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XXII FANTASPOA | Corporate Retreat, de Aaron Fisher (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 8 de mai.
  • 6 min de leitura

Enquanto satiriza o mundo corporativo através de “escape room” e horror corporal, Corporate Retreat entrega seus mistérios com facilidade, e subestima o espectador com passagens inverossímeis.


 

No mundo globalizado, através de relatos em redes sociais, tem sido cada vez mais comuns histórias de pessoas vivenciando estranhas dinâmicas de RH em empresas e escritórios. Com aquelas ideias de integração de equipe e fortalecimento de laços entre colegas, por vezes essas propostas saem do controle, ou mesmo perdem suas funções primordiais – não à toa, existem inúmeros “memes” acerca deste tema no mundo corporativo. Se algo durante o dia, no horário de trabalho, já pode soar entediante, agora imagine um final de semana, “de folga”, em um retiro com os colegas. É precisamente o cenário de natural horror estabelecido por Corporate Retreat, no qual a cúpula de uma grande empresa do ramo de tecnologia sai em viagem, para uma casa nos arredores de Los Angeles, a fim de fortalecer laços em dinâmicas organizadas por uma empresa terceirizada contratada pela chefe do departamento de RH – que também os acompanha.

 

Logicamente, para que o filme aconteça, como uma comédia de terror, as coisas saem do controle. O que inicialmente começa como uma simples dinâmica de “autoconhecimento”, embebida em noções que nos remetem a filosofias budistas e outras misturas genéricas, aos poucos se distorcem em prol da transformação do exercício de integração em um grande jogo de “escape room” fatal. Testando habilidades, e outras características, cada desafio leva à eliminação de um participante, forçando-os a serem honestos para consigo e uns com os outros, entre os atos que praticaram na empresa.

 

No entanto, ao passo que apresenta uma proposta divertida – e mantém um ritmo constante, satirizando o universo corporativo através de personagens alegóricos e repetição de discursos frequentemente ouvidos no interior destes ambientes –, Corporate Retreat não sabe como articular suas surpresas, e tampouco apresentar suas ideias de maneiras verossímeis ao espectador, gerando constantes quebras de confiança para com um filme no qual os retratados dificilmente agem como seres pensantes frente à situações de perigo (ainda mais tendo em vista serem as “cabeças” de uma grande empresa).

 

No decorrer da narrativa, compreendemos a existência de uma conspiração por detrás do caos. Aquele grupo não se encontra na armadilha por acaso, mas sim porque foram levados àquele local. Enquanto poderia explorar a realidade no decorrer dos desafios, até como mais uma oportunidade de saírem vivos do local a partir do uso desta descoberta, o roteiro, assinado por Aaron Fisher e Kerri Lee Romeo, entrega cedo demais a verdade. Nem mesmo deixando mistérios pelo caminho, em cerca de cinco minutos, ainda na primeira metade, já verbaliza praticamente todas as respostas – quem, como e o porquê organizou aquele retiro.

 

Embora ainda haja os desafios, e a violência física como mecânica de contenção, a ausência de sutileza no posicionamento de seus elementos-chave, em momentos anteriores, esvazia uma parte do interesse depositado pelo espectador na narrativa, porquanto cada vez menos misteriosa. O horror corporal, na forma de uma punição aos personagens em razão de seus cargos e posições na empresa, assume então as rédeas na segunda metade da obra. É o momento em que melhor acerta a direção de Aaron Fisher, enquanto habilmente capaz de provocar seu público através de passagens visualmente agonizantes, repletas de sangue, muito bem trabalhadas não apenas pela decupagem, que incomoda na maneira como não poupa a câmera de mostrar os momentos mais tensos e grotescos, sem cortes, como também da caprichada direção de arte e maquiagem, com quase tudo feito com o uso de efeitos práticos.

 

Mas até esses elementos de violência podem ser questionados dentro da dinâmica narrativa, enquanto parte das ações duvidam da inteligência e senso de oportunidade dos personagens em sobreviver, sem necessariamente sucumbir ao jogo doentio. Enquanto um, por exemplo, que reforça ter servido as forças armadas por diversas vezes, e certamente mais forte fisicamente do que qualquer dos antagonistas, simplesmente aceita, sem questionar ou sequer tentar lutar, um destino logicamente infeliz, outra personagem consegue ludibriar os vilões de maneiras óbvias e ainda lutar, sem qualquer experiência, em passagens nas quais a direção de Fisher mostra dificuldade, da montagem picotada nos momentos envolvendo tiros, à escuridão da fotografia que mascara coreografias de luta desajeitadas.

