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CRÍTICA | Enola Holmes 3, de Philip Barantini (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 1 dia
  • 7 min de leitura

Enola Holmes 3 é divertido, e mais memorável do que seu antecessor, mas pouco avança no arco de amadurecimento da personagem-título.


 

Considerando o volume anual de produções originais Netflix, e as múltiplas tentativas da plataforma, em todos os anos, de lançar uma grande franquia, quase sempre sem sucesso, o fato de Enola Holmes conseguir chegar ao terceiro filme é digno de reconhecimento. Protagonizado por Millie Bobby Brown, cuja carreira floresceu na empresa, e também sua primeira experiência como produtora, aproveita da releitura de um personagem clássico da literatura policial (Sherlock Holmes, e todo seu universo de Sir Arthur Conan Doyle), a partir dos livros de Nancy Springer, com a criação de uma irmã mais nova do detetive, dona de uma perspectiva mais jovem, descontraída, capaz de protagonizar filmes cujo tom mais familiar privilegia uma montagem ágil, quebras constantes da quarta parede, para diálogos diretos com o público, e abordagens progressistas de uma Inglaterra vitoriana conservadora, sem necessariamente recair (tanto) no anacronismo.

 

Depois de um segundo filme esquecível, ainda que divertido, como tenho em boa sensação na memória, Enola Holmes chega ao terceiro filme prestes a se casar na ilha de Malta, apenas para ter os planos desviados pelo surgimento de um novo mistério, muito mais pessoal: o desaparecimento do irmão, Sherlock. Se nos filmes anteriores, de alguma maneira, acabava recorrendo à mente brilhante do personagem clássico para solucionar parte dos problemas que enfrenta, desta vez a narrativa a obriga a caminhar com as próprias pernas. Seria a consolidação de Enola como uma detetive de respeito, cujo terço inicial busca sustentar, e o que reside no centro de seu arco desde o primeiro longa.

 

No entanto, analisando uma linha do tempo que perpassa entre os três filmes, ainda que os roteiros de Jack Thorne tentem vender uma evolução de Enola como protagonista, é algo trabalhado de maneira mais artificial, pelo texto falado e convicções pessoais da protagonista, do que por um elemento que podemos notar através das narrativas como um todo. No geral, todas seguem uma mesma fórmula, adaptada aos personagens presentes em cena ao tempo de cada história, que são resolvidas das mesmas maneiras no decorrer das projeções, com o apoio de conveniências, resoluções de último minuto e soluções mirabolantes, que dependem menos da racionalidade e mais da sorte.

 

O embate entre mentes brilhantes que busca sustentar com o antagonismo de Moriarty, até bem vivida por Sharon Duncan-Brewster, pouco funciona de verdade na prática. Diante daquela máxima de que “personagens inteligentes exigem roteiristas à altura”, algo escapa aqui, e Thorne talvez seja o ponto. Não que o mistério da vez não seja intrigante – pelo contrário, é –, mas o excesso de erros cometidos pelos personagens geniais, atribuídos ao uso da emoção, e não da racionalidade, conflita com o discurso que o próprio filme tenta sustentar, sem mesmo provar o ponto de uma protagonista, em tese, mais madura, vez que repete todos os “erros” cometidos nos outros filmes.

 

Ainda assim, Thorne oferece uma narrativa mais intuitiva ao seu espectador, reforçada pela direção de Philip Barantini, ao trabalhar em tela, e visualmente, a mente da personagem-título, e sua maneira de estabelecer relações. Trata-se, também, de uma maneira de até o espectador mais desatento acompanhar o mistério, provando o ponto de que a Netflix sugere a repetição de pontos-chave para facilitar a compreensão do público. Não é algo que atrapalha aqui, porém, até como forma de retomar as evidências, e oferecer ao espectador uma oportunidade de tentar juntar as pistas antes da protagonista, quando convém ser assim – e, quem sabe, auxiliar um público pré/adolescente no acompanhamento da trama, vez que há esse direcionamento.

 

Os personagens se integram melhor à narrativa do que no longa anterior, sobretudo quando trabalham em frentes distintas, fazendo uso de suas influências e atributos, como Tewkesbury, para auxiliar na busca por respostas, sobretudo quando criado um clima de urgência – ao qual o filme, por outro lado, não leva realmente a sério. A partir da ambientação de Malta, também aproveita para explorar o domínio britânico na região, como parte de sua intenção em olhar para o passado com os olhos do presente, sobretudo na temática da colonização, ainda que fique em segundo plano.

 

Ao voltar-se mais à ação, a escolha de Barantini para dirigir – que substituiu Harry Bradbeer, dos dois longas anteriores – se mostrou acertada, como alguém mais experiente e familiarizado ao thriller, trabalhando as coreografias e sequências de luta com mais naturalidade, cuja decupagem valoriza planos mais longos em detrimento de um excesso de cortes a todo tempo, oferecendo uma oportunidade de o público compreender o espaço tanto quanto os envolvidos em cena.

 

No geral, Enola Holmes 3 mantém o carisma dos longas anteriores, inclusive com uma Millie Bobby Brown mais envolvida que em outros projetos recentes – como na própria season finale de Stranger Things –, e consegue ser mais interessante e memorável do que o anterior. No entanto, por outro lado pouco avança ou desenvolve o arco de amadurecimento da protagonista, que apesar de mais velha e experiente, parece manter-se exatamente igual. Trata-se, mesmo, de um mistério divertido, voltado à família, que entretém entre a ação, romance e investigação, mesmo que a narrativa nunca chegue perto do nível e complexidade atingidos por Sir Arthur Conan Doyle com seu Sherlock Holmes.

