XXII FANTASPOA | Favela Amarela, de Thiago Tuchu e Nicolas Lobato (Idem, 2026)
- Henrique Debski

- há 3 dias
- 6 min de leitura
Como o pontapé inicial de um grande universo, Favela Amarela impressiona pela qualidade visual e narrativa, como curta de horror cósmico autossuficiente que se inspira em Lovecraft para debater o racismo nas periferias brasileiras.

Como um país de proporções continentais, o cinema brasileiro explora, em suas diversas frentes, inúmeras problemáticas que assolam a sociedade – muitas que se arrastam e permanecem ao longo dos séculos, sempre transformadas e adaptadas às novas realidades de cada tempo, sendo constantemente remediadas, mas dificilmente erradicadas, como sintomas de doenças que o mundo como um todo luta para eliminar. É o caso do racismo, elemento chave do curta fantástico de terror Favela Amarela, que se inspira em elementos de H. P. Lovecraft, um dos maiores nomes do horror cósmico, e notório racista, para explorar seu universo a partir dos desafios vividos por um jovem negro em uma comunidade periférica do Rio de Janeiro, como uma afronta aos pensamentos preconceituosos do autor.
Curta mais assistido na etapa online do XXII Fantaspoa, ocorrida por acesso pelo streaming Darkflix em todo o território nacional, a qualidade narrativa de Favela Amarela impressiona para muito além do chamativo aspecto visual, capaz de surpreender o espectador pela alta qualidade dos efeitos já logo nos primeiros minutos. Existe uma enorme naturalidade na maneira como os diretores Thiago Tuchu e Nicolas Lobato estabelecem todo o contexto sobre o qual vive o protagonista Damião, muito bem na pele de Richard Abelha, um jovem negro, residente de uma favela carioca, que luta para trabalhar e estudar, ocasionalmente se vendo obrigado, em uma batalha interna contra os próprios interesses, a prestar serviços para o crime organizado como forma de conseguir se sustentar financeiramente em um cenário cada vez mais árduo.
No entanto, o que se iniciara como um drama que reflete as dificuldades da vida na favela aos poucos se converte em algo além. Quando Damião começa a estranhar o entorno, e perceber movimentações suspeitas na própria comunidade, uma possível conspiração começa a se desenterrar dentro daquela selva de pedra, como uma força que o joga, junto de todas as demais pessoas no seu entorno, sempre em direção ao buraco. Não à toa o personagem sempre encontra empecilhos quando se mostra disposto a tentar prosperar na busca por uma vida melhor, seja sendo impedido de estudar, quando obrigado a trabalhar; e se vê cercado por amigos que cada vez menos encontram perspectiva de futuro fora daquele ambiente, como se ali estivessem confinados.
Os sentimentos do protagonista são impressos em tela pela dupla de diretores, a partir de uma câmera voltada às sensações de Damião, seja quando demonstra certa paranoia, ou quando consome substâncias entorpecentes, como forma de tentar relaxar a mente de tanta preocupação.
Aos poucos, os elementos de horror cósmico entram em cena, manifestando-se pela forma como o filme materializa suas discussões sobre a violência social, através da rejeição e do subjugamento da população residente nas favelas, como se fossem desimportantes – a cena da mãe chorando pelo desaparecimento da filha, sem qualquer apoio dos representantes do Estado ao entorno, é desesperadora –; e de um racismo velado, trabalhado por meio do início de uma construção mitológica, inspirada em Lovecraft, que usa de seu estilo para trabalhar o preconceito disseminado pelo próprio autor – de maneira melhor e mais inteligente do que Lovecraft Country o fizera há alguns anos, com menos discursos explícitos, e mais internalizados à realidade que retrata.
Tudo isso ainda é apenas o pontapé inicial de um projeto deveras maior e mais ambicioso, visto que a mitologia e universo de Favela Amarela pretende se expandir a partir da realização de um longa-metragem, uma história em quadrinhos e até um curta de animação, todos seguindo diferentes personagens, interligados de forma a alimentar ainda mais esse mundo e conspiração aqui introduzidas.
É gratificante acompanhar de perto a expansão do cinema de gênero no Brasil, e obras ambiciosas como Favela Amarela nos mostram que caminhamos rumo à direção correta, com realizadores que acreditam no próprio mundo que constroem, e planejam expandir para outras mídias e linguagens (como a própria literatura em quadrinhos). É um grande projeto com promessas reais, que vale a pena dedicar alguma atenção e acompanhar de perto essa expansão.
Avaliação: 4/5
Favela Amarela (Idem, 2026)
Direção: Thiago Tuchu e Nicolas Lobato
Roteiro: Thiago Tuchu e Nicolas Lobato
Gênero: Terror, Thriller
Origem: Brasil
Duração: 20 minutos (0h20)
Exibido no XXII Fantaspoa