 

Assim, Corporate Retreat diverte com sua proposta, mas pouco explora de uma ideia que poderia render muito mais. Da própria revelação dos motivos que envolvem a situação, à falta de contextualização de algumas passagens e a inverossimilhança das atitudes tomadas pelos personagens, o filme perde a oportunidade de se aprofundar em suas críticas à sociedade capitalista e às dinâmicas predatórias de grandes corporações para voltar-se a uma trama de vingança pouco original. Ainda assim, sabe como incomodar o espectador através da violência e do horror corporal dentro do contexto proposto, ao menos proporcionando tensão e aflição ao público, em oitenta minutos indiscutivelmente divertidos.

 

Avaliação: 3/5

 

Corporate Retreat (Idem, 2026)

Direção: Aaron Fisher

Roteiro: Aaron Fisher e Kerri Lee Romeo

Gênero: Terror, Thriller, Comédia

Origem: EUA

Duração: 89 minutos (1h29)

Exibido no XXII Fantaspoa

 

Sinopse: Executivos da cúpula de uma corporação, reunidos em um retiro de integração organizado pelo RH, enfrentam uma luta mortal quando percebem que estão em uma grande armadilha, no meio de uma conspiração contra eles.

 

English review

 

While satirizing the corporate world through escape rooms and body horror, Corporate Retreat reveals its mysteries too easily and underestimates the viewer with implausible situations.

 

In today’s globalized world, social media has increasingly become filled with stories of people enduring bizarre HR dynamics in companies and offices. Through supposedly team-building exercises and bonding activities, these initiatives often spiral out of control - or lose their original purpose entirely. It is no coincidence that countless memes now exist about this aspect of corporate culture. If such activities can already feel exhausting during work hours, imagine spending an entire weekend “off” at a retreat with your coworkers. That is precisely the naturally horrifying scenario established by Corporate Retreat, in which the executive staff of a major tech company travels to a house outside Los Angeles in order to strengthen their relationships through exercises organized by an outsourced consulting company hired by the head of HR - who also accompanies them.

 

Naturally, for the film to function as a horror comedy, things quickly go wrong. What initially begins as a simple “self-discovery” exercise, wrapped in vaguely Buddhist philosophies and other generic spiritual concepts, gradually twists into a deadly escape-room game. Each challenge tests the participants’ skills and personal traits, eliminating one of them at a time while forcing the group to confront uncomfortable truths about themselves and the actions they have taken within the company.

 

However, despite presenting an entertaining premise - and maintaining a consistent rhythm while satirizing corporate culture through allegorical characters and the repetitive motivational language so common in these environments - Corporate Retreat struggles to structure its surprises or present its ideas in a believable way. The result is a constant breakdown of trust between viewer and film, especially since the characters rarely behave like intelligent human beings when faced with danger - despite supposedly being the top executives of a major corporation.

 

As the narrative unfolds, we come to understand that there is a conspiracy behind the chaos. The group has not fallen into this trap by accident, but has deliberately been brought there. While the film could have explored this revelation throughout the challenges - perhaps even turning it into an opportunity for the characters to survive through strategy and cooperation - the screenplay, written by Aaron Fisher and Kerri Lee Romeo, reveals the truth far too early. Barely five minutes after the mystery begins to unfold, still within the first half of the film, it has already verbalized nearly all the answers: who organized the retreat, how, and why.

 

Although the challenges and physical violence remain as mechanisms of tension, the lack of subtlety in positioning its key narrative elements drains much of the viewer’s investment, as the film becomes progressively less mysterious. Body horror then takes center stage in the second half of the story, functioning as punishment for the characters based on their positions within the company. This is where Aaron Fisher’s direction works best, skillfully unsettling the audience through visually agonizing scenes filled with blood and gore. These moments are particularly effective thanks not only to the shot composition - which refuses to look away from the most grotesque and uncomfortable details - but also to the impressive production design and makeup work, with most effects achieved practically.

 

Yet even these violent elements can be questioned within the logic of the narrative, as many of the characters’ actions defy both intelligence and survival instinct. One character, for example, repeatedly emphasizes his military background and is clearly physically stronger than any of the antagonists, yet simply accepts his grim fate without resistance or even attempting to fight back. Meanwhile, another character manages to deceive the villains through obvious tricks and engage in combat despite having no apparent experience, in scenes where Fisher’s direction struggles - from choppy editing during shootouts to overly dark cinematography masking awkward fight choreography.

 

Thus, Corporate Retreat succeeds as an entertaining concept, but ultimately explores far less than its premise could have allowed. From the early revelation of its motivations, to the lack of contextualization for certain events and the implausibility of the characters’ decisions, the film misses the opportunity to deepen its critique of capitalist society and the predatory dynamics of major corporations, instead falling back on a fairly conventional revenge narrative. Even so, it still knows how to unsettle the audience through violence and body horror within its chosen framework, at the very least delivering tension and discomfort across eighty undeniably entertaining minutes.

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