XXII FANTASPOA | Peeping Todd, de Josh Munds (Idem, 2026)
- Henrique Debski

- há 1 dia
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Como um musical, Pepping Todd canta sobre stalking, e elabora um triangulo amoroso abusivo, enquanto se esquiva de abordagens problemáticas ao desvencilhar a vítima de seus pretendentes machistas.

Desafiando todas as possibilidades, eu jamais seria capaz de imaginar que um dia assistiria a um musical sobre stalking. Como um problema cada vez mais relevante, e discutido sobretudo no âmbito da violência contra a mulher, o cinema, em diversas oportunidades já se debruçou sobre o tema a partir do thriller e do terror. Não a toa Pepping Todd, já no título, presta homenagens a um clássico do cinema de terror britânico, e precursor do slasher e até do found-footage, Pepping Tom (Michael Powell, 1960).
Logo na primeira cena, com certo aspecto de teatralidade, presente no decorrer de toda a obra como um de seus melhores atributos, na maneira como alia a estética dos palcos com a do cinema, somos introduzidos ao protagonista Todd, ótimo na pele de Chris Alan Evans, em frente à residência de sua vizinha, por quem é apaixonado, escondido detrás de arbustos, a observando através de uma grande janela, localizada na sala da casa. Seu ar de homem descuidado, com vestimentas escuras, esgueirando-se pela moita, torna sua figura ameaçadora, porquanto um verdadeiro observador obsessivo, que não só invade a privacidade alheia, como também se mostra imprevisível em relação aos próximos passos.
No entanto, ainda que mantenha a postura ameaçadora em relação à obsessão, a primeira imagem do público criada quanto ao personagem se descontrói logo em seguida, quando começa a cantar, em um estilo que nos remete à música pop, com a voz afinada e trejeitos dramáticos e expressivos, de um verdadeiro musical. O que antes poderia se estabelecer como um thriller sobre stalking, com elementos de invasão domiciliar – como já realizados outras tantas vezes, no cinema norte-americano e no restante do mundo –, Pepping Todd opta por trilhar um caminho cômico, no qual forma-se um triângulo amoroso, entre o Todd, Claire, sua paixão, e Thad, o cafajeste namorado abusivo dela.
Em um primeiro instante, por estabelecer Todd como o protagonista, há uma natural inclinação por parte do público em dele sentir pena, e quem sabe até se compadecer, frente ao drama pessoal por ele vivido. No entanto, com essa possibilidade em mente, os roteiristas Chris Alan Evans e Josh Munds mostram-se conscientes de eventuais interpretações problemáticas ao longa, e certificaram-se de que o protagonista está longe de ser o herói da história. No decorrer da obra, seus hábitos são tratados como criminosos pelo próprio longa, que coloca em sua cola a associação de moradores (tratada, por outro lado, como uma instituição que beira o fascismo, a partir da síndrome de pequeno poder) e até mesmo Thad, como empecilhos para que atinja o sonho de se aproximar de Claire.
Não apenas utilizando-se de métodos violentos para evitar ser capturado, Todd também prova ser um grande machista, em busca apenas e tão somente de uma esposa troféu para chamar de sua, enquanto alguém com quem possa desfilar perante a sociedade, e controlar dentro de casa, que não o questione e com quem igualmente não se importa quanto aos sentimentos.
Ao mesmo tempo, Claire, aparentemente ingênua e vivendo como uma namorada troféu de Thad, vai ganhando consciência no decorrer dos eventos. Com humor que nos remete aos clássicos do trio Zucker, Abrahms, Zucker (Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu e Corra que a Polícia Vem Ai!), ao brincar com a profundidade de campo, em situações absurdas, a direção de Josh Mundos constrói lentamente a mudança de chave na mente da personagem, ao reconhecer o embate existente entre dois homens que não se importam verdadeiramente com ela, mas apenas com mostrá-la perante o mundo ao redor, na forma de um objeto, justamente como um reflexo comum de um cenário misógino.
E assim, com todos os momentos centrais da narrativa trabalhados a partir do musical, em letras marcantes e domínio de cena por parte de Munds na direção das coreografias, que aproveita tanto dos espaços quanto da oportunidade para trabalhar humor, Pepping Todd surpreende com um musical sobre stalking que não soa problemático – ao contrário, reconhece o protagonista como uma pessoa ruim, e tece um reflexo da misoginia ao colocar a vítima em meio a um triângulo amoroso que somente a enxerga como objeto, com referências aos palcos de teatro e ótimo uso da fantasia, tanto para articular os números, quanto para trabalhar do próprio humor.
Avaliação: 4.5/5
