XXII FANTASPOA | The Trek, de Meekaaeel Adam (Idem, 2026)
- Henrique Debski

- há 21 horas
- 6 min de leitura
The Trek promete muito e verbaliza tudo, em experiência verborrágica que pouco usa da imagem para a construção de uma mitologia, que de tão fechada em si, impossibilita um diálogo real para com o espectador e beira o incompreensível.

Durante muitas décadas, a temática da colonização no cinema sempre foi abordada pelo olhar dos países e povos colonizadores, em retratos sobre escravidão e supressão de culturas, impondo suas próprias visões de mundo como algo único e "correto”, transformando a sétima arte, para além do entretenimento, também em uma forma de propaganda.
Com um histórico de colonização britânica similar ao da Índia, The Trek, da África do Sul, se ancora em uma proposta igualmente parecida ao momento atual do cinema indiano, em um longa que visa pela busca de uma nova visão sobre a colonização do país, em meados do século XIX. Na contramão, porém, de um épico de ação como RRR, o presente filme, independente e de baixíssimo orçamento, opta por caminhos intimistas, traçando uma linha de tensão entre a terra colonizada, os povos originários, os colonos, e um sujeito recém-chegado da Inglaterra, em uma travessia pelo deserto rumo a uma propriedade.
Em um diálogo pós-sessão, o diretor Meekaaeel Adam e o roteirista-produtor James C. Williamson chegaram a comentar que suas ideias para com o filme não procuravam pela reescrita da História do país, ou tornar seu universo anacrônico, mas tão somente reinterpretar a realidade concreta, sob outra perspectiva - certamente, em contraposição a todo um cinema defensor da colonização. No entanto, o resultado obtido se afasta substancialmente do que acreditam propor inicialmente, quando o filme, extremamente fechado à própria linguagem e simbolismos, dificilmente abre espaço para um diálogo com seu espectador, seja aquele que caíra na obra despretensiosamente, ou mesmo aquele interessado no processo de colonização do país, e conhecedor dos fatos históricos.
Embora bastante interessante o conflito que se estabelece entre seus poucos personagens, alegóricos, que juntos precisam fazer uma longa travessia de muitos dias pelo deserto sul-africano, tão logo se percebe que o filme nunca conseguirá ultrapassar a barreira do diálogo para o plano material. Existe uma evidente preocupação do diretor na reprodução de uma voz grave, na forma de uma narração em off, que ecoa para representar a terra que atravessam, a qual sofre com o processo de colonização e a violência a ele inerente, dialogando com seus personagens na forma de uma grande assombração, enquanto sozinhos, aos poucos os enlouquecendo, ao passo que a fotografia reforça que, para além da imensidão daquele espaço, não há mais ninguém para ajudá-los, caso precisem.
Acontece que tudo, no decorrer do filme, torna-se excessivamente metafórico, e quase sempre de maneiras puramente verbais. Ao invés de construir ameaças em frente à câmera, ou provocar seus personagens a partir de fantasmas reais - o que acontece ocasionalmente, de maneira genérica, com apenas sombras passando por detrás deles -, a maior parte do terror se trabalha por meio de histórias violentas contadas oralmente. As intenções ocultas, e sentimento de vingança, estão claros desde os primeiros instantes, e levam tempo e paciência para serem colocados em prática, enquanto os personagens caminham pela terra quase sem certeza de onde chegarão.
Pode até ser interessante o ritmo lento, mas depois de algum tempo com apenas pessoas caminhando, falando, e repetindo as mesmas histórias de vida, começa a se tornar exaustivo. A metáfora bíblica que crê estabelecer no entorno da travessia vai perdendo fôlego enquanto estagnada em boa parte da duração, com uma guinada no ato final, já tarde demais, considerando que a paciência do espectador já foi deveras desgastada esperando a narrativa finalmente avançar.
E não é que inexistam boas ideias, mas para além de não conseguir trabalhá-las de maneiras diferentes do que já se viu em tantos outros filmes que abordam temas correlatos à colonizações sob o ponto de vista do colonizado, no geral encontram-se mal aproveitadas em um western dramático com pitadas terror que arrasta-se por mais de cem minutos, sugerindo muito, falando muito, e construindo grandes metáforas, quando, na prática, nunca consegue se aproximar do espectador quando sua mitologia, não só pouco explorada, também impossibilita maiores bases interpretativas, debates e discussões, tornando-se uma obra que, apesar de visualmente bonita, é, na prática, opaca no pós-sessão.
Avaliação: 1.5/5
The Trek (Idem, 2026)
Direção: Meekaaeel Adam
Roteiro: James C. Williamson, J. Hannah Massyn e Sandulela Asanda
Gênero: Thriller, Terror, Drama, Western
Origem: África do Sul
Duração: 105 minutos (1h45)
Exibido no XXII Fantaspoa
