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25º TRIBECA FILM FESTIVAL | Alicia Keys: Girl From Hell’s Kitchen, de One9 (Idem, 2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
1 de jul.
7 min de leitura

Com Alicia Keys ao centro, Girl From Hell’s Kitchen explora três vertentes distintas de forma profunda e organizada, culminando na importância do bairro para a formação da cantora, e a realização do sonho de escrever um musical para a Broadway.


 

Quem me acompanha há mais tempo por aqui, já deve ter percebido que não sou exatamente um grande conhecedor do mundo da música. Brinco sempre que não dá para sabermos sobre tudo o tempo todo, algo sempre vai ficar para trás. Enquanto dedico mais atenção à arte do cinema, à televisão e aos games, a música, infelizmente, acaba ficando para trás – na verdade, ouço muito mais do que conheço sobre o que efetivamente estou ouvindo, entre históricos dos artistas, evolução, discografia, álbuns e prêmios (longe de mim ter a competência necessária para escrever uma crítica sobre o novo disco de um artista).

 

No entanto, os caminhos do cinema e da música inevitavelmente se interligam, seja em forma (afinal, não se fala em ‘audiovisual’ à toa) ou em conteúdo. Quando entrei para o documentário Alicia Keys: Girl From Hell’s Kitchen, filme de encerramento do 25º Festival de Tribeca, não sabia o que poderia esperar, e no mínimo acreditei que, na pior das hipóteses, sairia conhecendo um pouco mais do trabalho da cantora. O resultado, porém, me surpreendeu por ir muito além de um filme centrado na figura dessa artista.

 

Ainda que o documentário de One9 não fuja tanto de uma estrutura narrativa bastante tradicional, em especial com os primeiros minutos que fazem um apanhado geral da temática a ser tratada na obra, a exímia organização de Alicia Keys: Girl From Hell’s Kitchen já o torna um projeto mais envolvente pela maneira como trabalha seus diferentes eixos temáticos a partir dos elementos que os interligam – e sobretudo, sua protagonista.

 

Com Alicia Keys ao centro de tudo (obviamente), o filme parte de três bases distintas: a infância da artista, com partes de sua vida pessoal, fatos e pessoas que a impulsionaram a ser quem se tornou; a cidade de Nova York, com ênfase no bairro de Hell's Kitchen, onde ela cresceu; e o sonho da artista em chegar à Broadway, com a dedicação ao musical que toma emprestado o nome do bairro e baseia-se, vagamente, em suas lembranças do passado. Existe uma enorme preocupação de que as transições entre os temas, no decorrer do filme, façam sentido. Para tanto, a escrita cuidadosa, acompanhada da montagem, deixam ganchos entre os eixos temáticos, a fim de que não sejam explorados apenas individualmente, mas como partes de um todo, e alavanquem o desenrolar da narrativa, sempre seguindo adiante, provando a necessidade dessa abordagem abrangente, como forma de se aprofundar na persona de Alicia e suas ambições.

 

A mistura entre imagens de arquivo, tanto de Nova York quanto pessoais, da própria cantora, ilustram de maneira dinâmica a forma como a história da cidade se encontra com a da artista, e vice-versa, como um dos rostos que definem a cena cultural desta gigante metrópole. Ao mesmo tempo, nasce também uma atriz, com a jovem Maleah Joi Moon assumindo o protagonismo do musical nos palcos, e caminhando pelo bairro na companhia de Alicia, conhecendo suas inspiração a fim de compreender o que havia por detrás da peça que protagoniza.

 

O processo criativo, nesse sentido, não é esquecido pelo olhar do diretor, que explora, na montagem da peça, também o significado de cada canção e composição, bem como os esforços de Keys, em parceria com o diretor de teatro Kristoffer Diaz, para dar vida ao sonho. Toda a evolução da narrativa, e a construção dessa peça, torna-se muito orgânica no equilíbrio da montagem em todos esses arcos, que justificam cada decisão da artista em sua obra semiautobiográfica, que evoluiu dos palcos off-Broadway para a própria Broadway, sem deixar de lado elementos de sua vida presente, como marido e filhos, ainda que superficialmente, justamente com fulcro em evitar um desvio de foco.

 

Na prática, Alicia Keys: Girl From Hell’s Kitchen serve especialmente como propaganda ao musical Hell’s Kitchen, uma das muitas opções de espetáculo para se assistir na Broadway. No entanto, vem embalado em algo muito maior, como um grito de vitória por parte de Alicia na forma de uma realização pessoal, ao mesmo tempo que conhecemos parte de sua história de vida, com sentimento e profundidade na abertura de sua intimidade, a fim de unir, da melhor forma, a importância da cidade de Nova York e de seu bairro para a própria formação. Tudo isso, ainda, em um documentário preocupado com a imersão do público, organizado na articulação de seus eixos narrativos, destacando suas respectivas importâncias, e claro até na maneira como indica a identidade dos depoimentos em voice-over e entrevistas. Com a catarse dos instantes finais, é um documentário muito eficaz – não apenas porque me deixou interessado em um dia assistir ao musical, mas porque também me fez procurar para ouvir e conhecer mais do trabalho de Alicia Keys.