Peeping Todd (Idem, 2026)
Direção: Josh Munds
Roteiro: Chris Alan Evans e Josh Munds
Gênero: Thriller, Comédia, Musical
Origem: EUA
Duração: 87 minutos (1h27)
Exibido no XXII Fantaspoa
Sinopse: Quando suas práticas voyeuristas ficam ameaçadas, Todd decide fazer o que for preciso para continuar perseguindo sua amada Claire. Uma associação de moradores obsessiva e um namorado babaca se tornam obstáculos que ele precisa contornar se quiser cantar seu caminho até o coração de Claire. Enquanto ela se vê presa entre as mentiras do noivo e a teia de seu perseguidor, Claire precisa escapar dos dois relacionamentos mais tóxicos que já enfrentou.
English review
As a musical, Pepping Todd sings about stalking while constructing an abusive love triangle, skillfully avoiding problematic approaches by ultimately freeing its victim from her sexist suitors.
Defying all expectations, I could have never imagined that I would one day watch a musical about stalking. As an issue that has become increasingly relevant - especially within discussions of violence against women - cinema has often approached the subject through thriller and horror. It is no coincidence that Pepping Todd, already in its title, pays homage to the British horror classic Peeping Tom (Michael Powell, 1960), a precursor to both the slasher and even found-footage genres.
Right from the opening scene, with a certain theatricality that remains one of the film’s greatest strengths - in the way it blends stage aesthetics with cinematic language - we are introduced to the protagonist Todd, excellently played by Chris Alan Evans. He stands in front of his neighbor’s house, hidden behind bushes, watching her through a large living room window. His unkempt appearance, dark clothing, and stealthy movements make him seem threatening - a true obsessive voyeur who not only invades others’ privacy, but also appears unpredictable in his next steps.
However, while this sense of menace surrounding his obsession is maintained, the audience’s initial perception of the character is quickly dismantled when he begins to sing. In a style reminiscent of pop music, with a well-tuned voice and expressive, theatrical gestures, he transforms the tone entirely. What could have been a stalking thriller with home invasion elements - something often seen in American cinema and beyond - instead takes a comedic turn, forming a love triangle between Todd, Claire (his object of affection), and Thad, her abusive and sleazy boyfriend.
At first, by positioning Todd as the protagonist, the film naturally invites the audience to sympathize with him, perhaps even pity him. Yet, fully aware of the risk of problematic interpretations, screenwriters Chris Alan Evans and Josh Munds make it clear that Todd is far from a hero. Throughout the film, his behavior is explicitly treated as criminal. He is pursued by a homeowners’ association - portrayed, on the other hand, as an institution bordering on fascism through its petty abuse of power - as well as by Thad, both acting as obstacles to his desire to get closer to Claire.
Not only does Todd resort to violence to avoid capture, but he also reveals himself to be deeply misogynistic, seeking nothing more than a trophy wife - someone he can display socially and control domestically, without regard for her feelings.
Meanwhile, Claire - initially presented as naive and trapped in her role as Thad’s trophy girlfriend - gradually gains awareness as events unfold. With humor reminiscent of the classics by the Zucker, Abrahams, Zucker trio (Airplane! and The Naked Gun), particularly in its playful use of depth of field in absurd situations, Josh Munds’ direction slowly orchestrates a shift in her perspective. She comes to recognize the conflict between two men who do not truly care about her, but rather see her as an object to be displayed - a reflection of a deeply misogynistic environment.
Thus, with all of its key narrative moments expressed through musical numbers - featuring memorable lyrics and strong directorial control over choreography, making full use of space and comedic timing - Pepping Todd emerges as a surprising musical about stalking that does not feel problematic. On the contrary, it clearly identifies its protagonist as a flawed, harmful individual, while offering a critique of misogyny by placing its victim within a love triangle that reduces her to an object. With theatrical influences and a creative use of fantasy - both in structuring its musical sequences and shaping its humor - the film proves to be as inventive as it is thoughtful.
Pepping Todd was screened at XXII Fantaspoa.



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