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CRÍTICA | Desafie a Escuridão, de Damian Harris (Brave the Dark, 2025)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 5 de mar. de 2025
  • 3 min de leitura

Desafie a Escuridão funciona bem como um drama motivacional, quando não está correndo para acabar logo.



Dentro da dinâmica do cinema norte-americano, Desafie a Escuridão é um daqueles típicos “feel good movies”, algo que pode ser traduzido como “filmes para te fazer se sentir bem”. Entre os vários tipos de longas que podem entrar embaixo desse guarda-chuva, este se situa no campo da auto ajuda e dramas de superação. O próprio título, na verdade, bem traduzido para o português, já é um claro indício da fórmula que segue, sugerindo a necessidade do jovem protagonista enfrentar as próprias trevas para engrenar com a vida.

 

Entre uma série de ideias recicladas de outros projetos parecidos, que se tornam genéricas a partir do uso de uma fórmula pronta pelo roteiro, assinado por várias mãos, que apresenta dificuldades em dela se desprender, o longa encontra seus atributos na direção de Damian Harris, que habilmente constrói seus dois principais personagens a partir de um aspecto humano, focando em suas ações do dia-a-dia e meios de lidar com as situações cotidianas.

 

Existe uma paciência valiosa em como o diretor os filma em seus ambientes sociais, e nas relações com as demais pessoas de seu meio, sem necessariamente apontar para características específicas artificialmente, mas demonstrá-las a partir do que os personagens realmente são, ou ao menos julgam ser. Essa é a chave quando o conflito central do protagonista Nathan Williams com a Justiça entre em cena, como um indicativo dos caminhos que a vida o incentivou a trilhar, em meio à ausência de apoio familiar e suas tragédias pessoais, exploradas constantemente em sua relação com o professor que o acolhe, Stan Deen – excelente na pele de Jared Harris.

 

Ao longo desse processo de realinhamento da vida, e aproveitando das novas oportunidades oferecidas, é curiosa uma mudança, na maior parte do tempo, gradual em relação à Nathan, em um trabalho competente de Nicholas Hamilton, desde o laço de confiança firmado até seu figurino, que estabelece a jaqueta de couro como uma referência à seu lado obscuro e conflituoso, em uma atmosfera meio a lá Jim Stark (de Juventude Transviada, 1955), abandonada pouco a pouco. O aspecto mais enfatizado pela obra é de um olhar positivo ao ser humano, tal como Deen busca no mundo ao seu redor, na procura pelo melhor que cada pessoa pode dar de si para o outro.

 

Na contramão dessa ideia, alguns momentos de Deen na sala dos professores revelam uma interessante reflexão acerca da descrença dos demais em relação aos próprios estudantes, enquanto professores que, em tese, deveriam inspirá-los. É uma demonstração parcial, pois não muito aprofundada, de um sistema educacional falho, e uma crítica às posturas encostadas e preguiçosas de algumas pessoas que, juntas, poderiam fazer diferença.

 

E até certo ponto, esse aspecto otimista e pautado na sinceridade, quando desenvolvido sem pressa, é bastante eficaz na aproximação dos personagens, bem como do espectador a esse universo. No entanto, na reta final começa a acelerar o processo mirando uma conclusão rápida, recorrendo à conveniências – como a revelação dos traumas, de uma forma bastante forçada, e à momentos dramaticamente mais exagerados, ainda que sem apelar para forçar o público a derramar lágrimas (ainda que flerte com isso).

 

Assim, Desafie a Escuridão, um projeto baseado em um história real que levou mais de uma década para sair do papel, ser produzido e conseguir distribuição, é competente como um drama motivacional, e sobretudo cumpre bem o papel de “feel good movie” – realmente saí com um ar mais otimista para o mundo. Mas por vezes encontra dificuldade em se esquivar das obviedades que essa cartilha motivacional oferece, quando diante de um roteiro que as abraça sem tentar subverter as conveniências.

 

E além de tudo, que resultou em um bom filme, serviu também como uma oportunidade de reunir os filhos de Richard Harris em um projeto mais íntimo e com aspecto familiar, com Damian Harris na direção, e os atores Jared e Jamie Harris em frente às câmeras.

 

Avaliação: 3/5

 

Desafie a Escuridão (Brave the Dark, 2025)

Direção: Damian Harris

Roteiro: Dale G. Bradley, Lynn Robertson Hay, Damian Harris, baseado em Nathaniel Deen e John P. Spencer (roteiro original)

Gênero: Drama

Origem: EUA

Duração: 112 minutos (1h52)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: Assombrado por torturantes memórias de infância, Nate Williams se vê envolto na escuridão. Quando seu professor, o Sr. Deen, o resgata da prisão e o acolhe, Nate deve confrontar seu passado antes que ele leve à sua própria destruição. (Fonte: IMDB)

 
 
 

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