CRÍTICA | Acompanhante Perfeita, de Drew Hancock (Companion, 2025)
- Henrique Debski

- 11 de fev. de 2025
- 3 min de leitura
Acompanhante Perfeita reúne bem comédia, terror e ficção científica, mas encontra dificuldades para articular suas surpresas.

Originalmente planejado para ser o segundo longa com direção de Zack Cregger, após sua excelente estreia nos cinemas com Noites Brutais, em 2022, o cineasta decidiu apenas assinar o longa como produtor, e delegar a condução ao também estreante Drew Hancock, a verdadeira mente por detrás da idealização de Acompanhante Perfeita. Isso não impediu, no entanto, que a divulgação do filme tentasse, a todo custo, vincular a imagem de Cregger, e sugerir que esperássemos algo na mesma pegada.
Acontece que existe um grande abismo entre as duas obras. Não apenas no eixo temático – o que é o de menos nesse caso, e pouco diz em relação a diferença de qualidade do trabalho desses cineastas -, mas na forma como constroem suas narrativas a partir do texto e imagem, e lidam com o mistério. Pois apesar das boas ideias, Hancock não parece conseguir, em Acompanhante Perfeita, manter suas inspirações apenas nesse campo. Parece que toda a construção de sua obra se faz nas bases de uma paródia de terror do profético Ex_Machina (2014), de Alex Garland, sobretudo no conflito central que estabelece entre a protagonista e o antagonista. O diferencial é a inversão dos pontos de vista, algo que, apesar de tentar surpreender no primeiro ato, já está claro desde os primeiros minutos – bem como a equipe de marketing também não se esforçou para esconder.
Quando o conflito se estabelece de fato, o roteiro sente prazer – e com razão - em ironizar a dependência emocional dos homens em cena, sobretudo do personagem de Jack Quaid, enquanto acredita ser alguém muito melhor e mais especial do que realmente é, não fazendo sequer o mínimo de uma pessoa decente, ainda mais dentro do contexto em que se encontra. Esse seu hábito de subestimar os outros, e em especial as mulheres, como um todo, se manifesta claramente dentro de sua relação para com a protagonista – excelente na pele de Sophie Thatcher, muito sarcástica - e suas preferências para com ela. Na medida em que a personagem assume o controle de si, nos é revelado muito sobre a pessoa dele.
Acontece que o filme não sabe muito bem como aproveitar o potencial daquilo que tão bem começa a construir. Primeiro que, novamente, há uma dificuldade em se desprender de suas inspirações, o que o enfraquece na medida em que não existe, propriamente, uma profundidade ao debate relacionado à inteligência artificial, e quando tem, se resume ao básico do assunto, e uma grande muleta ao roteiro para que preencha o terceiro ato com inúmeras conveniências e elementos facilitadores, quando não havia necessidade para tanto, ainda mais frente ao antagonista, facilmente ludibriável dentro de sua infinita autoindulgência.
Ao mesmo tempo, apesar da direção de Drew Hancock surpreender para um primeiro projeto de longa-metragem, com uma estética criativa, o cineasta demonstra dificuldade em manter a sutileza, sobretudo na construção da mise-en-scène, que por inúmeras vezes revela seus mistérios e os próximos passos cedo demais, filmando e destacando objetos e situações com muita veemência, como se quisesse joga-los na cara do espectador. E isso vai além da maneira como filma sua obra, mas também pelo excesso de verbalização por parte do texto, seja pela narração nos primeiros minutos, completamente desnecessária e anticlimática, ou pela necessidade de dizer tudo aquilo que a câmera já mostra, em especial nas reviravoltas, como se precisasse explica-las.
Todas essas escolhas, então, levam o filme para um lugar comum, de maior previsibilidade e subestimando as capacidades cognitivas do espectador, ou talvez em prestar atenção sem olhar para a tela do celular (o que talvez justifique a verbalização excessiva), que não estraga propriamente a experiência de Acompanhante Perfeita, mas atrapalha que suas surpresas, e o próprio caminhar da narrativa, tenham mais impacto dentro daquilo que propõem. Como uma comédia de terror e ficção científica, inegavelmente reúne muito bem todos esses atributos, e o resultado final é um filme bem divertido e capaz de arrancar genuínas risadas, mas com grande dificuldade, talvez em razão da inexperiência do diretor em articular suas surpresas, o que acaba o tornando um tanto vazio, e posteriormente, esquecível.
Avaliação: 3/5
Acompanhante Perfeita (Companion, 2025)
Direção: Drew Hancock
Roteiro: Drew Hancock
Gênero: Comédia, Terror, Ficção Científica
Origem: EUA
Duração: 97 minutos (1h37)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Um fim de semana entre amigos em uma cabana remota se transforma em caos após a revelação de que um dos hóspedes não é exatamente o que parece, e segredos obscuros emergirem.



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