Sinopse: Criado nas favelas do Rio de Janeiro, Damião passa a trabalhar para o tráfico de drogas do Morro do Rato Baleado como forma de aumentar sua renda e pagar a faculdade. Durante um plantão noturno, avista estranhos encapuzados se esgueirando pela floresta do morro até uma igreja, revelando uma ONG ligada a políticos poderosos que esconde rituais sombrios dedicados ao Rei de Amarelo, levantando dúvidas sobre a segurança da comunidade.
English review
As the starting point of a much larger universe, Favela Amarela impresses through both its visual and narrative quality, functioning as a self-contained cosmic horror short inspired by Lovecraft to discuss racism within Brazil’s urban peripheries.
As a country of continental dimensions, Brazilian cinema explores, across its many fronts, countless social issues that continue to haunt society - many of them stretching across centuries, constantly transformed and adapted to the realities of each era. They are repeatedly treated, yet rarely eradicated, like symptoms of diseases the world continues to struggle against. Racism is one such issue, and it stands at the center of the fantastic horror short Favela Amarela, which draws inspiration from the work of H. P. Lovecraft - one of the most influential names in cosmic horror, and also a notorious racist - to explore his style through the struggles of a young Black man living in a favela in Rio de Janeiro, effectively confronting the author’s prejudiced worldview.
The most-watched short film during the online edition of the 22nd Fantaspoa, streamed nationally through Darkflix, Favela Amarela impresses not only through its striking visuals - whose effects already stand out in the opening minutes - but also through the strength of its storytelling. Directors Thiago Tuchu and Nicolas Lobato establish the world surrounding protagonist Damião with remarkable naturalism. Wonderfully portrayed by Richard Abelha, Damião is a young Black resident of a Rio favela who struggles to balance work and education, often finding himself internally conflicted and occasionally forced to collaborate with organized crime in order to survive financially in an increasingly harsh environment.
What begins as a drama reflecting the hardships of favela life gradually transforms into something larger. As Damião starts noticing strange occurrences and suspicious movements within the community, a possible conspiracy begins to emerge from within that concrete jungle - a force constantly dragging him, and everyone around him, further downward. It is no coincidence that the character continually faces obstacles whenever he attempts to improve his life, whether by being prevented from studying because he must work, or by watching his friends lose any hope of a future outside that environment, as though they are trapped there indefinitely.
The directors externalize Damião’s emotional state through a camera deeply connected to his sensations - whether portraying his paranoia or the moments when he uses substances in an attempt to calm his mind amid overwhelming anxiety.
Gradually, the cosmic horror elements enter the story, materializing through the film’s portrayal of social violence, rejection, and the systemic marginalization of favela residents, treated as though they are disposable. The sequence of a mother crying over her missing daughter while receiving no support from state authorities is devastating. Alongside this, the film develops a form of veiled racism through the beginnings of a mythology inspired by Lovecraft, using his aesthetic and narrative style to critique the prejudice disseminated by the author himself - doing so more intelligently and effectively than Lovecraft Country did a few years ago, relying less on explicit speeches and more on tensions organically embedded within the reality it portrays.
And yet, all of this represents only the beginning of something far more ambitious. The mythology and universe of Favela Amarela are intended to expand through a feature film, a comic book, and even an animated short, all following different characters interconnected within the same conspiracy and fictional world introduced here.
It is genuinely rewarding to witness the growth of genre cinema in Brazil, and ambitious works like Favela Amarela demonstrate that the country is moving in the right direction - with filmmakers who truly believe in the worlds they are building, and who aim to expand them across multiple media and artistic languages, including comics. It is a major project with real promise, one well worth paying attention to and following closely as it continues to grow.
Favela Amarela was screened at XXII Fantaspoa.



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