Sinopse: No século XIX, um homem, a mulher grávida e uma filha pequena, atravessam as terras áridas do deserto do Kalahari na África do Sul, guiados por um homem violento. Junta-se a eles um nativo, possuidor de uma sabedoria ancestral. É ele que os vai ajudar, sentindo os espíritos do lugar, embora seja constantemente antagonizado. A luta entre o Bem e o Mal, dependente dos caprichos da Natureza.
English review
The Trek promises a great deal and verbalizes everything, resulting in a verbose experience that makes little use of imagery to construct its mythology - one so closed in on itself that it prevents any genuine dialogue with the audience and borders on incomprehensibility.
For many decades, the theme of colonization in cinema was predominantly approached through the perspective of colonizing nations and peoples, portraying slavery and the suppression of cultures while imposing their own worldview as the singular and “correct” one, transforming cinema into not only entertainment, but also a form of propaganda.
With a history of British colonization similar to India’s, South Africa’s The Trek aligns itself with a movement comparable to what contemporary Indian cinema has recently explored: a search for a new perspective on the country’s colonization during the nineteenth century. Unlike an action epic such as RRR, however, this independent, extremely low-budget film chooses an intimate approach, tracing a line of tension between the colonized land, its native peoples, the settlers, and a man newly arrived from England, all during a desert crossing toward a remote property.
In a post-screening discussion, director Meekaaeel Adam and writer-producer James C. Williamson explained that their intention was not to rewrite the country’s history or create an anachronistic universe, but rather to reinterpret concrete historical reality through another perspective - clearly in opposition to decades of cinema that defended colonization. Yet the final result drifts substantially away from what the filmmakers initially seem to propose, as the film becomes so deeply enclosed within its own language and symbolism that it rarely opens space for dialogue with the audience, whether for a casual viewer or even for someone genuinely interested in the country’s colonial history.
Although the conflict established between its few allegorical characters is compelling - a group forced to endure a long journey across the South African desert - it quickly becomes apparent that the film will never move beyond the realm of dialogue into something materially tangible. There is an evident concern from the director in the use of a deep voice-over narration echoing throughout the film, representing the land itself, suffering under colonization and the violence inherent to it. This presence communicates with the characters like a great haunting force, slowly driving them mad as the cinematography reinforces the isolation of the immense landscape surrounding them, where no one else exists to help them if needed.
The problem is that everything gradually becomes excessively metaphorical, and almost always in purely verbal ways. Rather than constructing threats directly before the camera, or confronting the characters with actual ghosts - which occasionally appear in generic fashion as mere shadows passing behind them - most of the horror is conveyed through violent stories told aloud. The hidden intentions and desire for revenge are evident from the very beginning, yet take an enormous amount of time and patience to manifest, while the characters continue wandering across the land without certainty of where they are headed.
The slow pace may initially be intriguing, but after a while, with little more than people walking, talking, and repeating the same life stories, the experience becomes exhausting. The biblical metaphor surrounding the journey steadily loses momentum while remaining stagnant for much of the runtime, only shifting gears in the final act - far too late, considering how much of the audience’s patience has already been worn down waiting for the narrative to finally progress.
It is not that the film lacks good ideas. Rather, beyond failing to develop them in ways distinct from countless other works dealing with colonization from the perspective of the colonized, these ideas ultimately feel underused within a dramatic western infused with horror elements that drags on for more than one hundred minutes. It constantly suggests, constantly explains, and constantly builds grand metaphors, yet in practice never manages to truly connect with the viewer. Its mythology is not only underdeveloped, but so opaque that it prevents broader interpretation, debate, or discussion, resulting in a work that, despite its visual beauty, feels emotionally and intellectually hollow once the screening ends.
The Trek was screened at XXII Fantaspoa.



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