 

Avaliação: 4.5/5

 

Alicia Keys: Girl From Hell’s Kitchen (Idem, 2026)

Direção: One9

Gênero: Documentário

Origem: EUA

Duração: 95 minutos (1h35)

Exibido no 25º Tribeca Film Festival (filme de encerramento)

 

Sinopse: Alicia Keys relembra sua infância em Hell’s Kitchen, em Manhattan, e a trajetória que a levou das ruas intensas da Nova York dos anos 1990 aos palcos da Broadway, em Tribeca.

 

English review

 

With Alicia Keys at its center, Girl From Hell’s Kitchen explores three distinct narrative threads with remarkable depth and organization, culminating in the importance of the neighborhood to the singer's upbringing and the fulfillment of her dream of writing a Broadway musical.

 

Those who have followed my work for some time have probably noticed that I am not exactly a great connoisseur of the music world. I often joke that it is impossible to know everything all the time - something will inevitably be left behind. While I devote far more attention to cinema, television, and video games, music unfortunately tends to take a back seat. In truth, I listen to far more music than I actually know about, whether regarding artists' histories, their evolution, discographies, albums, or awards (far be it from me to claim the expertise necessary to write a review of an artist's latest album).

 

The worlds of cinema and music, however, inevitably intersect - whether through form (after all, the term "audiovisual" exists for a reason) or through content. When I attended Alicia Keys: Girl From Hell’s Kitchen, the closing film of the 25th Tribeca Festival, I had no idea what to expect, and at the very least assumed I would leave having learned a little more about the singer's work. The result, however, surprised me by becoming something far greater than a film centered solely on the artist herself.

 

Although One9's documentary follows a fairly traditional narrative structure, particularly in its opening minutes, which provide a broad overview of the themes the film intends to explore, the outstanding organization of Alicia Keys: Girl From Hell’s Kitchen immediately makes it a far more engaging project through the way it develops its different thematic axes from the elements that connect them - and, above all, through its protagonist.

 

With Alicia Keys at the center of everything, the documentary is built upon three distinct foundations: the artist's childhood, including aspects of her personal life, the events and people who helped shape who she became; the city of New York, with particular emphasis on the Hell's Kitchen neighborhood where she grew up; and her dream of reaching Broadway through the musical that borrows the neighborhood's name and is loosely inspired by her memories of the past. The film demonstrates a clear concern that every transition between these themes feels meaningful. Careful writing, combined with precise editing, creates narrative bridges between these different axes, ensuring they are never explored in isolation but rather as interconnected parts of a larger whole that continually propel the narrative forward, proving the necessity of such a comprehensive approach to fully understand Alicia's personality and ambitions.

 

The blend of archival footage - both of New York City and of Alicia herself - dynamically illustrates how the history of the city intertwines with that of the artist, and vice versa, presenting her as one of the defining figures of the cultural identity of this great metropolis. At the same time, another performer emerges through young Maleah Joi Moon, who assumes the lead role in the stage production and walks through the neighborhood alongside Alicia, learning about her inspirations in order to better understand what lies behind the musical she now stars in.

 

The creative process itself is not overlooked by the director's perspective. Through the development of the production, the film also explores the meaning behind each song and composition, as well as Keys' collaborative efforts with playwright Kristoffer Diaz to bring this dream to life. The narrative's evolution, alongside the creation of the musical, unfolds with remarkable naturalness thanks to the careful balance achieved by the editing across all these storylines, justifying every artistic decision behind this semi-autobiographical work, which evolved from an Off-Broadway production to Broadway itself. Even elements of Alicia's present personal life, such as her husband and children, are briefly acknowledged, though only superficially, wisely avoiding any unnecessary shift in focus.

 

In practice, Alicia Keys: Girl From Hell’s Kitchen undeniably serves as a promotional piece for Hell's Kitchen, one of the many productions currently available on Broadway. Yet it arrives wrapped in something far greater - a triumphant celebration of Alicia's personal achievement while simultaneously inviting audiences to discover part of her life story with sincerity, emotion, and remarkable openness. In doing so, the documentary beautifully conveys the importance of New York City, and especially the Hell's Kitchen neighborhood, in shaping the woman and artist she became. All of this unfolds within a documentary deeply committed to audience immersion, meticulously organized in the way it develops its narrative threads, emphasizing the importance of each while remaining admirably clear, even in its identification of voice-over commentary and interview subjects. By the time it reaches its emotional final catharsis, it proves to be an exceptionally effective documentary - not only because it made me want to see the Broadway musical someday, but also because it inspired me to explore and listen to much more of Alicia Keys' music.

 

Alicia Keys: Girl From Hell’s Kitchen premiéred at the 25th Tribeca Film Festival (Closing Night).

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