CRÍTICA | Bailarina, de Len Wiseman (Ballerina, 2025)
- Henrique Debski

- 9 de jun. de 2025
- 4 min de leitura
Mesmo com uma história de vingança padrão, Bailarina mantém o que funciona no universo de John Wick em spin-off que aceita o drama e faz da ação sua força motriz.

Já era de se esperar que, com o sucesso da franquia John Wick nos cinemas, logo os spin-offs haveriam de chegar. Em um primeiro momento, a minissérie The Continental: From the World of John Wick, sem a presença de Chad Stahelsi ou Keanu Reeves na produção, por detrás das câmeras, foi uma tentativa de expandir esse universo, com uma prequel voltada às origens de Winston, o gerente do famoso hotel Continental. Mas sem todo aquele charme dos filmes, a fotografia escura e a produção econômica, com sua estética televisiva, nada mais foi do que uma ideia interessante em um projeto arrastado, genérico até na ação, e limitado por sua própria natureza.
Em contrapartida, Bailarina surge como o primeiro spin-off lançado nos cinemas, e com uma proposta contemporânea à franquia principal, se passando entre dois filmes, voltada a uma personagem até então não conhecida, associada ao temido grupo Ruska Roma, em busca de uma perigosa vingança pessoal que pode se transformar em algo muito maior, e vincular pessoas para muito além de si mesma – uma versão maior, ainda que sem tanto charme narrativo, do que já vimos no filme de 2014.
Na contramão de uma proposta com seriedade, como The Continental, que se filia mais à estética do primeiro longa da franquia, tanto na atmosfera escura, com tons esverdeados, e no próprio drama, Bailarina abre espaço à iluminação neon dos últimos filmes, e sobretudo deixa ainda mais espaço para se divertir com a galhofa.
Ao longo da narrativa, passamos por diversas vezes referências ao universo em que se encontra, do Continental (com as presenças de Ian McShane e Lance Riddick, possivelmente em seu último filme lançado); o grupo de assassinos a que pertence, liderado por Angelica Huston, em sua persona excêntrica, ainda que subaproveitada; e até mesmo a presença do próprio John Wick em certas oportunidades chave, servindo desnecessariamente como um “deus ex-machina”.
Acontece que, ao longo de duas horas de projeção, nessa jornada mais ficamos diante de um reforço ao funcionamento de um universo que já conhecemos do que efetivamente assistimos a um filme que se dedica a expandi-lo. A Ruska Roma, por exemplo, não passa de uma mera organização criminosa, como já havíamos visto, cujos símbolos e filosofias, ainda que apresentados, nunca tem espaço para serem aprofundados ou tomar qualquer significado à jornada de vingança da protagonista de Ana de Armas, Eve, que justamente deles deveria se aproveitar para guia-la após o treinamento. O mesmo acaba servindo também aos antagonistas, mesmo que nesse aspecto o roteiro assinado por Shay Hatten demonstre mais cuidado, ao colocar a personagem em meio a um conflito que, em um primeiro momento, não parece lhe pertencer, até começar a apresentar desdobramentos poéticos e simétricos em relação à própria história – o que inclusive serve como diferencial aos filmes de John Wick, com a inserção de um certo melodrama cafona, mas divertido, na forma de uma reviravolta.
O que, por outro lado, apesar da ausência de uma expansão mais contundente ao universo, muito bem se mantém em Bailarina é a ação como força motriz para o avançar da narrativa. Justamente em posição de protagonismo, a direção de Len Wiseman, com o toque de Chad Stahelski, durante o período de refilmagens, segue em uma mesma linha dos últimos longas da franquia, sob o pretexto de explorar com certa experimentação as sequências de ação, até de maneira fantasiosa, e buscar por situações criativas e se utilizando de ambientes e objetos improváveis como armas.
No ponto de vista da imagem, é algo que funciona muito bem, enquanto a câmera persegue a protagonista em meio aos combates, e, enquanto uma jovem inexperiente buscando vingança pessoal por seu passado, ao contrário de John Wick, Eve faz uso da criatividade como forma de defesa – vide a junção de uma pistola com uma faca, ou as granadas -, enquanto o corpo a corpo se restringe a situações e momentos específicos, secundários. É até interessante um toque dos anos 2000 trazido pelo longa, talvez fruto desse ar de Wiseman, no excesso de explosões e até em uma artificialidade da montagem em repetir um mesmo momento a partir de ângulos diferentes.
Com um ar de mistério e investigação, na base de uma trilha que evoca o estilo do universo, e cada vez mais nos imerge a esse mundo, Bailarina é de longe o mais “genérico” dos filmes da franquia John Wick, e apesar de se ancorar no que já deu certo anteriormente, carrega e leva adiante o estilo desse mundo com competência, ao ponto de mostrar-se um bom pontapé inicial para uma nova franquia, que talvez na próxima entrada possa caminhar sozinha, com as próprias pernas, sem depender da presença do personagem de Keanu Reeves, ou outras conexões desnecessárias para situá-lo naquela realidade.
Avaliação: 4/5
Bailarina (Ballerina: From the World of John Wick, 2025)
Direção: Len Wiseman
Roteiro: Shay Hatten
Gênero: Ação, Thriller
Origem: EUA, Hungria
Duração: 124 minutos (2h04)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Uma assassina treinada nas tradições da organização Ruska Roma sai em busca de vingança pela morte de seu pai. (Fonte: IMDB)



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