ser, de maneira ainda melhor e mais criativa.

 

Avaliação: 4.5/5

 

A Noiva! (The Bride!, 2026)

Direção: Maggie Gyllenhaal

Roteiro: Maggie Gyllenhaal

Gênero: Thriller, Drama, Romance, Terror

Origem: EUA, França

Duração: 126 minutos (2h06)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: Na década de 1930, Frankenstein viaja a Chicago em busca da Dra. Euphronius para ajudá-lo a criar uma companheira. Juntos, eles revivem uma jovem assassinada, dando origem à Noiva, uma criação que supera todas as expectativas. Porém, sua existência desencadeia um romance explosivo, atrai a atenção da polícia, de mafiosos, e dá início a um movimento social intenso e radical.

 
 
 

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