 

Avaliação: 3.5/5

 

Enola Holmes 3 (Idem, 2026)

Direção: Philip Barantini

Roteiro: Jack Thorne, adaptado de Nancy Springer (série de livros)

Gênero: Aventura, Thriller, Ação, Comédia

Origem: EUA

Duração: 105 minutos (1h45)

Disponível: Netflix

 

Sinopse: Prestes a se casar com Tewkesbury, a detetive Enola Holmes vai a Malta, mas o desaparecimento de Sherlock atrapalha seus planos e um novo mistério surge para ser investigado.

 

English review

 

Enola Holmes 3 is entertaining, and more memorable than its predecessor, but makes little progress in the title character's coming-of-age arc.

 

Considering the sheer volume of Netflix original productions released every year, along with the platform's repeated attempts to launch a major franchise - most of them ultimately unsuccessful - the fact that Enola Holmes has reached a third installment is an achievement worthy of recognition. Starring Millie Bobby Brown, whose career flourished through the platform, and marking her first experience as a producer, the series builds upon Nancy Springer's reimagining of one of detective fiction's most iconic literary universes - Sir Arthur Conan Doyle's Sherlock Holmes - by introducing the detective's younger sister. With a fresher, more youthful perspective, Enola leads films whose family-friendly tone embraces brisk editing, frequent fourth-wall breaks for direct conversations with the audience, and progressive approaches to the conservatism of Victorian England, without necessarily descending (too often) into anachronism.

 

After a second film that, while enjoyable, proved largely forgettable in my memory, Enola Holmes 3 begins with Enola preparing to marry in Malta, only for those plans to be interrupted by a far more personal mystery: the disappearance of her brother, Sherlock. Whereas the previous films always found ways to rely, to some extent, on the brilliant mind of the classic detective to solve part of the problems she faced, this time the narrative forces her to stand on her own. In theory, this should represent Enola's definitive consolidation as a respected detective, precisely the objective that the film's opening act seeks to establish, and the central focus of her character arc since the very first installment.

 

However, when looking at the three films as a continuous progression, although Jack Thorne's screenplays attempt to present Enola as someone who has evolved, that growth feels far more artificial, conveyed through dialogue and the character's own declarations, than through something audiences can genuinely observe across the narratives themselves. Broadly speaking, all three films follow essentially the same formula, merely adapted to whichever supporting characters happen to accompany Enola in each story. Their mysteries are resolved through familiar means, relying heavily on convenient plot developments, last-minute solutions, and increasingly improbable twists that depend far more on luck than on genuine reasoning.

 

The intellectual duel that the screenplay attempts to establish through Moriarty - portrayed quite effectively by Sharon Duncan-Brewster - rarely succeeds in practice. The familiar principle that "intelligent characters require equally intelligent writers" seems particularly relevant here, and Thorne ultimately appears to be the film's weakest link. Not because this mystery lacks intrigue - on the contrary, it is genuinely compelling - but because the excessive number of mistakes made by supposedly brilliant characters, consistently attributed to emotional decisions rather than rational thinking, directly contradicts the very ideas the screenplay tries to defend. Worse still, it never truly demonstrates that Enola has become a more mature detective, as she repeats many of the same mistakes she made throughout the previous films.

 

Even so, Thorne offers audiences a more intuitive narrative experience, strengthened by Philip Barantini's direction, which visually externalizes the way Enola's mind works and how she connects different pieces of information. This approach also allows even less attentive viewers to follow the mystery with ease, reinforcing Netflix's well-established tendency to repeat key narrative points in order to facilitate audience comprehension. Fortunately, this never becomes particularly distracting. If anything, it serves as a useful reminder of the available clues while simultaneously giving viewers the opportunity to solve the mystery before Enola herself whenever the story benefits from such engagement - perhaps especially for the younger teenage audience clearly being targeted.

 

The supporting characters integrate more naturally into the story than they did in the previous installment, particularly when they operate independently, each contributing their own skills and influence. Tewkesbury, for example, proves especially valuable in advancing the investigation whenever the narrative establishes a genuine sense of urgency - although, paradoxically, the film itself never fully commits to maintaining that urgency. Likewise, the Maltese setting allows the story to briefly touch upon Britain's colonial presence on the island, reflecting its broader intention of examining the past through contemporary perspectives, particularly regarding colonialism, even if this remains very much a secondary concern.

 

By leaning more heavily into action, the decision to replace Harry Bradbeer with Philip Barantini as director proves largely successful. Far more experienced and comfortable within the thriller genre, Barantini stages action sequences and fight choreography with noticeably greater confidence. His visual language favors longer takes over excessive cutting, allowing audiences to understand the physical space just as clearly as the characters themselves.

 

Overall, Enola Holmes 3 preserves the charm that made its predecessors enjoyable, helped considerably by a Millie Bobby Brown who appears far more engaged than in some of her more recent projects - including the final season of Stranger Things - and ultimately delivers a film that is more entertaining and memorable than its immediate predecessor. At the same time, however, it does remarkably little to further Enola's personal journey. Despite being older and supposedly more experienced, she remains fundamentally unchanged. What remains is an enjoyable family mystery that successfully blends action, romance, and detective work, even if its narrative never comes close to reaching the complexity or brilliance of Sir Arthur Conan Doyle's Sherlock Holmes.

 
 
 

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