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CRÍTICA | Invocação do Mal 4: O Último Ritual, de Michael Chaves (The Conjuring: Last Rites, 2025)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 9 de set. de 2025
  • 4 min de leitura

Invocação do Mal 4 encerra a franquia na hora certa, na aproximação com a família Warren, e uma direção mais inspirada, ainda que presa às mesmas fórmulas.


 

Sempre que um filme do universo de Invocação do Mal chega com a assinatura de Michael Chaves na direção, é natural de se gerar uma certa desconfiança no projeto. Desde o fraquíssimo A Maldição da Chorona, Chaves se apresentou, em todas as oportunidades, como um diretor limitado que encontra claras dificuldades de imprimir uma assinatura própria, trabalhando à sombra de James Wan, emulando seu estilo, porém sem nunca compreender de fato a essência do terror e o como manter uma atmosfera densa sem desperdiçá-la com um susto.

 

Não que os demais cineastas envolvidos na direção de derivados da franquia tenham se saído bem (com a única exceção de David F. Sandberg, em Annabelle 2: A Criação do Mal), mas ao menos havia uma tentativa em investir num estilo novo, ainda que fraco ou genérico demais. E não é de surpreender que Chaves, nesta nova entrada à franquia, tenha repetido a mesmíssima fórmula de seus últimos longas.

 

É até engraçado que, relendo o que escrevi nesta mesma época em 2023, todas os apontamentos feitos ao fraco A Freira 2 podem ser reiterados nesta sequência final de Invocação do Mal, que comete os mesmos erros ao investir, durante cento e trinta minutos, na mesma fórmula de susto e aparição. No entanto, se lá os personagens não eram interessantes o suficiente para que nos envolvêssemos na ação, e mais ainda, para nos preocupar com eles de verdade, em Invocação do Mal 4: O Último Ritual as coisas já funciona de maneira melhor, só que não pelo trabalho de direção em si, mesmo que superior, mas sim pelo clima de despedida e apelo ao Ed e Lorraine Warren vividos tão intensamente e com tanto carinho por Patrick Wilson e Vera Farmiga, cuja química desenvolvida ao longo de anos trabalhando juntos foi tamanha que somos capazes de imaginá-los, até mesmo fora das telas, como um casal de verdade.

 

Na esteira de um “último caso”, o longa passa boa parte de seu tempo estabelecendo as razões para a aposentadoria do casal, em suas fragilidades pela idade, e, mais ainda, como humanos. Agora já com sua filha crescida, uma jovem adulta, o mistério chega até eles através de uma conexão com o passado, e mesmo relutantes, decidem enfrentar juntos, em família, a ameaça sobrenatural que aterroriza a família Smurl, e que os relaciona diretamente.

 

Por um aspecto, a veracidade aos fatos que inspiraram o longa é deixado de lado em uma livre adaptação em relação à própria vida do casal Warren da ficção, idealizada, alterando datas e anos – como o nascimento da filha, Judy, e do próprio caso Smurl, empurrado em uma década. Tais mudanças, no entanto, encontram respaldo no reforço à própria autoconsciência da obra em compreender o aspecto controverso do trabalho desenvolvido pelos Warren ao longo da vida, sobretudo diante da não aceitação por parte da Igreja Católica. Ainda assim, são vistos como heróis dentro de um universo cinematográfico, que ainda com o letreiro de “inspirado em fatos”, não há uma busca pela crítica ou mesmo questionamento, mas tão somente pela dramatização do horror de forma estritamente comercial, como um produto, sem guardar tanta precisão com os fatos propriamente.

 

Seguindo numa fórmula que espelha elementos do segundo filme, como a família, o ambiente urbano, a residência claustrofóbica e a ameaça que se esconde por detrás de fantasmas, o aspecto pessoal desse “mistério final” faz com que a câmera se volte muito mais aos Warren do que aos Smurl, meras vítimas de uma entidade demoníaca que, novamente, usa de pessoas inocentes para perseguir o casal de investigadores paranormais.

 

Se não consegue reproduzir com criatividade a tensão da atmosfera daquele longa, novamente não duradoura enquanto se dissipa a cada susto, levando algum tempo até se reconstruir, Michael Chaves pelo menos se mostra mais confiante e até interessado por uma abordagem mais próxima de seus personagens, com ênfase nos sentimentos, e até investe na experimentação em algumas sequências, com a câmera em primeiro plano e com close no rosto do ator em cena, como forma de nos sufocar junto a ele durante uma possível possessão. Vai além, com a batalha final materializando simbolicamente o perigo da profissão, daquilo no qual estão envolvidos, como dois casais lutando contra a entidade e construindo juntos um legado familiar, passado dos pais para a filha e seu namorado (e posteriormente atualmente marido). Mas apesar de tudo isso, ainda falta uma ameaça palpável de verdade, com seus fantasmas assustadores pouco aproveitados pela própria narrativa, e justamente pela inspiração em fatos, sabermos que as vidas de Ed e Lorraine, ou mesmo de sua filha, não terminarão naquele momento.

 

Então, ao mesmo tempo que a aproximação com a realidade torna o clima de Invocação do Mal, no geral, mais assustador, seu apego nessas biografias fictícias e idealizadas, ainda que com circunstâncias modificadas, atrapalha na possibilidade de sentirmos o verdadeiro perigo que se esconde por detrás da entidade da vez, chegando ao ápice no presente projeto, em algo exageradamente calculado, e demasiadamente segmentado, em rígidas sequências de sustos e investigações, que pelo menos se sustentam de maneiras melhores que as de todos os longas anteriores assinados por Chaves.

 

E embora não seja Invocação do Mal 4: O Último Ritual o melhor dos longas da franquia ou mesmo do universo estendido, ainda se sustenta como um encerramento razoável para uma franquia, e na hora certa, diante dos claros sinais de desgaste ao longo dos anos repetindo um mesmo tipo de terror cada vez menos interessado nas histórias que conta, e mais preocupado em sustos baratos e criaturas para sequências. A verdade é que James Wan faz falta, com sua visão de cinema autoral, e Michael Chaves, um “imitador”, prova que pode melhorar, mas jamais chegará ao mesmo nível, ou algo parecido, apenas reproduzindo um estilo sem compreender sua essência, ou criar uma própria.

 

Avaliação: 3/5

 

Invocação do Mal 4: O Último Ritual (The Conjuring: Last Rites, 2025)

Direção: Michael Chaves

Roteiro: Ian Goldberg, Richard Naing, David Leslie Johnson-McGoldrick e James Wan

Gênero: Terror, Thriller

Origem: EUA, Canadá

Duração: 135 minutos (2h15)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: Quando o casal de investigadores paranormais Ed e Lorraine Warren se encontram presos a mais um medonho caso envolvendo uma assombração misteriosa, que logo se torna pessoal, eles se vêem na obrigação de resolverem tudo pela última vez.

 
 
 

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