CRÍTICA | Quinze Dias, de Daniel Lieff (Idem, 2026)
- Henrique Debski

- há 2 dias
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Com Quinze Dias, Daniel Lieff explora comédia romântica adolescente voltada à comunidade queer, com ótimo casal protagonista e de alma puramente brasileira.

A comédia romântica é um gênero que o brasileiro conhece bem. Essa predileção, que até os anos 2000 lotava salas de cinema, e hoje ainda se manifesta especialmente no streaming, nas listas diárias e semanais dos mais assistidos das plataformas, notadamente ultrapassa o hábito de consumo do cinema estrangeiro, e atinge, também, a própria produção cinematográfica nacional, sempre recheada, ano após ano, de comédias românticas dos mais variados tipos.
Nesse sentido, as comédias românticas voltadas ao público jovem são um nicho de mercado também bastante explorado. No entanto, nota-se uma preferência maior a obras protagonizadas por casais hétero, e algumas poucas, até então, com olhares voltados à comunidade LGBTQIA+. Quando cada vez mais produções estrangeiras voltadas a esse olhar queer adolescente tem tomado destaque (com Young Royals e Rivalidade Ardente), o Brasil também vêm não apenas enxergando potencial, mas necessidade de se contar essas histórias, de pessoas que não necessariamente se viam representadas em tela. Quinze Dias, então, adaptando o romance homônimo de Vitor Martins, surge para ajudar a suprir essa demanda entre o público adolescente.
Claramente não é o único, e tampouco o primeiro título a explorar esse segmento de romance queer entre adolescentes, quase na idade adulta, ainda mais quando dentro de um ponto crítico na vida: o primeiro amor. No entanto, não apenas é um excelente exemplar dentro do cinema queer, como a direção de Daniel Lieff, com sensibilidade, trata e aborda seus personagens com base naquilo que são: adolescentes.
Com clara influência em Heartstopper, série produzida pela Netflix e adaptada das obras de Alice Oseman, Quinze Dias volta-se aos dilemas de “sair do armário”, e lidar com o julgamento do mundo exterior, a partir de dois personagens que se completam, quase no formato “yin e yang”. Entre as diferenças físicas e de personalidade que os separam, e, em um primeiro momento, sugerem uma incompatibilidade, a narrativa no formato “convivência forçada” prova que Felipe e Caio se parecem mais do que imaginam.
O ponto de vista adotado, pelos olhos de Felipe, muito bem interpretado por Miguel Lallo, coloca o espectador diante de um personagem aparentemente clichê, a partir de uma narração sobreposta, explorando seus maus momentos no ambiente escolar, o bullying constante, e as dificuldades que enfrenta em razão de seu corpo e sexualidade – uma realidade infelizmente mais comum do que se pode imaginar. Com seu aprofundamento, no entanto, através de sua relação com a mãe e a dinâmica familiar, ficamos diante de uma persona mais crível, com sensibilidade e preocupação com o próximo, de certa maneira retraído em razão das vivências, passando mais tempo se escondendo no próprio quarto, sonhando com o mundo, do que desbravando a realidade em busca de experiências.
É justamente quando surge Caio, também de excelente interpretação por parte de Diego Lira, mais destemido e extrovertido, uma antiga paixão platônica de Felipe. O filme é criativo na maneira como trabalha a passagem desses quinze dias que terão de passar juntos (a partir de indicações em caixas de cereal, cartazes, e outras formas para evitar aquele letreiro impessoal indicando o dia), que, para além de natural, realçando as diferenças entre eles num primeiro momento, aos poucos os levam a conhecer, de fato, mais sobre um ao outro.
Existe muito afeto no olhar dos atores enquanto contracenam, que cresce conforme os dias passam, e que não apenas oferecem o estabelecimento de uma dinâmica verossímil ao espectador, como também nos faz se importar com esses personagens e seus sentimentos. A fórmula sobre a qual a narrativa se constrói, até bastante batida pelo caminhar dos eventos e pontos de virada, que por vezes se tornam óbvios, são supridos pelo cuidado na direção de Daniel Lieff, que com sensibilidade constrói um espaço confortável aos atores, e uma relação constituída com muito afeto em frente à câmera, sobretudo a partir do momento em que o filme passa a explorar as fragilidades do casal, tanto individualmente quanto em conjunto.
Tanto conhecemos com cuidado esse universo, e sobretudo os sentimentos de Felipe, que o longa até se aventura a brincar com elementos de fantasia para ir além desse aprofundamento, ao ponto de inserir uma cena musical, na forma de um sonho, no meio do filme, sem de maneira alguma soar estranho ou fora de tom à proposta – e inclusive, com muito mais coragem que alguns longas brasileiros recentes, que se autointitulam musicais, e demonstram receio de abraçar um momento assumidamente cafona como se faz aqui.
Dessa maneira, ainda que atuando sob uma fórmula batida, Quinze Dias se sobressai na delicadeza com a qual constrói seu universo, e explora a relação entre dois personagens tão humanos e comuns, sem excentricidades, vividos por uma dupla de atores em plena sintonia. Ainda pode dizer com orgulho que se trata de uma obra de corpo e alma brasileira, situado em uma típica cidade no interior do país, com referências divertidas à nossa cultura, para além da trilha sonora, sem nunca parecer forçadas, fora de tom ou datadas. Aos fãs de Heartstopper, e amantes de comédias românticas queer, Quinze Dias é um deleite, em uma junção de tudo o que há de melhor, colocados em um filme adolescente maduro, de alma nacional.
Avaliação: 4/5
Quinze Dias (Idem, 2026)
Direção: Daniel Lieff
Roteiro: Vitor Brandt e Ray Tavares, adaptado de Vitor Martins (livro)
Gênero: Comédia, Romance
Origem: Brasil
Duração: 100 minutos (1h40)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Os planos de férias de um adolescente inseguro são furados por uma visita inesperada: seu vizinho, que passará duas semanas dormindo na sua casa. Os dias que prometiam paz, tranquilidade e maratonas épicas de séries acabam trazendo um turbilhão de sentimentos e questões mal resolvidas.



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