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CRÍTICA | A Longa Marcha, de Francis Lawrence (The Long Walk, 2025)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 22 de set. de 2025
  • 5 min de leitura

Francis Lawrence constrói uma distopia mais contida, mas igualmente opressora, e faz d’A Longa Marcha um instrumento de debate sobre o mundo contemporâneo: desde quando nos tornamos tão conformistas?


 

A filmografia de Francis Lawrence pode não contar com as obras mais autorais, e estão longe de reinventar a roda cinematográfica. Com certa dose de elegância e estilo próprio, trata-se de um cineasta muito voltado às adaptações, responsável por levar às telas dos cinemas universos da literatura e quadrinhos, os materializando perante o olhar do espectador em carne e osso – algo que fez muito bem na condução da franquia Jogos Vorazes, a partir do segundo longa, e repetiu o feito com o spin-off A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes. Nessa esteira, é curioso o fato de que podemos encontrar no totalitarismo um denominador comum a quase todos os filmes que dirigiu (com algumas exceções, claro), sob aspectos revolucionários, e de defensores da liberdade.

 

Apesar de um projeto completamente distinto de Jogos Vorazes, por exemplo, A Longa Marcha: Caminhe ou Morra segue precisamente este interesse de Lawrence, mas em diferentes padrões estéticos, indo quase na direção contrária. Se a franquia estabelece um estado autoritário forte e de proporções megalomaníacas, em uma analogia formal à obras como 1984, de Orwell, na questão tecnológica da hipervigilância – e nos próprios elementos de ficção científica que integram a narrativa, junto da ação dos próprios jogos -, o presente trata-se de uma distopia infinitamente mais contida em termos formais, mas igualmente acachapante na forma como controla seus cidadãos, em uma caricatura à cultura norte-americana, armamentista e conformista, também regada a uma natural vigilância governamental.

 

Fala-se em uma grande guerra que tomou e dividiu os Estados Unidos cerca de uma década antes dos acontecimentos do filme. Num país desestruturado, sem recursos financeiros para se reconstruir, e com uma população sem perspectiva de uma realidade melhor, um governo autoritário sobreveio ao controle e criou “A Longa Marcha”, como forma de, não apenas controlar a massa através de um pão e circo com transmissão em tempo real via televisão, mas também encorajar seus cidadãos de que existe a possibilidade de futuro ao vencedor do desafio anual, uma caminhada envolvendo cinquenta jovens, que voluntariamente se inscrevem, e se sorteados, devem andar a 5km/h de maneira ininterrupta até ser o último. Os demais, que não conseguirem, infelizmente, não podem sobreviver.

 

Ainda que adentremos a esse universo com pouquíssimas informações, adaptado pelo roteirista JT Mollner da obra de Stephen King, o interesse de Lawrence, focado no evento que titula o longa, não impede que a realidade concreta não seja desenvolvida. Enquanto os personagens andam em linha reta, quase que de maneira ininterrupta, conversam entre si e expõem o mundo em que vivem a partir dos próprios olhares, das vidas que levam, das famílias que possuem, e dos valores que lhes foram passados desde criança. Fala-se, na prática, em uma geração de filhos da guerra, que vivenciaram os eventos traumáticos na infância e adolescência, e tiveram a própria personalidade moldada na base da sobrevivência e do desespero, ainda que nem sempre de maneira tão explícita perante os próprios olhos, como a violência que testemunham com seus colegas e adversários frente às regras da rigorosa marcha.

 

A câmera do diretor, que nunca descansa de se movimentar, nos oferece uma imersão à caminhada junto aos personagens, sempre com eles andando, em linha reta, e acompanhando o ritmo incessante. Enquanto ficam cansados após andar durante horas de maneira ininterrupta, é como se o desgaste físico e emocional perpassasse também ao espectador, que do outro lado da tela, é capaz de sentir a exaustão. Não apenas é um sentimento oriundo da fala, e do próprio trabalho excelente do elenco, encabeçado principalmente por Cooper Hoffman (filho do fantástico Philip Seymour Hoffman, cujos últimos trabalhos foram justamente com o diretor Francis Lawrence) e David Jonsson, mas também pela maneira como tudo se manifesta no próprio aspecto físico, através da imagem. É de um trabalho caprichado na maquiagem, que enfatiza as feridas, a sujeira e os próprios cabelos sujos e pouco a pouco ensebados pelo suor, cansaço e o clima, como também se trabalha a violência com realismo e brutalidade, em tiros perfurantes e dilaceradores de corpos, que impactam diretamente no psicológico dos competidores participantes da caminhada.

 

O mais interessante é que, mesmo com a possibilidade em mãos de uma narrativa enfadonha a partir da proposta, com a chance de fazer apenas um verdadeiro mais do mesmo, A Longa Marcha até estabelece antagonistas durante o “jogo”, mas entre os competidores apenas enxerga a vontade e necessidade de sobreviver enquanto frutos de uma realidade naturalmente mais violenta e opressora, e busca nos personagens humanidade, em sentimentos puramente humanos que convertem as más escolhas tomadas em culpa e arrependimento – como muito bem se faz com o personagem vivido por Charlie Plummer. Ao invés de estabelecer a rivalidade como regra, é reconfortante o olhar esperançoso da obra para o altruísmo, enquanto ao longo da jornada desenvolve noções de pensamento crítico entre os envolvidos, sobre o mundo concreto e a possibilidade de deixarem uma marca para um futuro livre do governo ditatorial.

 

Dessa forma, o verdadeiro vilão é assumido pelo Major de Mark Hamill, justamente uma personificação do Estado autoritário e símbolo da violência a qual todos se submetem, em uma divertida subversão ao típico arquétipo de personagem vivido pelo ator, sempre visto como forma de esperança, e aqui assumindo plenamente a tirania, sem ressentimentos.

 

Com isso, 2025 tem sido um ano curioso, a partir de visões desesperançosas para o caminho seguido pelo mundo, e sobretudo, pelos EUA, na forma de críticas ao excessivo conformismo em relação à violência – que o presente demonstra muito bem com o olhar dos espectadores por onde passa a Marcha -, e a cultura armamentista, em obras como The School Duel, Mickey 17 e agora A Longa Marcha. É o presente um filme violento, que consegue dissipar o peso de sua atmosfera com um jovem elenco masculino extremamente talentoso – talvez alguns dos grandes nomes contemporâneos do país –, e com um ambiente de esperança na geração atual, de que tudo possa, no futuro, melhorar.

 

Avaliação: 4.5/5

 

A Longa Marcha: Caminhe ou Morra (The Long Walk, 2025)

Direção: Francis Lawrence

Roteiro: JT Mollner, adaptado de Stephen King (livro)

Gênero: Thriller, Drama

Origem: EUA

Duração: 108 minutos (1h48)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: Em um universo distópico, um grupo de adolescentes participa de um concurso anual conhecido como "The Long Walk", no qual devem andar incessantemente, mantendo determinada velocidade, e morrer se não conseguirem.

 
 
 

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