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CRÍTICA | Chefes de Estado, de Ilya Naishuller (Heads of State, 2025)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 8 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

Ilya Naishuller se esforça para brincar com uma ação sem violência, e mesmo com ótimo elenco, Chefes de Estado tem dificuldade em encontrar uma identidade.



Ao terminar de assistir a Chefes de Estado, não consegui deixar de pensar em como o filme, acidentalmente ou não, é fruto da reciclagem e mistura dos conceitos de outros dois filmes também lançados originalmente direto no Prime Video nesses últimos tempos. No quesito ação, lembra bastante do recente G20, que também tem como protagonista a presidente dos Estados Unidos (vivida pela Viola Davis), em uma missão de enfrentamento a um ataque coordenado contra a democracia. Por outro lado, o “bromance” entre os personagens, na fórmula “inimigos para amigos”, chefes de Estado dos EUA e da Inglaterra em muito lembra da comédia romântica Vermelho, Branco e Sangue Azul, com suas devidas diferenças, claro.

 

Seja como for, era de se esperar um pouco mais de uma comédia de ação dirigida pelo excelente cineasta russo Ilya Naishuller, responsável pelo recente, e excelente, Anônimo, em 2021, e protagonizada por Idris Elba e John Cena.

 

Apesar dos atores protagonistas habilmente tomarem as rédeas do projeto para si, que, para muito além de mero chamariz por seus nomes, desenvolvem uma química que funciona muito bem diante da câmera e dos desafios que seus personagens são obrigados a enfrentar, é nítido que o roteiro, escrito a seis mãos (Josh Appelbaum, André Nemec e Harrison Query) não tem ideia de como aproveitá-los sem recair naquelas mesmas fórmulas genéricas de comédias de ação e aventura como tantas outras – com destaque especial a Dupla Explosiva (2017), cujos vários elementos parecem ter sido replicados aqui, mas sem tanta inspiração ou eficácia, em razão da baixa classificação indicativa.

 

Na verdade, parte dessa indecisão é saber propriamente qual é o foco do projeto, se a ação ou a comédia. Não que seja uma aposta alternativa, quando ambas podem muito bem coexistir (e o citado anteriormente é clara prova disso), mas parece haver uma necessidade dos roteiristas em optar por um, mas sem abandonar o outro. Assim fica difícil levar Chefes de Estado a sério, como em diversos momentos o filme pretende que seja, quando a todo tempo um alívio cômico se faz presente para quebrar o clima de tensão, fruto de toda essa falta de um direcionamento e objetivo.

 

Talvez, mesmo com humor, até desse para levar a obra com seriedade se suas escolhas não fossem tão genéricas e previsíveis, sobretudo na forma como articula uma conspiração cujo plano, verdade seja dita, mal faz sentido, especialmente pela maneira como os antagonistas se posicionam diante do tabuleiro político criado, em uma realidade onde todas as decisões tomadas parecem sempre ser as piores ou menos críveis, ainda que o longa tente nos fazer acreditar que está com os pés no chão em uma proposta realista. É impossível cogitar em tamanha manipulação das nações integrantes da OTAN (cujo longa parece até fazer propaganda para), e culminar em ações tão impulsivas quanto acontecem aqui.

 

A escolha criativa pela baixa classificação indicativa (o famoso “PG-13” nos Estados Unidos) também acaba por desperdiçar boa parte do potencial narrativo, em trabalhar com mais seriedade a questão política abordada, mas especialmente prejudicial a maneira como a ação se desenvolve sem a possibilidade de brincar com a violência. Mesmo assim, se por alguma razão o filme se diferencia ou destaca para além da dupla protagonista, é pelo esforço da direção de Naishuller em não tornar as sequências de ação tão vazias. Ainda que nem sempre funcione, e por vezes falte impacto, existem passagens genuinamente divertidas e memoráveis aqui – como a pancadaria em uma zona rural de Belarus, o ponto alto de toda a obra, ou mesmo o bom tiroteio no esconderijo da CIA.

 

Dessa forma, caso Chefes de Estado encontrasse um tom certo para o equilíbrio entre o humor e a seriedade, de forma a se desenvolver na base dessa coexistência, sem tentar antagoniza-los, e se permitisse abraçar mais o humor absurdo e sequências de ação gráficas, creio que haveria a possibilidade da formação de uma identidade para o longa. Da maneira como lançado, mesmo que divertido, parece que falta algo para individualiza-lo, tornando-se apenas uma adição de catálogo semanal genérica no streaming, que tão logo será esquecida.

 

Avaliação: 3/5

 

Chefes de Estado (Heads of State, 2025)

Direção: Ilya Naishuller

Roteiro: Josh Appelbaum, André Nemec e Harrison Query

Gênero: Ação, Comédia

Origem: EUA

Duração: 116 minutos (1h56)

Disponível: Prime Video

 

Sinopse: O presidente dos EUA e o primeiro-ministro britânico se tornam alvos de uma ameaça externa, e devem colaborar e lutar juntos contra uma conspiração global que ameaça a estabilidade da OTAN, e os laços formados entre os países-membros. (Fonte: IMDB - Adaptado)

 
 
 

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