CRÍTICA | A Grande Viagem da Sua Vida, de Kogonada (A Big Bold Beautiful Journey, 2025)
- Henrique Debski

- 2 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Kogonada usa da fantasia para materializar diálogos entre os personagens em um primeiro encontro, ajudando um ao outro a conhecer de si e seguir adiante as próprias vidas, enquanto constroem, juntos, uma relação.

Em certo aspecto, A Grande Viagem da Sua Vida se enquadra dentro de um padrão específico de comédias românticas envolvendo fantasia bastante comum ao cinema norte-americano, sobretudo nos anos 2000 e início dos anos 2010. Depois de uma década com esse subgênero da comédia renegada a meras adições de catálogo nos streamings, muitas vezes reciclando ideias já batidas e até refilmando sem inspiração ou vontade obras daquele tempo – algo que continua a acontecer -, é muito legal sentir que as comédias românticas estão, lentamente, voltando a encontrar lugar nas salas de cinema, com algum refresco, e mais ainda, na atenção do público.
A base do retorno a pontos específicos do passado e a exploração da própria vida e importância talvez seja um elemento dramático comum, idealizado, uma primeira vez, com popularidade, na década de 1940 no clássico natalino A Felicidade Não Se Compra, e retrabalhado por diversas vezes, das mais criativas e variadas formas, entre Click, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças e tantos outros. Nesse sentido, em A Grande Viagem de Sua Vida, o roteirista Seth Reiss o ressignifica para construir, no entorno da fantasia, uma metáfora ao diálogo nos relacionamentos, e a superação do próprio passado como forma de engatar em novas fases da vida.
Seguindo uma estrutura básica de roteiro, linear mas igualmente eficaz à proposta, o aspecto fantasioso “substitui”, em frente à câmera, horas de diálogo quando, a partir de uma viagem surrealista, o casal protagonista, recém-conhecido, embarca, junto, em uma jornada sobre as próprias vidas, através de passagens relevantes de suas vivências, responsáveis por formar as pessoas que são no presente.
O que eventualmente começa como lembranças comuns de um passado igualmente comum – um lugar da infância ou um corredor de escola – aos poucos vai-se adentrando aos momentos decisivos das próprias infâncias, adolescências e, especialmente, da vida adulta. É quando compreendemos o como as relações familiares estabelecidas pelo casal protagonista, dentro da própria casa, moldou suas personalidades para com a vida adulta, na forma de um espelhamento do próprio ambiente impresso na personalidade, nos bons e nos maus aspectos, de mãe e de pai, presentes ou ausentes.
Na mesma medida em que os personagens conhecem a si mesmos, olhando, e até manipulando, o passado, e seus pontos de vista, sob as lentes do presente, e de quem se tornaram, compreendendo como determinados eventos os impactaram, a direção de Kogonada é habilidosa ao também construir, ao mesmo tempo, uma terceira personagem dentro dessa jornada: o “nós”.
É a partir do elemento conjunto que tanto Colin Farrell quanto Margot Robbie não apenas transformam, internamente, mas também, ainda que não intencionalmente, se desconstroem perante um ao outro. O semblante abatido e aparentemente tímido de Farrell, por exemplo, é exposto quase como uma reviravolta, na forma de motivações que ele não necessariamente parece demonstrar ao longo do primeiro ato, quando o conhecemos no momento inicial. Da mesma forma, o ar rígido e até um tanto grosseiro de Robbie, que se faz de muito resolvida consigo, e feliz sozinha, torna-se um véu transparente que logo a desmascara em sua própria trágica solidão.
Na prática, toda essa jornada fantasiosa que fazem através de um carro com um GPS autônomo falante, portas mágicas que os levam para momentos do passado, e oportunidade de se enxergarem através de outro ângulos nada mais seria do que uma forma de encenar, por meio do elemento fantástico, uma conversa íntima de desabafo travada entre o casal no momento em que se conhecem, na qual apenas falam as verdades sobre si um para o outro, e buscam, de maneira recíproca, fazer com que possam enxergar as próprias vidas sob pontos de vista diversos.
Dessa maneira, ainda que talvez o projeto “mais comercial” assinado por Kogonada (sem contar os episódios de Star Wars: The Acolyte que dirigiu em 2024), é ainda um projeto no qual é plenamente possível de se encontrar a alma de um diretor inventivo no trato das relações, e na relação com a comédia romântica, conduzida com emoção e humor na medida certa – e uma baita química entre os protagonistas -, para não perder seu ponto central, ao mesmo tempo que também se enxerga elementos habituais do roteirista Seth Reiss, no uso do fantástico e de certo estranhamento para construir relações que dialogam com comportamentos sociais do presente – como fizera em O Menu. É uma comédia romântica agridoce com um leve tom açucarado, no bom sentido, capaz de nos fazer sair da sessão justamente questionando nossas próprias vivências, e quem sabe buscando outras visões para um fato talvez há tanto tempo consolidado em nossas mentes, mas não da melhor maneira. Foi como sair do filme leve, e ao mesmo tempo, pensativo, como em uma boa sessão de terapia – justamente uma ótima experiência de cinema, a que transcende a projeção e que levamos para casa, em nossas mentes.
Avaliação: 4/5
A Grande Viagem da Sua Vida (A Big Bold Beautiful Journey, 2025)
Direção: Kogonada
Roteiro: Seth Reiss
Gênero: Romance, Comédia, Drama
Origem: EUA, Irlanda
Duração: 109 minutos (1h49)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Por uma surpreendente reviravolta do destino, os solteiros Sarah e David têm a chance de reviver momentos importantes de seus respectivos passados, revelando como chegaram ao ponto em que estão no presente, e com a possibilidade de repensar no futuro.



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