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CRÍTICA | Apanhador de Almas, de Fernando Alonso e Nelson Botter Jr (Idem, 2025)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 19 de set. de 2025
  • 4 min de leitura

Importando fórmulas desgastadas do cinema norte-americano, Apanhador de Almas não tem nada de novo ou interessante para propor, para além de ideias mais do que saturadas.


 

Desde quando assisti a Apanhador de Almas, alguns dias antes de sentar para escrever o presente texto, venho constantemente me perguntando qual era a intenção por detrás do projeto concebido pelos cineastas Fernando Alonso e Nelson Botter Jr. Porque talvez em algum momento a ideia possa ter soado interessante ou chamativa, mas o resultado, verdade seja dita, é de um filme que mal se esforça para atrair a atenção, quando, através de uma imensa mistura de fórmulas já concebidas e consolidadas, especialmente no cinema norte-americano, apenas as reaproveita sem uma verdadeira pretensão em construir algo minimamente memorável.

 

Toda a sequência inicial, por exemplo, para além de algo completamente isolado da narrativa, é de uma falta de inventividade colossal – apenas uma personagem adentrando a uma casa, com aparência abandonada, para encontrar uma pilha de corpos, dar de frente com uma “entidade demoníaca”, em um susto que não funciona, pela obviedade e pelo próprio timing não repentino da aparição, que, posteriormente, se releva apenas um sonho, para, aí sim, dar início a história. Não apenas é uma cena inicial incapaz de cumprir a função de assustar, como também já mostra cedo demais uma parte da ameaça, sem que o universo do filme tenha ainda sequer sido estabelecido, e já nos dá de antemão um gostinho do restante do filme – tão desinteressante quanto.

 

Quando então conhecemos o grupo protagonista, a ausência de personalidade e a construção das personagens baseadas em meros estereótipos genéricos é mais uma fonte de decepção, na medida em que, mesmo com o elenco esforçado, é muito difícil construir uma relação de interesse com pessoas tão vazias, que se comportam de maneiras artificiais, à mera conveniência do roteiro, e mais, não se parecem como seres humanos, mas alegorias sociais tão explícitas que qualquer traço de humanidade parece apagado em meio a uma tentativa de mensagem que nunca atinge a finalidade almejada. Mesmo essas alegorias funcionam de maneiras tão estranhas que nem mesmo como forma de representar ideias, mentalidades ou convenções surte algum efeito, enquanto mudam de opinião e de ideia constantemente, tornando a obra imprevisível, mas não pelos motivos adequados.

 

Existem, talvez, apenas duas personagens, vividas por Jessica Corés e Angela Dippe, cujo roteiro assinado por Fernando Alonso, Nelson Botter Jr e Tarsila Araujo parece se interessar e encontrar potencial para um maior aprofundamento, justamente por serem as únicas com traços de personalidade humanos e que parecem escapar à artificialidade das alegorias, muito destacadas ao longo do primeiro ato. No entanto, são justamente as primeiras que o texto descarta – quem sabe até propositalmente -, de forma a agitar as demais, a fim de que encontrem uma solução para a problemática em que se encontram.

 

Acontece que, após a saída das citadas, responsáveis por colocar à mesa as questões mais relevantes que podem levá-las a sobrevivência, Apanhador de Almas parece estagnar, em conflitos morais que demoram a evoluir, e culminam em resultados previsíveis, já explorado de maneiras parecidas em tantos outros filmes ao longo de décadas – em especial entre os anos 1990 e início dos anos 2010.

 

Assim, todas as inúmeras lacunas do roteiro e convencionalidades de mais de noventa minutos de filme, que vão desde personagens mudando de ideia em um piscar de olhos até uma completa falta de base sobre quem elas são, como se conheceram, quais suas intenções, etc., acabam se justificando na forma de uma “grande reviravolta”, que fingindo pegar o espectador completamente de surpresa, é aproveitada como espécie de muleta narrativa, para justamente não precisar desenvolver tais elementos – quase como uma falta de vontade dos realizadores em criar algo verdadeiramente original, acreditando que o básico já é suficiente.

 

Diante de um cinema tão original como o cinema brasileiro, uma obra como Apanhador de Almas talvez acreditasse encontrar um desvio ao surfar em uma estética bastante alinhada ao cinema norte-americano, muito consumido no país. E talvez até pudesse funcionar, se lançado há vinte anos, quando as fórmulas que tanto abraça ainda não estavam desgastadas. Hoje, é tudo tão batido que fica fácil antecipar a reviravolta – que o filme nem sequer se preocupa em fornecer pistas para que desvendemos junto das personagens – e diante de um número expressivo de produções igualmente genéricas, usando os mesmos artifícios baratos de terror e temáticas como bruxaria e dimensões paralelas, é fácil não chamar a atenção um filme com tão pouco a propor em relação aos assuntos que coloca para discussão.

 

É uma pena que, sem criatividade para ir além dentro de um cinema de terror com amplas possibilidades para serem exploradas, Apanhador de Almas acabe desperdiçando um bom elenco, as vezes até perdido no meio de uma trama desinteressante e batida, e sobretudo o ótimo trabalho de design de produção, da casa assombrada, figurinos e até a própria maquiagem da criatura antagonista. É a prova de que a mera importação de elementos do cinema norte-americano não é suficiente quando não se tem ideia ou criatividade para trabalhar com eles – e que não basta ser um filme de terror brasileiro para chamar a atenção ou despertar o interesse do espectador. É preciso ter algo a propor, o que este, definitivamente, não tem.

 

Avaliação: 1/5

 

Apanhador de Almas (Idem, 2025)

Direção: Fernando Alonso e Nelson Botter Jr.

Roteiro: Fernando Alonso, Nelson Botter Jr e Tarsila Araujo

Gênero: Terror, Thriller

Origem: Brasil

Duração: 99 minutos (1h39)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: Durante um eclipse solar, quatro amigas visitam a casa de uma bruxa misteriosa em busca de um ritual mágico. Presas em um limbo dimensional governado pelo Caçador de Almas, elas descobrem que apenas uma poderá escapar com vida.

 
 
 

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